segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O HOMEM QUE SE CANSOU DO FAIR PLAY



Conto de Gustavo do Carmo



Prudêncio dos Santos passou boa parte da prova de triatlo atrás do primeiro colocado. Largou mal, enfrentou muita onda no mar e saiu da água em oitavo lugar. Ainda teve dificuldades para tirar a sua bicicleta do suporte e caiu para décimo-quinto. O líder Gumercindo dos Anjos já estava terminando o seu percurso de ciclismo.

Prudêncio se recuperou. Ultrapassou oito competidores e começou a correr em sétimo lugar. A pé ultrapassou mais cinco, mas ainda estava longe de Gumercindo, embora desse para avistá-lo.

Era uma promessa no triatlo. Mas nunca tinha ganho uma prova na sua vida desde que começou a competir aos 19 anos. Nas duas olimpíadas que disputou, conquistou uma medalha de prata e outra de bronze. De aclamado passou a ser cobrado pela mídia. Ganhou diversos apelidos, como o “Rubinho Barrichello do Triatlo”. Já estava com 30 anos. 

Seus patrocinadores começavam a abandoná-lo. Perdeu um com a desculpa oficial da crise econômica. Outros reduziram o apoio. O dinheiro na sua conta bancária começava a minguar. E as adversidades pessoais a aumentarem. 

Sua bela esposa passou a ficar incomodada com a seca de vitórias do marido. Mas um problema mais grave foi a doença medular da filha, Vitória, de cinco anos. Ela precisava de um tratamento nos Estados Unidos que custava 100 mil dólares ou 400 mil reais. E o dinheiro já começava a faltar. 

Por isso, esta prova, na Califórnia, a primeira da temporada, tinha uma motivação especial. A vitória lhe garantia o dinheiro necessário e um pouco mais. Era de US$ 150 mil. O segundo lugar só rendia 50 mil. Prudêncio recebeu convites para treinar nos Estados Unidos, mas excessivamente nacionalista e dependente emocionalmente dos pais, optou por continuar no Brasil. Só recebia 10 mil reais do clube onde treinava. Estava quase se decidindo a treinar no exterior. 

Gumercindo corria na frente com vantagem de dez metros para Prudêncio, que já estava em segundo lugar. A prova se aproximava do seu final, quando Prudêncio avistou o concorrente ser arrastado por um louco de kilt (saia tradicional escocesa) e carregando dois cartazes, que invadiu a pista e o empurrou para outro lado, relembrando o episódio que aconteceu com o brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima na maratona das Olimpíadas de Atenas, em 2004. 

O atleta foi salvo, mas por um policial. Gumercindo voltou a correr. Porém, influenciado pelo trauma, perdeu ritmo. Foi alcançado por Prudêncio, que havia acelerado o passo para tentar separá-lo do louco, mas não foi preciso. O terceiro colocado, um norte-americano, também se aproximou. E os ultrapassou. 

A prova foi vencida pelo americano. Prudêncio poderia ficar em segundo. Mas deixou Gumercindo ultrapassá-lo. Ele merecia a colocação. Foi o que declarou para a imprensa. Gumercindo passou, mas não gostou. Chegou a discutir com Prudêncio: 

— Poxa, Prudêncio! Não precisava me ceder a posição! Assim, quem não se sente valorizado sou eu. 

— Precisava sim. Você estava liderando e caminhando para a vitória antes daquele maluco te segurar. 

— Mas isso é um problema meu, Prudêncio! Eu errei e tenho que assumir os meus erros. Você também se desconcentrou e nem ganhar a corrida conseguiu. 

— Então por que resolveu passar?

— Só passei para a gente não ficar discutindo ao vivo na televisão. 

— Ah, Gumercindo! Então tá. Eu quis te ajudar, mas se você prefere ser mal agradecido, paciência! Não te ajudo mais! Irritou-se Prudêncio. 

— Está bem, Prudêncio. Está bem. Muito obrigado. Eu vou dizer pra imprensa que fiquei muito agradecido. Mas não faz mais isso não. Se preocupa com você. 

Resignado e arrependido de ter ajudado, Prudêncio subiu ao pódio em terceiro lugar. Ganhou apenas 20 mil dólares de premiação. Mesmo assim, foi mais assediado que o vencedor norte-americano pelo seu fair play. Este levou os dois brasileiros para o alto do pódio: Gumercindo pela vitória merecida que não veio e Prudêncio pelo gesto nobre. 

