terça-feira, 20 de junho de 2017

Amassados


Amassados! Cara, você não consegue desligar o botão de negócios, não é mesmo?”


“Pois é, parece que vem assim sabe...”, os dois riem quando o segundo treme um pouco os ombros e faz uma careta demonstrando o “assim sabe...”.

O primeiro ainda está trabalhando na firma com os outros sócios. O segundo se aposentou há uns seis meses e estava ali, em uma galeria, expondo seu primeiro trabalho artístico aos 50 e poucos anos. Amassados era o título. Ele continuou:

“Na verdade eu comecei porque estava entediado. Depois de duas semanas aposentado parecia que o dia demorava pra passar. Não tinha nada pra fazer! Eu acordava. Tomava um café. Ia na banca, comprava um jornal, passava na padaria, comia um pão na chapa, ficava um pouco na praça lendo o jornal, olhava o relógio e nove horas da manhã! Pelo amor de Deus, se continuasse assim eu ia me matar. Aí teve um dia que eu passei na banca pra comprar o jornal e vi lá no alto: Aprenda a desenhar. Comprei!”

“Simples assim?”

“É! Eu nunca pensei que eu ia desenhar na minha vida. Quer dizer, todo mundo desenha na escolinha, mas depois aprende a ler e noventa e nove por cento desiste.”

“Eu ainda não consigo te ver desenhando...”

“Não, mas espera aí... Eu não consegui. Quer dizer, olha pra isso aqui...”, ele aponta pra um dos desenhos expostos. Ele põe a mão próxima à boca e fala baixinho: “Eu não pagaria nem um centavo pra ter uns desenhos feios como esses na minha parede...”

“Ah, mas não estão tão ruins. Aquele da casa até que tá legal.”

“É, ok, mas esse não é o ponto. O ponto é que eu entrei numa papelaria, comprei um daqueles pacotes de folha de sulfite, que nem aquelas que a gente tinha no escritório pra imprimir, só que maior sabe... Bom, são essas aqui na galeria; uns lápis e borracha e voltei pra casa. Abri o livro e comecei a praticar. Mas estavam ficando uma porcaria. Cada desenho que ficava ruim eu amassava e jogava no chão mesmo. Fiz isso umas duas semanas. Treinava todo santo dia. O problema era que a cada frustração eu ficava mais irritado. Até que um dia eu falei: ‘Chega! Pronto! Já tô farto disso!’”

“Poxa...”

“É, mas olha só, depois de uns três dias sem desenhar eu entrei no quarto onde estavam os papéis, parei e fiquei olhando aquela montanha de papel e tive a ideia de fazer essa exposição. Falei com uma conhecida que me indicou essa galeria e aqui estamos. Semana que vem eu faço a minha primeira palestra.”

“Nossa, estou impressionado... Qual é o nome?”

 “A força das artes na vida do homem contemporâneo. É só umas baboseiras sobre como nessa sociedade em que a correria toma conta de nossas vidas nos sentimos amassados pelo sucesso ou a falta dele. Entendeu? Bom, vai me manter a cabeça ocupada por mais um tempo. He, He...”

“Boa sorte cara, boa sorte...”

Os dois de cumprimentam com o aperto de mão. O “artista” fica ali apreciando sua obra enquanto o outro vai pegar outra bebida para aguentar o discurso que está por vir.


Conto de Lucas Beça

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