segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

BAIANA



Conto de Gustavo do Carmo

Seu brilho no carnaval passado foi memorável. Passista não conta pontos para os jurados, mas Jojô da Comunidade parece ter sido fundamental para a conquista do título inédito da Unidos da Comunidade Tijucana.

No ano seguinte, porém, a sua boa forma foi ofuscada por algumas gorduras e celulites localizadas no culote e na barriga. Joveleine Clementina, seu nome de batismo, em homenagem a duas grandes sambistas do passado (Jovelina Pérola Negra e Clementina de Jesus), foi chamada pelo presidente da escola para ser comunicada de que não seria mais a rainha da bateria da Unidos da Comunidade Tijucana.

Passara oito meses difíceis. Sua vida sofreu uma grande virada. Foi abandonada pelo marido suíço, que a trocou por outra mulata brasileira, quinze anos mais nova e sete polegadas de cintura mais magra.

Joveleine já tinha trinta e cinco anos. O filho que teve com quinze engravidou uma menina com a mesma idade que ela estava quando o pariu. O pai dele era um amigo de infância assassinado por traficantes. O rapaz agora foi abandonado pela namorada e pediu que a mãe o ajudasse a criar a filha.

Morava em Genebra e teve que voltar a viver no Rio com o filho, a neta, a mãe, a avó cardíaca, a bisavó nonagenária e os três irmãos mais novos. Dos mais velhos, um foi morto pela polícia porque tinha virado assaltante, o outro por bandidos porque tinha virado policial e o mais velho de todos morava em São Paulo, estava rico e não queria nem saber da família, mesmo com a irmã rica.  Ah, claro. Joveleine teria que sustentar todos.

Com tantos problemas, dinheiro ainda não faltava. Ganhou uma boa pensão do ex-marido. Usou parte dela para comprar um apartamento de um condomínio de classe média em Del Castilho, no subúrbio da cidade. Aplicou o restante no banco. Mas poderia faltar um dia. Foi previdente ao não escolher a zona sul ou a Barra da Tijuca porque as despesas seriam muito altas.

Arrumou um emprego de vendedora em uma butique no shopping perto do condomínio. Aliás, o condomínio ficava praticamente dentro do shopping. Apesar de otimista, acreditava que os convites para apresentações como mulata de carnaval diminuiriam com a sua nova forma física e isso, de fato, aconteceu. A sua carreira de modelo e atriz também não deu certo. Só era convidada para papéis pequenos e de prostitutas. Todos recusados. Também sofria com o racismo nas campanhas publicitárias.

Jojô foi chamada pelo presidente da sua escola para ser comunicada de que não seria mais a rainha, nem madrinha, nem princesa da bateria. Estava gorda para a função. Embora o presidente não tivesse dito isso na sua cara. Só sugeriu que ela emagrecesse.

Por ele ser seu amigo, se sentiu traída. Seria substituída por uma modelo paulista, loura e de seios fartos. A madrinha seria a nova esposa dele, uma morena clara que tinha inveja e ciúmes dela. Ela ainda a provocava, chamando-a claramente de gorda.

Turquinho, filho de bicheiro, mas sem ligação com a atividade contraventora do pai já falecido (assassinado) repreendeu a mulher e, sem querer perder o seu respeito, sugeriu que ela fizesse uma preparação física que ele pagaria o personal trainner ou a academia. Se conseguisse recuperar a forma física, ela ganharia um espaço de madrinha de alegoria.

Usando o seu otimismo, Jojô aceitou, inclusive o treinador pessoal. Acreditava reconquistar o posto no carnaval seguinte. Só que os problemas reapareceram.

Na primeira sessão, ela sentiu uma forte dor abdominal. Não aguentou fazer o exercício. Desistiu da preparação, dispensou o treinador e procurou um médico. Descobriu que estava com câncer no estômago em estágio avançado. Ficou em choque.

Não contou nada para a família. Apenas deu sermão nos irmãos e no filho. Pediu que eles economizassem dinheiro. Exigiu que o filho fizesse um concurso público, que lhe daria estabilidade para cuidar da filha. Pediu que o mais velho dos irmãos mais novos, que cursava faculdade de medicina e já estagiava, cuidasse da família e não deixasse as irmãs mais novas, de dezessete e onze anos, não engravidassem cedo. Reuniu estas duas para reforçar o conselho e também pedir que elas procurassem outras atividades profissionais além do carnaval, pois um dia poderiam ter o tapete puxado, como aconteceu com ela. A moça sonhava seguir os passos da irmã como madrinha de bateria e a menina já era porta-bandeira mirim. 

Viajou para São Paulo e fez as pazes com o irmão mais velho, o primeiro que ficou sabendo da sua doença, com a condição de que não contasse para ninguém.

Começaria a quimioterapia depois do carnaval. Foi à escola de samba e, humildemente, pediu uma vaga de baiana para o Turquinho. Ele estranhou, mas aceitou. Não comentou nada com ele que estava doente.

No dia do desfile, arrumou-se com muito zelo e pensamentos. Acabou confessando a doença para a mãe, a avó, o filho e o irmão mais novo quando eles perceberam o seu abatimento. Foi aquela choradeira familiar antes de ir para o sambódromo. Todos queriam que ela desistisse, mas ela, maquiagem já borrada, garantiu:

— Morro na Avenida, mas morro feliz e realizada porque cumpri a sua trajetória no carnaval.

Na concentração, deu o último abraço no irmão mais velho, que estava no Rio com a família. Ele tentou impedi-la, mas ela repetiu o que disse para a mãe, a avó e o outro irmão. Tentou contar a verdade para Turquinho, mas o barulho era tanto que deixou para o dia seguinte. Ele ficou sem saber.

No caminho para a sua ala, foi abordada pela nova rainha de bateria, a modelo paulista, que vestia um maiô decotado cheio de purpurina e penas de faisão.

Ela lhe pediu desculpas por ter tomado o seu lugar, a abraçou e as duas trocaram desejos de boa sorte. Antes de se juntar às baianas foi provocada pela rival, a mulher do presidente da escola, que estava nua com o corpo pintado. Deu-lhe um soco que a deixou no chão. Foi a última vez que esmurrou alguém.


Já no meio do desfile, Jojô da Comunidade ou Joveleine Clementina caiu como um peão que encerrava o seu movimento. Todos ficaram tristes, mas a nova baiana cumpriu a sua trajetória na maior felicidade. Sua despedida foi memorável. A escola foi rebaixada para o segundo grupo.  

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