segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O Auto da Barca do Inferno: Uma crítica à sociedade da época


 Por: Narcélio Lima 

Datada do século XIV, a obra O Auto da Barca do Inferno faz parte de uma trilogia, em que também fazem parte: O Auto da Barca da Glória e o Auto da Barca do Purgatório. A obra satiriza e faz críticas à sociedade da época, que correspondia ao momento de transição entre Idade Média e Idade Moderna; do Feudalismo para o Capitalismo. Transição esta que também foi acompanhada pelo autor Gil Vicente, que, além do pensamento medieval, já traz à tona a ideia de libertação do homem.
A crítica da obra, como já foi mencionado, abrangia as classes sociais. Para isso, o autor trouxe personagens que fortemente seriam identificados pelas pessoas da época, envolvidos em elementos simbólicos de seus pecados da vida cotidiana. Podemos aqui citar o Anjo e o Demônio, personagens que trazem a dualidade do bem e do mal e do céu e inferno. É neste cenário que surge o pensamento crítico à igreja sobre seus métodos de salvar o homem de seus pecados. No texto, o Fidalgo, outro personagem daquele cotidiano, usa de alguns artífices para tentar escapar do inferno frete aos dois “juízes”.  É o que podemos observar no trecho seguinte:

ANJO —  Que quereis?
FIDALGO — Que me digais,
pois parti tão sem aviso,
se a barca do Paraíso
é esta em que navegais.
ANJO — Esta é; que demandais?
FIDALGO — Que me leixeis embarcar.

Sou fidalgo de solar,

é bem que me recolhais.

ANJO — Não se embarca tirania

neste batel divinal.  (Vicente)


OUTROS PERSONAGENS

Sapateiro: É tido como interesseiro, identificado como alguém da classe burguesa comercial.
Onzeneiro: Apegado ao dinheiro, possui grande ambição. Pelo seu falar correto, faz entender que o mesmo tivesse negócios com a nobreza.  
Alcoviteira: Brísida Vaz é tida como enganadora de homens. Ligada à prostituição e à feitiçaria.
Parvo: Apresenta-se como o ingênuo. É levando pelo anjo ao céu
Frade: Chega certo de sua salvação, mas acaba sendo condenado por falso moralismo.
Judeu: Representante da anti-fé cristã. O Anjo não acredita na sua fé no cristianismo, porém aceita levá-lo, mas não dentro de sua barca.
Enforcado: Teve uma vida terrena corrupta e vil, por isso foi condenado.
Quatro cavaleiros: morreram ao defender o cristianismo e foram para o Paraíso.

Todos esses personagens possuem características e peculiaridades que condizem, de certa forma, com o homem em sua classe social; trazem toda uma carga de problemáticas de uma época onde se percebia os valores do homem sendo atemorizados pela corrupção, vilania, impureza e pecado.  

Referências:

GUIDIN, Márcia Lígia. Auto da Barca do Inferno: Análise da obra de Gil Vicente. Disponível em: <http://educacao.uol.com.br/disciplinas/portugues/auto-da-barca-do-inferno-analise-da-obra-de-gil-vicente.htm>. Acesso em: 25 out. 2015.  

MACHADO, Marília Novais da Mata; VEIGA, Sônia. Auto da Barca do Inferno: O discurso da equidade e da desigualdade sociais em Gil Vicente. Disponível em:
< http://www.cei.unir.br/artigo123.html >. Acesso em: 25 out. 2015.

VICENTE, Gil. Auto da Barca do Inferno. Disponível em:

<http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000107.pdf>. Acesso em: 25 out. 2015.

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