segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

DEPOIS DO ASSALTO



Conto de Gustavo do Carmo

Não se viam há anos. Uns dez, mais ou menos. Eram colegas na faculdade de jornalismo. Se formaram juntos. Vitorio se tornou bem mais sucedido. Afastou-se de Randolfo por causa do pessimismo do colega, mas se desculpava com o argumento de que o trabalho em um famoso jornal esportivo estava sugando o seu tempo. Na verdade, Vitorio seguia recomendações de uma ex-namorada e quatro outros ex-colegas da turma para se afastar de pessoas negativas como Randolfo.


Randolfo - que nunca exerceu a profissão, nem conseguiu qualquer emprego - publicou um livro. Pago, porque era tão ruim e infantil que nenhuma editora se interessou. Convidou o ex-colega por um ingênuo desencargo de consciência por ter lhe usado como inspiração em um dos personagens da história do romance. E Vitorio apareceu. Conversaram durante a metade do lançamento e trocaram endereços de contato pela internet. O amigo jornalista esportivo prometeu procurar, mas não cumpriu.

Mesmo assim, Randolfo chamava para bater papo numa rede social. Vitorio até deu conversa, mas foi frio e monossilábico. Randolfo não percebeu e não ficou chateado. Randolfo convidou Vitorio para o lançamento do seu segundo livro, desta vez de contos. Desta vez Vitorio não apareceu.

Randolfo finalmente entendeu que Vitorio não queria mais conversa quando este mais uma vez foi seco na internet. Jurou nunca mais procurar o agora ex-amigo. Mesmo assim, Vitorio ainda lhe mandou um e-mail no aniversário e pediu para confirmar o telefone. Randolfo confirmou, mas ironizou a frieza do ex-colega famoso dizendo que os contatos dele poderiam ser mais frequentes. Vitorio nunca mais o procurou. Juraram nunca mais se reencontrarem.

O juramento foi quebrado, involuntariamente, em um banco na Zona Sul. Randolfo estava fazendo pagamentos para o seu pai, que sempre o cobrava para tomar um rumo na vida, mas sempre mandava o filho pagar contas no banco e pedia ajuda. Embora morasse na Zona Norte, fazia questão de atravessar a região para espairecer a cabeça. Vitorio tinha ido ao banco para contratar um seguro de vida.

Os ex-colegas de faculdade, antes inseparáveis, ainda não tinham percebido a presença do outro. Randolfo estava em pé, na fila do caixa, e Vitorio sentado, conversando com um gerente, tomando um capuccino, no fundo da agência. A rotina deles, dos outros clientes e bancários foi interrompida quando quatro homens anunciaram que estavam assaltando a agência. Tinham passado facilmente pela porta giratória.

Os bandidos mandaram todos os presentes no banco a se deitarem no chão e ficarem quietos, sob ameaças de morte, enquanto invadiram o cofre e roubaram o que tinham que roubar. Apesar das ameaças, não fizeram nada com ninguém. Saíram pela porta da frente e o roubo se deu na maior tranquilidade.

Livres, os clientes ficaram traumatizados, apesar de não sofrerem nenhuma violência. Crianças e mulheres choraram. Idosos e obesos passavam mal com pressão alta, entre eles Randolfo, que não era obeso, mas estava bem fora de forma. Os mais fortes tranquilizavam dizendo que tudo já passou. Vitorio fazia parte dos que ajudavam. Assim que viu o ex-colega de faculdade passando mal, correu para acudi-lo.

— Randolfo? Você está bem, rapaz?
Randolfo não respondeu. Fechou a cara e abaixou a cabeça.
—  Ainda está magoado comigo, né?
Novamente o amigo imaturo da turma ficou em silêncio. Mas finalmente falou.
— Não. Não estou bem, não. Estou passando mal. Suando, com dor de cabeça e puto da vida.
— Calma, amigo! Calma! Eu sei o quanto é humilhante ser assaltado e não poder fazer nada.  Vamos ao médico. Na volta, se estiver tudo bem, a gente dá um passeio e conversa. Consegue se levantar?
Randolfo tomou impulso para sair da cadeira de uma das mesas do gerente para onde foi levado depois do assalto e se levantou.
— Meu braço está dormente.
— Então espera aí. Senta de novo que eu vou chamar um médico.
Gritou no banco, perguntando por um médico. Uma moça mulata se apresentou:
— Eu sou enfermeira, serve?
— Claro. Tem aparelho de pressão?
– Tenho sim.
— Então mede a pressão do meu amigo, por favor. Ele está se queixando de dor de cabeça e dormência no braço.

