segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Estética e Recepção

Por Narcélio Lima

Um sistema literário é constituído do seguinte tripé: obra, do autor e do leitor. Partindo deste tripé, as teorias avançam objetivando a fruição, a interpretação ou a produção das representações literárias.

           No entanto, em meados do século XX, as teorias tradicionais passavam a excluir o papel do leitor na obra, dando-se ênfase ao autor, quando se estudava seu universo, e à obra, quando se estudava seu contexto histórico, linguagem ou estilo. Apesar da sua importância, esse tipo de teoria se estabelecia em detrimento do leitor.

Indo de encontro a essa ideia limitada de estudo, surge a a Estética da Recepção, que propõe a superação do Formalismo. Para Jauss (1967), a obra não está somente nos textos ou somente nas leituras, mas entre os dois. Para ele, tanto o método marxista quanto o método formalista ignoram o envolvimento do leitor. O fato é que, pelos métodos tradicionais, cabia ao leitor uma forma exclusiva e limitada de tentar “entender o que o autor quis dizer”.

O surgimento da Estética da Recepção acontece na era pós-estruturalista (segunda metade do século XX), quando um grupo de críticos da Universidade de Konstanz, na Alemanha, começou a divulgar suas teses na revista Poetik und Hermeneutik, a partir de 1964. Hans-Georg Gadamer esboça uma nova feição para a hermenêutica, com Wahrheit und Methode (1960). Assim, uma justaposição revela que as questões do sentido e da interpretação textual dos modelos hermenêuticos são tão indispensáveis quanto as questões linguísticas e formais. 

Na Estética da Recepção fica evidenciado o papel genuíno do leitor na construção do sentido da interpretação e na leitura crítica das obras. Sobretudo, fica em evidência a ilimitada capacidade de atualização das obras literárias na medida em que se modifica o seus leitores, apresentando vários horizontes de expectativas. Mesmo em lida em diferentes épocas, a obra pode apresentar diversos sentidos, ou pode apresentar novas interpretações a partir de novas leituras.

Quando se menciona algo referente a recepção, é importante ressaltar a contribuição que alguns autores fazem para que a entrada do leitor no universo de sua obra. Por exemplo, no texto Desenredo, de Guimarães Rosa, o autor trabalha o texto escrito e a oralidade. O autor já inicia dizendo: “Do narrador aos seus ouvintes”, como quem convida o leitor para ouvir a sua historia. Neste caso, o leitor pode também ser chamado de narratário, na estética da recepção do conto literário.

Conclui-se, portanto, que a Estética da Recepção é fundamental para que o leitor seja apresentado como ocupante fundamental em uma obra literária. Ele apresenta uma bagagem cultural que dará margem a outras interpretações, e não apenas aquela que é apresentada pelo autor.


Referências:
COQUEIRO, Wilma. GEHRING, Adriele. SEGATO. “Mariara. Estética da recepção: Uma proposta de leitura da condição feminina na sociedade atual” Disponível em: http://revistaliter.dominiotemporario.com/doc/RL_11_Estetica_da_recepcao_uma_proposta_de_leitura_da_condicao_feminina_na_sociedade_atual.pdf  Acessado em 21 de out. de 2014.
LIMA, Luiz Costa. A Literatura e o Leitor - Textos de Estética da Recepção (Org.).
São Paulo: Paz e Terra, 1981.  
ROSA, João Guimarães. Tutaméia – Terceiras Estórias. 8ª ed. Rio de Janeiro: Editora


Nova Fronteira, 2001.

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