quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A ÁRVORE DE NATAL CARENTE



Conto de Gustavo Carmo

Num canto da sala do apartamento de classe média, em um bairro da zona norte do Rio, sozinha e apagada, a árvore de Natal chora inconformada por ter sido abandonada pela família que a comprou:

— Por que me compraram? Por que me montaram? Por que me enfeitam tanto se nunca passam o Natal comigo? Eu sou tão grande e bonita, mas quando chega o dia eles me abandonam. Nem no reveillon eles ficam aqui. Vão todos embora para Cabo Frio e só me desmontam quase em fevereiro.


A mesa de natal consola a árvore:

— Não fica assim, não. Os humanos são assim mesmo. Eles dizem tanto ter espírito de Natal, mas nós, móveis, somos apenas meros objetos de decoração.

— Este ano eles não me deixaram tomar conta de nenhum presente. Nenhum embrulho colorido ficou aos meus pés. Eu quero morrer. Eu vou apodrecer, vou me entortar toda e eles vão se arrepender. Insiste a árvore, aos prantos.

— Deixa de bobagem, árvore. Eles ainda vão passar muitos natais com você. Diz o anjinho do topo. — É que esse ano eles decidiram passar o natal com outros parentes deles. Eles não são obrigados a passar todos os natais aqui.

— Então por que me armam todos os anos, porra?

— É por causa de um negócio chamado tradição. Eles querem enfeitar a casa todos os anos com o espírito do Natal não apenas neste dia, mas durante todo o mês de dezembro. Responde o anjo.

— Se eles não te armarem em algum ano, as visitas dos seus donos vão achar que eles não têm espírito de Natal. Que são insensíveis. Que são tristes. Por isso, mesmo que não estejam felizes, enfeitam esta casa apenas para mostrar que tudo está correndo bem na família. Você não pode se importar apenas porque eles não passam um dia com você. Quando na verdade, passam o mês inteiro. Diz o sofá.

— E eu que este ano fui pendurada na porta dos fundos? Grita lá da porta a guirlanda.

— Eu já estou acostumado a passar a noite de natal sozinho. Diz o Papai Noel pendurado na árvore. Não é, boneco de neve?

— É, papai.

— Pois é. Eu sou pendurado desde que o filho mais novo desta casa tinha apenas oito anos. Já aconteceu de tudo aqui neste apartamento. Já presenciei festas alegres, festas em que só os donos desta casa passaram aqui, brigas de casal, uma vez a árvore em que eu morava foi chutada pela filha adolescente rebelde. Quase que ela me acertou. No outro foi o pai da família que reclamava da crise financeira. Isso é porque você não está acostumada. Relembra o Papai Noel.

Um brilho de luz invade a sala e dele aparecem quatro árvores antigas.

— Quem são vocês?  Pergunta a árvore triste.

— Nós somos as árvores que já foram usadas nesta casa. Diz um pinheiro verde de plástico, de um metro, o que foi usado por mais natais.

— E eu não fui usada apenas neste apartamento. Passei metade da minha vida aqui e a outra no prédio em frente a esse. Eu vi os dois filhos do casal que me comprou nascerem. Apresenta-se um pequeno pinheiro de trinta centímetros e papel laminado branco.

— E eu fui a única árvore natural da família. Morava na então pacata Ilha do Fundão e fui adotada pelo dono deste apartamento. Só fui usada durante um ano. Depois me jogaram fora sem dó, nem piedade.

— Não é verdade, galho. A dona desta casa chorou muito quando te jogou fora. Foi uma bolinha quem me contou. Corrige a árvore que ficou mais tempo.

— Estou com saudades de você. Diz o Papai Noel pendurado.

— Eu também. Responde a árvore de um metro, que foi montada em dezessete natais.

— Nós vimos lá do céu que você está triste porque está passando o natal sozinha e sem presentes. Não fica assim, não. Eu já passei por uma situação muito pior. Morei em Petrópolis na casa da filha mais velha do casal. Ela brigou com um ex-namorado, encheu a cara de álcool e vomitou em cima de mim. No ano seguinte, me trouxeram para cá.  Diz a antecessora direta da árvore triste, um pinheiro de plástico, de um metro e meio.

— Vocês são fantasmas? Posso ir com vocês? 

