segunda-feira, 7 de novembro de 2016

AMIZADE ETERNA

Conto de Gustavo do Carmo

Eram amigos inseparáveis quando crianças e adolescentes. Mas tinham personalidades diferentes. Geraldo era tímido, caseiro e dependente dos pais. Ezequiel era mais esperto e independente.

Moravam no mesmo prédio no subúrbio da cidade. Conheceram-se quando Geraldo tinha seis anos e Ezequiel quatro. O pai de Geraldo, gerente regional de uma empresa de ônibus, era dono do apartamento enquanto Ezequiel morava de aluguel com os pais e três tios, irmãos mais novos de sua mãe.


Brincavam muito. Ficavam um dia inteiro na casa do outro. Geraldo gostava de ver a moto Honda CG400 do pai de Ezequiel, que era programador de informática. Foi na casa deste que Geraldo mexeu num computador pela primeira vez. E brincavam nos jogos que demoravam muito para carregar na fita. Caíam na gargalhada quando Ezequiel mudava, no código-fonte, a configuração de um programa de atividades educativas para o sistema só rodar besteiras.  Já Ezequiel gostava de viajar com a família de Geraldo. E era muito querido pelos primos do amigo.

No entanto, ambos precisavam de autorização dos pais e da irmã mais velha, no caso de Geraldo. Este, aliás, acompanhou o nascimento do irmão mais novo de Ezequiel. Quando o menino Luciano cresceu, passou a implicar com ele. Quando amadureceu, pensou muito em se desculpar, querendo dizer que o problema era por ele ser um bebê, que Geraldo odiava. Mas não teve a oportunidade de pedir perdão.

Os dois também brigavam muito. Geraldo, se autoreconheceria depois, era muito ciumento e invejoso. Incomodava-se quando Ezequiel dava mais atenção aos primos moradores da Barra da Tijuca e um vizinho antipático que morava em um sobrado próximo ao prédio ou quando ganhava um brinquedo ou material escolar melhor que o dele. E também não gostava de emprestar suas coisas para ele. Mesmo quando Ezequiel foi internado após sofrer um acidente.  Mas faziam as pazes com cartinhas jurando amizade eterna.

Geraldo também era muito sincero. Dizia na cara de Ezequiel que não gostava dos primos dele. Chegou a acusar um deles de ter roubado um bonequinho do Comandos em Ação. Injustamente. O verdadeiro culpado era o tio de Ezequiel, apenas cinco anos mais velho do que o sobrinho e que tinha má índole. Foi até expulso de casa pelo cunhado. E do pai de Ezequiel, Geraldo confessava para o amigo que tinha medo, pois já testemunhou algumas broncas violentas que o amigo levava e tinha medo de sobrar para ele. Com o tempo, Geraldo entendeu que o pai de Ezequiel era apenas um homem reservado e que queria educar o filho. 

A amizade eterna ficou ameaçada. Geraldo mal tinha entrado na adolescência quando Ezequiel, aos onze anos, anunciou que iria se mudar com a família para Juiz de Fora. Seu pai tinha sido transferido no trabalho (na verdade pediu transferência para fugir do Rio) e iria morar em um condomínio com piscina e Geraldo se mordia de inveja.

A amizade eterna se transformou em aparições. Ezequiel começou a visitar Geraldo, esporadicamente, no Rio. A primeira no ano seguinte à mudança. Ele não deixava de contar as suas vantagens e realizações, motivo pelo qual o amigo tímido ficava tão incomodado. Já adolescente e mais maduro, guardava a sua inveja para si.

Ezequiel voltaria ao Rio uma vez por ano. Em uma dessas passagens visitou Geraldo somente para anunciar que iria a uma reunião só com amigos que conheceu na internet, ainda nascente na época. Geraldo se sentiu excluído.

No ano seguinte, Ezequiel ligou para se hospedar em sua casa. Sem intenção de recusar a visita do amigo viajante, Geraldo disse que todo em casa estava gripado. E estava mesmo. Obviamente, Ezequiel se sentiu rejeitado e não procurou mais.

Cinco anos depois, já dependente da internet, Geraldo conseguiu, não se lembra como, localizar o e-mail de Ezequiel e lhe mandou uma mensagem esclarecedora, se culpando por não ser um bom amigo. Fez um verdadeiro drama, na verdade. Ezequiel respondeu, perdoou os erros do amigo, disse que se formou em informática, que trabalhou numa fábrica de automóveis, mas... se afastaram de novo.

Mais três anos depois, Geraldo voltou a localizar Ezequiel em uma rede social, já extinta. Se adicionaram num aplicativo de bate-papo e passaram a conversar todas as noites. Ezequiel contou que sua mãe sofreu um derrame e ficou semi-paralisada. E ainda reclamou do irmão que já tinha se tornado adulto, mas não queria nada na vida.

Um dia, Ezequiel anunciou que estava se mudando para São Paulo, a convite de um amigo, para abrir uma empresa de telemarketing. Meses depois, Geraldo disse que viajaria a capital paulista para assinar o contrato de publicação do seu primeiro livro por uma editora de lá. Marcaram de se encontrar.

Acompanhado do seu primo, que o levou de carro para São Paulo, Geraldo foi visitar o escritório da 
empresa de telemarketing do amigo de infância em um prédio comercial da cidade. Geraldo e o primo acharam estranho verem a sala com poucos funcionários e sem telefones tocando.

Os três foram de metrô (lotado), do prédio, na Avenida Paulista, até a sede da editora, que ficava no bairro República. Ezequiel até subiu, entrou na sala com Geraldo e participou da reunião. Voltaram de metrô para a Paulista e se despediram na porta do edifício onde ficava o escritório de Ezequiel.

Geraldo voltou ao Rio com o primo. Ele e Ezequiel nunca mais se viram pessoalmente. Apenas se falavam pela internet. Em maio do ano seguinte, Geraldo voltou a perder contato com o amigo. A última notícia que teve de Ezequiel foi que ele tinha comprado uma moto e que viajaria pelo país. Ele sequer apareceu no lançamento do seu livro.

Geraldo ficou chateado. Não procurou mais. Estava mais preocupado com o seu livro e o sonho de iniciar carreira de escritor. Mas um dia resolveu procurar Ezequiel em uma nova rede social da moda.
Chegou a localizar um homem muito parecido com a última aparência do seu amigo de infância. Mas era outra pessoa com o mesmo nome. Ou era Ezequiel mesmo que fingiu não conhecê-lo para evitar contato.

Nove anos depois do último contato pela internet, Geraldo foi procurado por Ezequiel. Pessoalmente. Já estava desiludido e aborrecido com tantas idas e vindas do amigo nômade. Também  estava magoado com várias outras amizades perdidas na internet e na faculdade. Já não tinha nenhum amigo para conversar.

Estava em Cabo Frio, indo buscar a mãe na fisioterapia, quando foi abordado por Ezequiel. Gostaria de dizer tudo o que aconteceu com a sua família. Dizer que perdeu quase todos os seus tios paternos e uma materna. Dizer que sua avó morreu. Que publicou outro livro e agora é blogueiro. Que viajou para a Europa. Que sua irmã se casou... tinha muito assunto para colocar em dia. Geraldo acabou não dizendo nada. Apenas esbravejou, meio de brincadeira, meio seriamente:

— Nem vem, Ezequiel! Você vive sumindo e reaparecendo. Parece fantasma. Desta vez não vou dar confiança para você.

— Não precisa. Respondeu Ezequiel. Virei fantasma mesmo. Morri num acidente de moto na estrada há oito anos. 

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