De volta ao Brasil, em casa, levou outra bronca, agora da esposa, Natalie:

— Pelo amor de Deus, Prudêncio! A nossa filha correndo risco de morte, precisando do dinheiro e você deixa de ganhar o prêmio para ajudar os outros? Pagar o tratamento da Vitória ninguém quer! 

— Mas faz parte do meu caráter, amor. 

— Ninguém faz nada por você, meu querido! Os outros só querem puxar o seu tapete. E o pior de tudo é que nem o segundo lugar desta vez você conseguiu. 

— Tudo bem. Você tem razão. Prudêncio baixou a cabeça e foi treinar. 

O gesto de jogo limpo de Prudêncio continuou na mídia e na internet. Os patrocinadores voltaram. Um deles pagou o tratamento de sua filha. Ficaram dois meses nos Estados Unidos. Daniela acompanhando a filha no hospital. Prudêncio treinando em Miami.

Passaram-se mais três meses, Prudêncio voltava a competir, agora em Sidney, na Austrália. Já era a quinta etapa do circuito mundial. Ele tinha ficado de fora das três anteriores desde aquela prova da Califórnia, quando cedeu o segundo lugar. Estava sem condições de competir por causa da sua filha, ficou treinando. Com ela curada, estava totalmente em forma. 

Prudêncio se saiu muito bem. Foi o melhor no mar, na bicicleta e estava liderando até o quilômetro final, de ponta a ponta, quando ouviu um grito de dor. Olhou para trás e viu um australiano caído. Havia sofrido uma distensão muscular. 

Parou. Voltou para onde o australiano estava, o levantou e o carregou, apoiado no ombro. Disparados, cruzaram tranquilamente a faixa final. Foram desclassificados. O regulamento não permitia ajuda externa. O australiano agradeceu, mas reclamou do brasileiro para a mídia do seu país, que, se fosse para ser desclassificado, preferia ficar caído no chão. 

Levou outra bronca da esposa, que pela primeira vez já ameaçava separação, pois não queria ficar casada com um marido derrotado. Magoado, Prudêncio concordou: 

— Faça o que você quiser. 

Argumentando ter ameaçado o divórcio no calor da emoção, Natalie acabou pedindo desculpas. Prudêncio demorou um mês para aceitar e nesse período ficou sem falar com a esposa, inclusive indo viajar para uma etapa sem dirigir a palavra a ela.

Na mídia, Prudêncio continuou sendo uma atração pelo seu fair play. O segundo gesto de solidariedade em um ano. Desta vez, se atrapalhando. Foi entrevistado por programas de televisão, recebeu convites para dar palestras sobre honestidade e ganhou prêmios de conduta ética. 

O fair play de Prudêncio continuou. Nos meses seguintes, abriu mão da vitória mais três vezes: se recusou a cruzar a faixa depois que um etíope errou o caminho, ajeitou a correia da bicicleta de um espanhol, perdendo a liderança e posições importantes e, achando que fez uma ultrapassagem irregular, devolveu a posição para o segundo colocado, o mesmo australiano que carregou e foi desclassificado junto com ele. Natalie novamente discutiu com o marido. E os dois acabaram se separando, mas não se divorciaram. 

Prudêncio dos Santos enfim venceu uma corrida na temporada. E logo o Iron Man, no Havaí, a última etapa do circuito mundial, no qual terminou em terceiro lugar no geral. A temporada foi vencida por outro brasileiro: Gumercindo dos Anjos, que o parabenizou pela primeira vitória dupla. 

Dupla porque Prudêncio novamente praticou um gesto de jogo honesto. Salvou um chinês de um afogamento no mar. Perdeu posições, mas se recuperou. Nas entrevistas só agradeceu aos pais e mandou um beijo para a filha. Ignorou a esposa. 

Contudo, na volta ao Brasil, Natalie, que foi receber o marido no aeroporto, embora tratada com frieza, pediu desculpas e lhe deu parabéns pela primeira vitória de muitas que poderiam vir. Os dois fizeram as pazes. E mais um filho: Pierre, em homenagem ao Barão de Coubertin, que criou as Olimpíadas e o lema “O importante não é vencer, mas competir e com dignidade!” 