A enfermeira tirou um aparelho manual de pressão, daquele de ponteiro e bombinha. Colocou a tira de náilon e velcro no braço de Randolfo, acomodou o estetoscópio por baixo da pulseira e a outra parte no ouvido. Apertou repetidamente a bomba de borracha.  Dez segundos depois, repetiu o processo. Mais dez segundos, tirou o aparelho do ouvido e do braço do paciente e confirmou:

— A pressão realmente está muito alta. Tem que ir ao médico.
— Muito obrigado, viu? Agradeceu Vitorio.
Randolfo apenas murmurou um agradecimento, de tão indisposto que estava. Vitorio ajudou o amigo a se levantar. Randolfo o afastou com as mãos, recusando o apoio, antes de se encaminhar para a saída do banco.
— Deixa que eu me levanto sozinho! Já estou melhorando!
 — Mas você tem que ir ao médico! Eu vou com você.
— Não precisa! Estou bem!
— Não está não! Você está cambaleando! Insistiu Vitorio.

De fato, Randolfo andava com dificuldades e foi seguido por Vitorio. O colega complexado saiu do banco e caminhou devagar, em direção a um hospital particular na Figueiredo de Magalhães. Ligou para a sua mãe. Omitiu o assalto e o mal-estar pela pressão alta. Mentiu dizendo que ia almoçar com um amigo que encontrou na rua.

Vitorio seguiu o amigo até o hospital, sem ser visto por ele.  Randolfo teve força para dar entrada na emergência, entregar os documentos à recepcionista fria e passar o cartão do plano de saúde. Havia muita gente na espera. Ele passou mal de novo e quase desmaiou. Vitorio, que chegou ao hospital a tempo, pediu para alguns enfermeiros o passarem na frente.

Randolfo ainda estava com a pressão muito alta. Aumentou um pouco desde que foi medido no banco pela enfermeira, que trabalhava exatamente neste hospital e o reencontrou na sala de observação.

— Estou vendo que ele não melhorou ainda. A pressão aumentou?
— Aumentou. Ele veio direto do banco pra cá. Respondeu Vitorio. 
— Por que não pegou um táxi?
— Não. O banco era perto daqui. Dava pra andar a pé. Respondeu Randolfo.
— Mas você estava passando mal, meu querido. Acabou de enfrentar um assalto. Você precisa de repouso. Se não fosse o seu amigo você teria tido um enfarte. Daqui a pouco já vem a medicação. Eu sou do setor de internação. Preciso voltar ao trabalho. Qualquer coisa, o meu nome é Neusa. Com licença.
— Tá ok. Obrigado. Agradeceu Randolfo.
— Obrigado também. Agradeceu Vitorio.
A enfermeira que estava com eles no banco deixou a sala. Sozinhos, Vitorio puxou assunto com o Randolfo, que estava com a cara amarrada.
— Randolfo, olha só. Eu percebi que você ainda está magoado comigo.
— Agora que você percebeu? Se a gente não tivesse sido assaltado lá no banco você não teria percebido, né? Aliás, nem teria me procurado. Sequer se importado comigo, como nunca se importou desde que saímos da faculdade!
— Eu fui ao lançamento do seu livro. Conversamos bastante lá. 
— Mas depois me tratou com frieza pelo Messenger.
— Eu estava cansado. Cheio de trabalho. Ainda tenho que sair com a minha esposa.
— Com a sua esposa e com os nossos colegas, né?
— Quem te disse que eu saio com os nossos colegas? Eu nem tenho mais contato com eles.
— Ah! Deixa de ser mentiroso! Eu já vi vocês conversando várias vezes no Twitter com todos. Segue todo mundo. Só eu que não me segue.
— Eu te adicionei no Facebook. Mas você me excluiu. 
— Te excluí, sim! Porque você nunca conversava comigo. Nunca compartilhava as minhas bobagens. Mas compartilhava a dos seus amigos. Cansei de ficar sobrando na conversa da panelinha e te tirei fora.
Vitorio revirou os olhos e questionou:
— E você me procura?

Foi o suficiente para Randolfo se alterar, se levantar da cama e gritar:

— Ah! Você está de sacanagem, né? Tu é muito hipócrita! Eu te procuro desde que saímos da faculdade. E tudo o que você fez foi me ignorar. Me tratar com frieza. Depois da faculdade, quando eu te ligava, você ficava sempre querendo me despachar. Estava sempre ocupado. Pelo Messenger era tão frio que um outro amigo meu percebeu quando eu contei pra ele. Eu me sentia um idiota inconveniente quando te procurava.

A esta altura, uma idosa com a sua filha também estavam na sala. A enfermeira que as atendeu chegou a soltar um chiado para pedir silêncio. Randolfo e Vitorio se desculparam. A moça que acompanhava a mãe pediu um pouco ríspida:

— Olha! Por favor! Vocês podem discutir a relação homoafetiva de vocês em outro lugar? Isso aqui é um hospital e a minha mãe está passando mal! 
Vitorio se explicou com um riso constrangido.
— Perdão pelo incômodo, minha senhora!
— E nós não somos homossexuais! Afirmou Randolfo, de cara amarrada.
— Desculpa. Mas, por favor, façam silêncio ou teremos que chamar a enfermeira.

