segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

RETROSPECTIVA 2015 - TRAIÇÕES



Conto de Gustavo do Carmo
Originalmente publicado em 01/06/2015

Tinha jurado nunca trair a sua esposa da mesma forma que o seu pai traiu a sua mãe com três amantes. Mas Armando quebrou o juramento. Traiu Débora, que era atriz, com uma repórter que trabalhava com ele no jornal.


Queria assumir o novo romance. Só que precisava abrir o jogo com a esposa. Ou melhor, com a namorada com quem morava, porque casados no papel eles nunca foram.

Coragem era o que Armando não tinha. Mas precisava ter, pois se sentia culpado por traí-la. Também tinha pena. Apesar de muito generosa com ele desde o início do namoro (foi ela quem o indicou para trabalhar no jornal), Débora era muito escandalosa quando se sentia enganada. E confessar uma traição seria um prato cheio para a sua atitude. Ela não era ciumenta, mas neste caso poderia explodir.

Armando se envolveu com a repórter porque ela o consolava nas constantes brigas que ele tinha com Débora. O ciumento era Armando, que reclamava da falta de tempo da esposa para passeios a dois e o cansaço para transar, além das gravações que se estendiam até a madrugada.

E foi durante uma madrugada que Armando decidiu contar a verdade. Sua amante estava fazendo plantão, então ele aproveitou que não estaria com ela para abrir o jogo. Já sabia que Débora só iria chegar depois da meia-noite da gravação da novela em que era protagonista.

Já era uma e meia da manhã quando Débora girou a maçaneta da porta com a chave, entrou na sala, jogou sua bolsa no sofá e se assustou ao encontrar Armando sentado no outro sofá, olhando para ela, com as luzes da sala apagadas.

— Ai, que susto, amor! Parece assombração. O que houve?
— Preciso te falar uma coisa. Anunciou, com ar sério e misterioso.
— O que foi? Alguma coisa com os meus pais? Perguntou, assustada. 
— Não. Não foi nada com eles. É entre nós dois.
— Ah! Já sei! Você quer discutir a relação. Mas que hora, hein? Não vê que eu acabei de chegar do trabalho? Estou exausta!
—  É bom que depois de eu falar tudo o que está entalado na minha garganta você desabafa tudo de uma vez e depois vai descansar.
— Vai. Então fala! Disse resignada.
— Pra começar eu vi, pela janela, você chegando com um homem e se despedindo dele com um carinho além do normal.
— Não é nada do que você está pensando. Aquele é o Rogério, meu par na novela. É um grande amigo meu.
— Eu não estou pensando nada. Eu só estou convicto de que este é o momento ideal para dizer o que tenho pra dizer.

Débora parou pensativa. Respirou e decidiu:

— Quer saber? Eu também tenho.
— Então diz você primeiro.
— Não. Diz você.
— Você.
— Não. Você.

O casal parou de discutir e Armando propôs.

— Então vamos dizer juntos.
— Ok.

Os dois disseram em alto e bom som, com a voz de Armando se sobressaindo.

— EU ESTOU TENDO UM CASO COM A (O) LETÍCIA (ROGÉRIO). EU QUERO ME SEPARAR DE VOCÊ PARA IR MORAR COM ELA (ELE)!  

Os dois pararam e voltaram a dizer juntos.

— RÁ! EU SABIA!
— Seu Cachorro!
— Sua Puta!

O novo ex-casal caiu na gargalhada. Uma gargalhada nervosa. Aliviada. Estavam livres, sem nenhuma culpa. Mesmo assim, começaram a se beijar e fizeram sexo. Uma saideira.

Uma hora depois, nus na cama pela última vez um perto do outro, Débora perguntou.

— Quando é que começou?
— Começou o quê?
— A me trair.
— Foi depois daquela nossa décima briga. Daquele dia que em que você chegou, pela enésima vez, a esta mesma hora em casa, me exigindo janta e reclamando da casa mal arrumada.

Naquele dia Armando reclamou da sua cara de pau de chegar da casa do amante e ainda exigir jantar e casa limpa. Quando falou amante, levou um tapa na cara de Débora. Foi dormir na casa dos pais.

— Você foi dormir com ela, não foi?
— Não. Naquele dia eu fui dormir com os meus pais mesmo. Fui ficar com ela no dia seguinte. Desabafei sobre a nossa relação. E você? Já estava insatisfeita com as minhas manias, né?
— Não. O clima entre eu e o Rogério esquentou quando fizemos uma cena de sexo, mesmo. Fiquei viciada nele.

Antes de ir embora, Armando fez um último desabafo.

— Eu condenei o meu pai quando descobri que ele tinha três amantes. Fiquei um ano sem falar com ele. O velho é um mulherengo mesmo. E minha mãe uma santa. Por isso, jurei nunca trair a minha mulher. Mas acabei traindo. Quebrei o meu juramento. E eu achando que estava fazendo errado, estava realmente certo. Vocês atrizes são umas putas mesmo. Foi um erro ter me casado com uma.

Armando deixou Débora sem palavras. Mudou-se do apartamento, que era dela, e assumiu o romance com Letícia. Armando casou-se na igreja e os dois tiveram um filho. Débora também contraiu matrimônio com Rogério, ficou na sua residência e teve uma filha com ele. Todos viveram felizes até novamente serem traídos.

Letícia trocou Armando pelo presidente do jornal. Rogério trocou Débora por um homem.

Também voltaram a trair. Armando se envolveu com a gerente do seu banco quando começou a suspeitar que Letícia tinha outro. Débora se casou com o diretor da novela e teve outra filha.

 Armando se sentiu culpado mais uma vez.  Antes de abrir o jogo, resolveu se confessar com o pai. Teve que ouvir:


— E você me condenou porque eu tive três amantes, hein, meu filho? Só falta uma para puxar completamente o seu pai. 

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