quarta-feira, 3 de junho de 2015

CONVIDADO - JOSÉ MILTON CASTAN JUNIOR

UMA CANÇÃO CONTEMPORÂNEA DO EXÍLIO
Crônica de José Milton Castan Jr.*

Alex levanta a mão, mas o garçom não o vê.
            Volta-se para o seu celular.
            Levanta os olhos, e agora não encontra o garçom.
            Absorto no que lê pela tela do celular, sua atenção é requisitada pelos versos, ecoados no som ambiente do restaurante, da música de Jobim: Vou voltar, vou deitar à sombra de uma palmeira que já não há...
            Chama o garçom que passa ao seu lado, que não lhe atende. Julga-o incompetente.
            Tenta voltar aos versos que estava lendo no celular (Alex lia “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias – um texto que tem inspirado vários poetas e escritores por diversas épocas), e que curiosamente tal qual a música, também falava de palmeiras e sabiás, mas não consegue. Seus olhos passam seguir perigosamente o garçom. Se pudesse pularia em seu pescoço..., e pula! Agarra o garçom com tanta força, que são necessários alguns minutos e três ou quatro clientes para livrarem o pobre garçom. Resultado: horas na delegacia.
            Alex seguia por tempos difíceis. Talvez as férias na próxima semana servissem para se recompor. Pensou viajar, mas detestava estar com muita gente. Possível que visitasse a mãe, e pela enésima vez postergou.
            Sozinho em seu apartamento teve uma ideia:
Iria se exilar!
Alex solteiro convicto e sempre excêntrico. Quase esquisito, se não. Entre suas esquisitices havia declarado que ao morrer queria que no caixão seus pés estivessem cruzados.
Colocou seu plano de exílio em ação. Usaria suas férias e um mês exilado. Iria pular para fora deste mundo!
Chamou um marceneiro, que sem entender cumpriu o pedido de Alex em abrir um buraco na porta de entrada do seu apartamento e prover uma portinhola onde passasse um marmitex. Contratou a entrega de 30 marmitex, um por dia. Deixou pago e com ordens para empurrarem o marmitex pela portinhola sempre ao meio dia e jamais baterem à porta. Pediu ao entregador que não falasse com ninguém na entrada do prédio, e que usasse o cartão de acesso para as entregas.
Informou à portaria do prédio que iria viajar durante o mês todo. As correspondências ele pegaria quando voltasse.
Pregou em todas as janelas madeirites, de forma que nenhuma luz pudesse entrar no apartamento.
Começou seu exílio numa sexta feira à noite desligando a chave geral do apartamento. Desligou o celular. Amanheceu no sábado resfriado. Sempre que saía de férias era assim.
Alex havia providenciado uma única vela para as emergências. Acendeu e procurou algum remédio. Não tinha. Resignou-se. Pela tarde ardia em febre. Passou a noite delirando. No domingo deitado no sofá da sala escutou a portinhola abrir. Havia comido nada. Sentia-se muito fraco. Seu projeto estava em perigo. A situação piorava. Porém na segunda feira pela manhã a febre ia cedendo. Buscou o marmitex; estava estragado. Esperou até o meio dia para poder comer pela primeira vez.
Os dias foram se passando e a única referência de tempo era a abertura da portinhola. Mais um pouco havia perdido completamente noção dos dias. Contou quantos marmitex já havia recebido. Faltavam ainda vinte. A escuridão do apartamento o incomodava. Sentiu medo e tristeza. Sentiu solidão como jamais havia sentido. Chorou como jamais havia chorado! Turbilhões de pensamentos invadiam sua mente e os dias se arrastavam. Teve tempo para repassar toda a sua infância. E de tanto pensar encontrou respostas para as perguntas que jamais havia feito.
Percebeu que já não entregavam mais marmitex. Finalizava seu exílio.
Antes de sair, acendeu o toco de vela e escreveu:
Canção do Exílio Contemporâneo
Não encontre-me à morte,
Meio só e sem valor;
Apartado de meu eu
Rareando na mesma dor.
...
Vivo agora falsamente,
Em tais máscaras filós.
É preciso compreender:
Ontem hoje, e sem nós.

            Alex em trapos: ele e suas roupas. Sai e vai até o restaurante. Precisa se desculpar com o garçom, e de longe o vê caminhando com dificuldade entre  mesas, meio atarantado. Alex assusta-se ao perceber o garçom bem mais velho que parecia no dia da briga. Culpa-se infinitamente. A dor da realidade o esmigalha: teria sido suficiente compreendê-lo como um senhor senil ao invés de julgá-lo como um garçom incompetente!

            Cruzam-se em olhares. Surpreende-se novamente: o garçom lhe sorri. Meio sem jeito retribui. Valeu o autoexílio!


*José Milton Castan Junior já trabalhou como engenheiro mecânico durante 33 anos, nos mais variados cargos de chefia à presidência. Teve a oportunidade de conhecer 22 países, ministrando inúmeras palestras.
Porém a partir de 2010, insatisfeito com os resultados do mercado corporativo, iniciou o curso de psicanálise, foram três anos na 'Sociedade Brasileira de Psicanálise Contemporânea', dois anos no 'Instituto Carlos Mussato' dentre outros...
Além de atender clinicamente como psicanalista e psicoterapeuta, Castan é também professor em Neuropsicanálise, tida como nova ciência que aproxima neurociência e psicanálise. Também é integrante do Grupo de Estudos de Psiquiatria da Faculdade de Medicina PUC-SOROCABA.
Castan ainda foi o idealizador e colaborador para a 'Semana de Prevenção e Cuidados em Depressão' da Secretaria de Saúde da Prefeitura Municipal de Sorocaba.
Atualmente, exercendo sua escrita, Castan está quinzenalmente no maior jornal da Região Metropolitana de Sorocaba, interior do Estado de São Paulo, se trata do CRUZEIRO DO SUL, onde escreve crônicas tratando do cotidiano. ainda participa do programa "Mente Aberta - O Papo é Psiquê" na rádio Cruzeiro FM .
E a convite de Weverton Galease, é o convidado do mês de junho/2015.
Para mais informações sobre o trabalho de psicanálise de Castan, acesse psicastan.com.br

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