Os dois amigos ficaram em um silêncio constrangedor enquanto esperavam a médica liberá-los. Mas a pressão de Randolfo ainda não abaixou por causa da discussão. Ficou mais um tempo em observação. Vitorio pediu licença, saiu da sala e foi esperar a alta do amigo na recepção. Ligou para a esposa e avisou que ia demorar. Não tinha pressa. Estava de férias no trabalho.

Duas horas depois, Randolfo foi liberado. Do hall do hospital, Vitorio o viu sair e o abordou.

— E aí? Está melhor?
— Um pouco. Respondeu com frieza.
— Vamos comer alguma coisa lá na cantina.
— Eu preciso voltar pra casa. Minha mãe vai ficar preocupada.
— Você não já ligou pra ela?
— Liguei. Mas já estou demorando mais do que eu esperava.
— Então preciso te falar uma coisa antes de você ir. Exige Vitorio, praticamente puxando Randolfo pelo braço para a cantina.
— Ah. Não me venha com essa. Teve anos pra me procurar e dizer o que precisava conversar. Só está preocupado assim porque me encontrou por acaso num assalto e me viu passando mal. Ficou até ofendido com uma ironia que eu fiz com a sua má vontade de me procurar.
— Não fiquei ofendido. Fiquei sem graça. Envergonhado comigo mesmo. Engoli em seco e fiquei sem resposta. Por isso que eu não te procurei mais. Respondeu Vitorio, já impaciente com a má vontade do amigo. — Mas deixa eu te falar! Desculpa se eu não te procurei esse tempo todo. Não vou mais dizer o motivo porque eu sei que não vai acreditar mais. Mas o que você quer para a gente voltar a ser amigo?
— Eu quero que me procure. E sempre. Não gosto de procurar ninguém. Estou sempre atrapalhando. Eu não tomo a iniciativa de ligar nem para a minha irmã. Se você me procurar com frequência eu até te ligo de vez em quando. Mas eu preciso me sentir conveniente e confiante.
— Tudo bem. Eu procuro.
— E outra coisa?
— Fala.
— Quero que convença alguma editora a reeditar o meu segundo livro de contos. Sei que você também já publicou um livro. Pode muito bem fazer lobby lá. E bem que poderia indicar os meus contos para algum produtor de cinema, TV e teatro. Conhece muita gente do meio. Inclusive a Mercedes, que virou atriz e se casou com o filho daquele cantor... o Raul de Mello.
— Vou ver o que posso fazer. Mas você não quer mais trabalhar?
— Não. Desisti. Já tenho preguiça de enfrentar rotina de trabalho, colegas falsos e patrão chato. Me acostumei com a liberdade de fazer o que quiser. Mas se pintar alguma coisa...
— E as editoras que publicaram os seus livros?
— A primeira publicação foi paga. Não quero mais gastar dinheiro com editora. Muito menos ser obrigado a me virar para divulgar o meu livro. O Sofrendo Calado é uma porcaria. E a segunda editora boicotou o Enfurecidos ao não divulgá-lo e distribuí-lo.
— Vou tentar, Randolfo. Vou tentar. Mas saiba que eu gostei muito do Sofrendo Calado.
— Gostou nada. Aquele livro é muito ruim. Mal revisado. Quando penso nele, morro de vergonha. Se fosse possível eu até escreveria de novo. Desde que uma editora me encomende e que eu tenha uma consultoria para jornalismo e legislações trabalhistas. Só escrevi besteira ali.

O coração de Randolfo amoleceu quando começou a falar dos seus livros. Os dois amigos da faculdade pareciam ter feito as pazes. Terminaram de conversar na praia de Copacabana, já ao fim da tarde. Vitorio contou sobre como estava a sua família. Randolfo fez o mesmo e ainda tirou algumas dúvidas que tinha sobre esporte. Riram quando Vitorio debochou das já conhecidas comparações de aparência malfeitas do amigo. Discutiram os bastidores do jornalismo, como nos bons tempos da faculdade.

Randolfo se despediu agradecendo Vitorio por ter cuidado dele depois do assalto e tê-lo acompanhado no hospital. Voltou aliviado e rindo à toa, achando que resgatou uma amizade, após ter perdido a de um amigo virtual de Teresópolis. Entrou na internet, já de madrugada. Vitorio estava offline, como em todas as vezes que ele ligava o notebook. 

Vitorio não cumpriu a sua promessa. Nunca mais procurou o ex-colega por recomendação de amigos, que achavam Randolfo uma influência negativa com o seu pessimismo e agressividade. Os dois antes inseparáveis colegas de faculdade nunca mais se falaram.


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