segunda-feira, 4 de maio de 2015

UMA FAMÍLIA PARA FELICIANO



Conto de Gustavo do Carmo


Depois de tantas frustrações românticas, aos 37 anos, Feliciano, enfim, arrumou uma namorada. Mas ela era divorciada e tinha um filho. E isso era um grande problema para ele, que odiava crianças. 

Feliciano não tinha paciência, principalmente com manhas e pirraças, e se envergonhava de falar em linguagem “tate-bitate”. Também não se achava maduro para ensinar e dar conselhos. Tinha medo de ser agressivo demais para corrigir e permissivo demais para agradar.

Ele poderia até conquistar a confiança da criança, mas aí teria que disputar a sua atenção com o pai dela. Tinha medo de jogar o guri (ou a guria) contra ele, o que não era a sua intenção. E também não desejava aturar a interferência de direito dos avós paternos e de outros membros da família do pai biológico também. 

Isso tudo era uma aporrinhação que Feliciano preferia evitar. Mas não conseguiu. Acabou se apaixonando por Marielle e Oscarzinho, seu filho de cinco anos. No início, ele pensou em desistir do romance quando descobriu que ela tinha um filho pequeno. 

Se convenceu de que estava ficando velho e as mulheres mais velhas, com as quais sempre sonhou, já estavam ficando idosas e entrando na menopausa. Feliciano queria ter filhos, sim. Mas só dele, para amar e criar à sua maneira, e não para cuidar de crianças dos outros. As moças da sua faixa de idade já estavam com filhos e as mais novas, mesmo que não fossem imaturas, o deixariam com a sensação de ridículo ou pedófilo. 

Oscarzinho era muito educado e aceitou muito bem o padrasto. Feliciano perdeu o medo de repreender o garoto quando ele fazia manha, mas conseguiu domá-lo. E o menino lhe obedecia prontamente. O que Feliciano conseguiu foi a confiança e o amor verdadeiro do menino (com quem jogava videogame até a alta madrugada, mas ralhava quando ele não queria comer, fazia alguma arte ou pirraça) e de Marielle. Conquistou, também, a amizade do pai, dos avós paternos, tios e primos de Oscarzinho. 

Casou-se com Marielle em cerimônia e festa que reuniram as famílias de todos os lados. Ganhou um emprego de roteirista em uma produtora de cinema, indicado por um primo de Lucas, o ex da sua esposa e pai de Oscarzinho. O medo que Feliciano tinha de crianças e de conviver com a família do pai delas se evaporou. Tanto que Feliciano deu um segundo filho, uma menina, para Marielle. Oscarzinho, obviamente, ficou muito feliz com a irmã.

Feliciano estragou tudo quando descobriu que Marielle estava pretendendo retomar o seu casamento com Lucas e levar os filhos, inclusive Mariângela, a dele. Após esbofetear a traidora, empurrou-a quando ela reagiu. Marielle se desequilibrou, a guarda da varanda do apartamento cedeu e ela caiu do sexto andar. Não resistiu aos ferimentos. Passou a ser odiado pela família dela, de Lucas e pelo próprio Oscarzinho.

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