segunda-feira, 27 de abril de 2015

A FARSA DO PERDÃO



Por Gustavo do Carmo

Tem umas pessoas “cheias de paz” por aí que ficam dizendo que o perdão faz bem...  que o ódio faz mal para a saúde... Pura balela. Quando essa gente fica magoada não perdoa de jeito nenhum. Sequer pede desculpas. Se disser que perdoou está mentindo.


Eu mesmo passei por essa situação. Falo por experiência própria de quem não foi perdoado. Quem eu realmente magoei, até compreendo. Já briguei com um ex-amigo de bobeira, culpa minha, e pedi perdão logo em seguida. Ele teve a humildade de responder que não queria retomar a amizade naquele momento. Esperei. No aniversário dele, meses depois da briga, tomei coragem e lhe desejei felicidades. Ele aceitou e fizemos as pazes.  

Antes, fiquei magoado com uma colega da primeira pós-graduação que eu fiz (e única que eu terminei). Procurei-a como se não tivesse acontecido nada. Ela respondeu educadamente. Mas não me procurou mais. A amizade que a gente tinha não era mais a mesma. Lembrei daquele ditado “Amizade é igual pata de cavalo. Quando quebra não é mais a mesma”. Ah! Tem aquele também que diz “Amizade é igual papel: quando você amassa e depois desamassa nunca mais fica como era antes”. Nunca mais a procurei. Mesma coisa para o meu principal colega na faculdade de jornalismo, que não me procurava depois que nos formamos, e quando eu procurava me tratava com frieza.

Com outra colega de outra pós-graduação, que, aliás, eu abandonei no final, também me desentendi. Ela me boicotava nos trabalhos de grupo. Fazia corpo mole. Mesmo tendo razão na minha mágoa pedia desculpas. A primeira ela aceitou, mas me enganou de novo, repetindo o corpo mole. Na segunda, ela voltou a “superar”, mas foi fria demais. Foi mais calorosa pra falar das afinidades com outro colega da turma do que pra me perdoar. Fiquei com tanta raiva desse suposto envolvimento amoroso entre eles que eu nem respondi ao tal e-mail.

Meses depois, tentei readicioná-los no Facebook, como se não tivesse acontecido nada. Eles não aceitaram. Aí caí na asneira de reclamar. Fui dizer que o ódio estava me fazendo mal.  Nem se deram ao trabalho de responder à minha mensagem suplicante.

No ano passado, por causa de uma ironia com o tempo de gravidez feita por um seguidor no Twitter que eu fiz questão de repassar, um cara que se dizia meu amigo, metido a jornalista esportivo, disse que bloqueou o cara só porque não gostou da mensagem. Respondi de brincadeira que ele estava sendo mal-humorado, que não estava levando na brincadeira. E o jornalista me bloqueou também. Eu fiz o mesmo e nunca mais visitei o site caseiro dele. Até agora não veio me pedir desculpas. Deve estar achando que eu não respeitei a opinião dele. Dane-se. Não vou procurá-lo. Eu tenho razão.

Sabe aquele ex-amigo que me perdoou após eu ter rompido de bobeira? Pois é. Brigamos de novo. Agora o culpado foi ele. Eu lhe disse que mandei currículos para dezenas de produtoras de cinema mas não consegui nada porque não tenho “pistolão”. Ele dizia que sofria com isso, fingindo compartilhar a minha frustração. E de repente, não é que ele foi indicado para trabalhar em uma?

Me senti traído e cobrei dele uma indicação. Ele se fez de vítima dizendo que tinha acabado de ser contratado, que eu estava lhe pressionando e que fui o único que não lhe deu parabéns. E não dei mesmo. Não sou hipócrita como ele. Isso foi apenas a gota d’água porque já estava revoltado com ele me chamando de mimado quando lhe contava os presentes que eu ganhava da minha família, das viagens que eu fiz e das suas notícias falsas (?) de que a tal ex-colega da pós que me boicotava nos trabalhos, o “novo marido” (?) dela e vários conhecidos de quem estou com raiva estavam bem colocados enquanto dá tudo errado para mim. Um verdadeiro amigo da onça que fazia isso só para me irritar.

E já estou desconfiado de que foi ele quem vendeu um conto que só ele leu para uma famosa atriz produzir um curta. Sem crédito para mim, claro. Não é muita coincidência ele ter ido trabalhar justamente numa produtora de cinema, onde ele tem mais contato com essa gente?

Se eu pedi desculpas da outra vez porque estava reconhecidamente errado, desta vez não vou pedir. Estando eu errado ou não. E mesmo se eu pedisse ele ia ignorar e eu faria papel de ridículo de novo.

Foi com esses casos que eu cheguei à conclusão de que esse discurso de que perdão faz bem pro coração e pra alma é pura balela. Só quem perdoa de verdade é mãe, pai e irmão. Às vezes nem isso.

Ódio e rancor só fazem mal para quem é fraco ou não tem amigos. Porque essas pessoas “cheias de paz”, que têm uma rede de relacionamentos enorme e estão estabilizadas no emprego nem precisam sentir ódio e pedir perdão de gente que eles mesmos desprezam, porque não vai lhes fazer falta nenhuma, pois têm um milhão de amigos. Falsos, mas têm. Só precisa de perdão quem está por baixo. 

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