— Não somos fantasmas. Somos espíritos de natal que incorporaram as árvores que foram usadas aqui.

— Eu não morri aqui. Fui doada para a família da diarista desta família. No ano seguinte me jogaram fora na lixeira da favela. Mas fiquei feliz por ter sido aproveitada por outra família mais necessitada. Diz a árvore de Petrópolis.

— Infelizmente, você não pode ir com a gente. Ainda tem que cumprir a sua missão nesta família. Esclarece o pinheiro de um metro.

— Que missão? Ser abandonada por mais uns vinte natais e depois jogada no lixo?

— Não uns vinte natais. Mas em dois ou três, você vai passar sozinha. Em alguns, abrigará diversos presentes, mas passará apenas com os donos da casa. Nos outros, nenhum. No entanto, verás muita gente aqui.  

— Duvido. Já ouvi os meus donos dizerem que este será o meu último ano.

— Não é nada disso. É que a dona desta casa está com setenta e dois anos. Ela tem medo de morrer nos próximos meses. Já passou por muita coisa nesta vida e fica desanimada com o Natal. O casamento dela como amor já acabou faz tempo. Só mora junto com o marido por causa dos filhos. Este ano, você tem que agradecer por ser montada ao filho mais novo dela, que adora Natal, mas também morre de medo de perder os pais e de não gostar desta data. — Aliás, você tem que agradecer a ele não apenas por este ano, mas simplesmente por ter sido comprada pela irmã, pois a mãe dele não queria montar mais árvore nenhuma depois que eu fui doada para a faxineira da família. Ah! E você é petropolitana como eu.

— E vem cá? Como você passou o resto do dia 25 no ano passado?  Pergunta a árvore branca.

— Sozinha, também.

— E no ano retrasado?

— Bem... você tem razão. A minha família passou aqui. E o rapaz me acendeu e me admirou por alguns minutos.

— Então. Ele é o único que parece sentir pena de nós, árvores.Na noite de natal você pode até passar sozinha, mas no resto do dia, tem sempre alguém que passa com você. Que te admira. Que te adora. Que acredita em você. Incentiva a árvore de um metro. — Está certo que você vai ter um fim de natal meio conturbado este ano, mas no próximo você será feliz e ainda homenageada por ele, junto com a gente. Portanto, enxugue estas lágrimas, levante os seus galhos que você ainda será muito feliz. Você está chorando assim porque ainda não teve a sorte de ter uma noite de Natal acompanhada. Mas ainda terá muitos e recheada de presentes. Feliz Natal.

— Feliz Natal. Dizem as outras árvores, o anjo, o papai noel e o boneco de neve

A guirlanda grita lá dos fundos os mesmos votos.

— Eu não tenho um peru, nem um chester e nem maionese. Também não tenho como abrir o panetone. Mas posso te oferecer umas nozes, castanhas e frutas. Deseja? Oferece a mesa.

— Não, obrigada. Agradece a árvore gigante que estava carente e que agora está feliz da vida.

— Eu, infelizmente, não tenho nada pra te oferecer. Lamentou-se o sofá.

— Não precisa.

— Olha, tenho um presente para você. Não é embrulhado como os humanos usam, mas é colorido e muito especial. Ofereceu a árvore de um metro e meio.

O pinheiro de dois metros e meio de altura, enfeitado por dezenas de bolas coloridas, laços, correntes brilhantes e uma pequena trilha de luzes permanentes, fica ainda mais iluminado com mais luzes piscantes que não tinha e bolas maiores e agora acesas.

— Obrigada por tudo. Agradece a árvore emocionada, mas agora de alegria.

As outras árvores desaparecem. Duas horas da manhã chegam os donos da casa. O rapaz de trinta anos a vê piscando e pergunta para a mãe se ela comprou outro pisca-pisca e ela responde que não. — Então, quem comprou?

O rapaz chora ao admirar a árvore iluminada e parece sentir pena de deixá-la sozinha. Lembra de todas as árvores que passaram pela sua casa em toda a sua vida. Meia hora depois, tira a tomada, apaga a árvore e vai dormir.


Três dias depois ele e a mãe a desmontam, antes do dia 6 de janeiro, pois a família irá viajar para Cabo Frio e o rapaz quis poupar a árvore de mais um sentimento de solidão no reveillon.

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