terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Uma noite de triunfo e descontrole


Um mosquito rondava sua cabeça. Ele ainda não percebera. Estava focado em sua missão de lavar toda aquela louça acumulada durante um dia inteiro cheio de cafezinhos e a lambança que fez ao cozinhar o molho do macarrão. Estava enxaguando os copos. O mosquito o rondava.


Não lembrava quando pegou tanta birra contra mosquitos, moscas, baratas... Na verdade todo tipo de inseto. Pensava seriamente em ir consultar um psicólogo. Ao ver qualquer um deles, uma terrível raiva tomava conta de si. Passava a não ver nada além do maldito voador. Geralmente voavam, e a tarefa de exterminá-los se tornava ainda mais árdua.

Terminara de enxaguar os copos. Uns oito. Passaria para a panela. A pior parte. Se pudesse, pagaria alguém apenas para lavar as panelas. Não precisaria fazer mais nada. Apenas entrar em sua casa, lavar as panelas e ir embora. O resto ele não se importava.

O mosquito continuava rondando sem ele perceber.

Colocou mais detergente na esponja já gasta e pegara a infeliz. Cerrou os olhos. Fez uma careta de nojo. Encarou-a por um momento como se ela fosse fazer o trabalho sozinha. Começou a esfregar. Começou por dentro, depois passou a esponja por fora. Por último o cabo. Enxaguou. Ainda estava engordurada. Cerrou os dentes. O mosquito ainda rondando. Ele sem perceber. Ainda mais agora que estava focado na terrível panela em suas mãos.

Colocou-a de lado e debruçou-se sobre a pia. Respirou fundo. Fechou os olhos. Sentiu algo em seu nariz. Bem sutil. Como as finas patas de um certo inseto. Rapidamente pegou a esponja. Bateu-a em seu rosto. Junte a raiva da panela com a do mosquito e você terá uma ineficiente máquina de matar.

Ele passou zumbindo por sua orelha, o que só o deixou ainda mais nervoso. Foi correndo até a dispensa. Pegou o inseticida e apertou a lata o mais forte que pode, andando de um lado para o outro da cozinha, da sala, mirando nas paredes e nos cantos onde o inseto poderia ter se escondido.

Cansou-se. Pôs as mãos sobre o joelho. Sentou-se no sofá. Respirava rápido por conta do esforço. O cheiro do veneno entrando em suas narinas, fazendo o espirrar. Mas tudo valeria à pena quando ele visse o bicho morto. Tirou o sabão de sua cara e deitou a cabeça no sofá. Descansou por alguns segundos.

Voltou sua atenção ao mosquito. Tentou ver onde estava. Não ouvia nenhum zumbido agora. Viu, bem ali, na parede atrás do sofá. Deu um tapa e matou o mosquito, que grudou na parede branca. Uma imensa alegria tomou conta de seu peito.

Começou a rir incontrolavelmente. O vizinho do apartamento ao lado gritou para que ele parasse com essas coisas de louco. Ele continuou, mais alto agora, só para provocar. Ficou sem fôlego, mas ainda com um sorriso de orelha a orelha.      

Até voltar para a panela na cozinha, que havia esquecido completamente. Pensou seriamente em passar a pedir marmitex da lanchonete ao lado.


Conto de Lucas Beça

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