Pierre ainda estava no ventre da mãe quando um novo ano começou e com ele mais uma temporada, agora preparatória para os Jogos Olímpicos, que seriam disputados na casa de Prudêncio e Gumercindo: no Rio de Janeiro. Os dois já estavam classificados para o evento, indicados pela Federação Brasileira. A temporada seria apenas preparatória. 

Novamente, o circuito foi aberto na Califórnia, nos Estados Unidos. Prudêncio ainda estava em ótima forma, motivado também pela espera do seu segundo filho.

À imprensa, ciente de sua fama de bom competidor que ajuda os rivais, ele garantiu que continuaria ajudando se fosse preciso. Largou na praia na frente e liderou de ponta a ponta. Desde a areia, quando pulou na frente no mar, até a corrida a pé. 

Faltavam quinhentos metros para o final. A segunda vitória na carreira parecia garantida. Parecia. De repente ele foi ao chão. Tinha tropeçado nos fios de uma câmera de televisão. Teve dificuldades de se levantar. Estava todo ensanguentado. Supercílio, nariz, joelhos e cotovelo. 

Os adversários, todos que ele ajudou no ano anterior, chegaram e o ultrapassaram: Gumercindo, o australiano que ele carregou, o norte-americano, o etíope, o chinês que ele salvou do afogamento, o espanhol que ele ajudou a consertar a correia da bicicleta e mais outro australiano, um árabe, um russo, outro norte-americano, etc. Ninguém lhe ajudou. 

Prudêncio terminou na vigésima-oitava colocação. E com mais cinco pontos no supercílio, doze em cada cotovelo e vinte nos dois joelhos. No direito teve uma fissura na rótula. Ficou dois meses de molho, sem competir e treinar. 

Foi visitado em casa (não chegou a ser internado no hospital) por Gumercindo e o australiano. Expulsou os dois, com o apoio de Natalie, pela ingratidão. Abriu mão de vitórias por eles, levou bronca dos dois e quando precisou ninguém lhe acudiu. O corredor brasileiro, que seria padrinho de Pierre, foi destituído do posto. 

No dia seguinte, convocou a imprensa para anunciar que não ajudaria mais ninguém. Cansou do fair play. Cansou de ser bonzinho. A sua entrevista foi ironizada. A imprensa sensacionalista insinuou: “Ele será ruim e desleal agora?”

Prudêncio recuperou-se da contusão a tempo de disputar as Olimpíadas. Ignorou os ex-amigos com a desculpa de que estava extremamente concentrado. Pulou no mar em quinto e nesta posição ficou em todo o percurso aquático. 

No ciclismo subiu para o terceiro lugar e passou a correr em segundo, na metade do percurso (5 km) assumiu a liderança. Durante 50 quilômetros (1,5 km de natação + 40 km de ciclismo + 10 km de corrida), viu dois concorrentes afogados, um com pneu da bicicleta furada, um atropelado e três caídos durante a corrida. Não parou em momento algum. Sequer olhou para trás. 

Venceu a prova. Recebeu a medalha de ouro no pódio. Isso depois de ignorar novamente Gumercindo, que ganhou a medalha de bronze. O clima estava pesado. O ciclista atropelado, o australiano que ele expulsou de casa e o ajudou a ser desclassificado no ano anterior, morreu a caminho do hospital. 

Mesmo assim, Prudêncio ouviu o hino nacional brasileiro. O norte-americano ficou com a prata. A mídia brasileira comemorou com vinhetas alusivas ao Brasil. A alegria do triatleta que ajudava os concorrentes durou pouco. 

No dia seguinte, o exame antidoping deu positivo para estimulante, analgésicos e anabolizantes. A contraprova também deu positivo. A imprensa, que tanto elogiou seus gestos de generosidade, passou a execrá-lo. 

Prudêncio assumiu a culpa e anunciou que o doping foi intencional. Repetiu que tinha se cansado de jogar limpo. Escolheu jogar sujo. Foi banido do esporte. Perdeu a bela esposa, Natalie, que mesmo ainda grávida de Pierre e se sentindo culpada por ter expulsado o australiano que morreu na olimpíada, disse na sua cara, quando anunciou o divórcio: 

— Era feliz e não sabia com um homem derrotado pelo seu fair play. Mas não aceito um vencedor insensível com a morte de um colega e que envergonha o país com uma vitória suja.

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