segunda-feira, 19 de setembro de 2016

CAROLA

Conto de Gustavo do Carmo




Vai começar mais uma missa dominical na paróquia de Santa Rita. Os fiéis já estão sentados em seus bancos, esperando o padre que entra em procissão, precedido, na sequência, pelos coroinhas com o incenso, o ostensório e os cálices; os ministros com as velas; um dos diáconos com a cruz e outro com a Bíblia e, finalmente, o padre Olímpio.

Ele vai olhando em volta da nave à procura dos seus fiéis mais assíduos. Seu Canázio, ex-mendigo e ex-alcóolatra; Seu Joaquim, dono da mercearia da esquina, que comparece todos os domingos vestido de terno e gravata; Donas Donana e Mariana, gêmeas quarentonas que nunca se separaram e nunca se casaram (aliás, a missa é na intenção do aniversário delas); Dona Clotilde, idosa que viveu os seus 90 anos no bairro, acompanhada de sua empregada Jurandir, e Dona Carolina, outra idosa, mas com 75 anos, que ia sozinha à missa, mesmo com problemas de locomoção. Todos estavam lá.

Menos Dona Carolina que, até sofrer algumas quedas em casa, não perdia uma única missa e sempre dava uma lista de pessoas a serem mencionadas na cerimônia. Já durante a semana se confessava ou ia à adoração ao Santíssimo.

No entanto, faz um mês que ela não frequenta a missa. No último ano ela vinha faltando duas e aparecendo em apenas uma. No início, padre Olímpio ficou preocupado, achando que ela tivesse morrido. Mas se tranquilizou quando ela apareceu normalmente. Na semana seguinte faltou de novo. E aí se iniciou a tal rotina.

Dona Carolina pagava dízimo todos os meses. Quando não podia ir à missa do domingo,mandava o filho ateu pagar durante a semana. Aliás, não mandava. Ele que concordava em ir para não deixar a mãe andando sozinha na rua. Tinha medo de que ela fosse atropelada.

Geraldo, o filho da Dona Carola, seu apelido, se limitava a apenas entregar o dinheiro à secretária da paróquia ou ao próprio padre Olímpio e pegar o recibo. Educado, seu único gesto de generosidade era tranquilizar o padre que a mãe estava bem. Ela só não ia à missa porque, num dia, acordava com dor nas cadeiras ou a família estava passando uma semana em Cabo Frio. Às vezes, ele levava a mãe para pagar o dízimo e a contribuição para as obras da igreja.

Depois desta missa, Dona Carola continuou não aparecendo nas cinco seguintes. Padre Olímpio se desesperou quando ela nem o filho não pagaram mais o dízimo. Aí ele mandou a secretária telefonar para a casa dela.

Ninguém atendeu. Padre Olímpio teve a certeza de que eles se mudaram para Cabo Frio. Ou foi embora com o filho para São Paulo? Nem um casal de ministros, ex-vizinhos de Dona Carola, sabia do paradeiro dela.

“Vai ver o filho dela conseguiu o tão sonhado emprego de jornalista em São Paulo.” Pensou o padre, que teve a certeza de que ela não morreu, pois seria procurado pela filha casada de Dona Carolina para realizar a missa de sétimo dia.

Padre Olímpio seguiu com a sua vida. Tinha outros fiéis para dar atenção. Ganhava novos e perdia outros, além de Dona Carola. Dona Clotilde, mesmo, faleceu. Em compensação, fez amizade com um casal recém-mudado para o bairro, que matriculou dois filhos no catecismo e aguardava o terceiro na barriga da mulher.

Um dia, Olímpio foi procurado por Seu Canázio na sacristia. O ex-mendigo, que voltou a beber, mas comparecia sóbrio à igreja, lhe contou que viu Dona Carolina entrando numa igreja evangélica. Mais precisamente na Igreja Conquistar o Poder de Deus, que controla até uma grande rede de televisão.

Padre Olímpio sabe que Seu Canázio voltou a beber. Por isso, duvidou de sua palavra, mesmo dizendo que acreditava no fiel. Mas pediu para o ex-mendigo o levar para a igreja que Dona Carolina estaria frequentando.

No dia seguinte, ao lado de Canázio, Olímpio encontrou Dona Carolina, acompanhada de uma senhora mulata, entrando na igreja evangélica, construída no local de um antigo cinema, a algumas quadras da paróquia de Santa Rita. Ficou observando, do outro lado da calçada, a sua ex-fiel.

Um minuto depois que ela e sua acompanhante entraram, padre Olímpio e Seu Canázio atravessaram a calçada e ficaram parados na porta do templo. Não precisavam nem entrar. Os gritos do pastor ecoavam pela rua inteira. Falava a toda hora em demônio, inferno, óleo, pecadores, perdão e regenerados.

Olímpio viu, perfeitamente, Dona Carolina com os braços estendidos em forma de oração. Era possível, também, vê-la cantando, com vigor, hinos que nunca cantara na sua igreja. O que doeu na alma do padre católico e o fez virar os olhos imediatamente foi o momento da oferta. Jurou ver Dona Carolina jogando duas notas de 50 reais na cesta, enquanto que na sua igreja só recebia notas de 2 e algumas moedas.

Em seguida, outra cena chocou ainda mais o padre Olímpio. Dona Carolina subiu ao altar e foi exorcizada. Saiu da igreja indignado. Esperou por ela em um carrinho de pipoca. Meia hora depois, assim que a viu saindo do templo (se recusava a chamar aquilo de igreja), tocou em suas costas. Ela ficou surpresa, mas desconfiada:

— Padre Olímpio! O Senhor por aqui!
— Eu estava passando pela rua e, por acaso, vi a senhora. Ele mentiu. — E os seus filhos? Como vão?
— Ah, seu padre. A minha filha vai me dar um neto e o meu filho conseguiu um emprego em Belo Horizonte.
— Que ótimo. Meus parabéns duplos.
— Obrigada.
 — Que mal me pergunte, mas o que senhora está fazendo aqui? Se converteu?
— Ainda não me converti, seu padre. Mas vou ser batizada em breve. A acompanhante que o meu filho arrumou pra mim me trouxe pra cá para eu não ficar sozinha. Adorei. Me sinto mais leve. Acho que estou até curada da minha coluna.
— Tudo bem. Seja feliz. Que Deus te acompanhe. Disse Olímpio com um tom meio embargado e meio impaciente.

Três meses depois, Padre Olímpio caminhava no seu ritual de entrada para a missa de domingo, olhou para a direita dos bancos e viu Seu Canázio, Seu Joaquim, as gêmeas Donana e Mariana, a família jovem com os três filhos, a ex-empregada de Dona Clotilde com o filho, nora e neto e... Dona Carolina, acompanhada dos filhos, genro, que segurava um bebê, provavelmente seu tão sonhado neto, e a noiva de Geraldo.

Depois da missa, Dona Carolina e Padre Olímpio conversaram. Ela explicou que voltou para a igreja católica porque a Conquistar o Poder de Deus queria que ela doasse toda a sua renda para subir aos céus. Dona Carola era bondosa, mas não era boba. Jurou morrer católica e o único batismo que ia fazer seria o da neta. E Padre Olímpio sentiu-se aliviado. Os dois reais das ofertas faziam falta no final do mês. 

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