segunda-feira, 16 de junho de 2014

O INVICTO



Por Gustavo do Carmo


Conto originalmente publicado em 8 de novembro de 2008

Victor já nasceu um vencedor. Foi o primeiro bebê do ano e por isso seus pais ganharam um bom prêmio de um fabricante de fraldas. Também o elegeram a criança mais bonita do bairro, da cidade e do Brasil.


Aos quatro anos foi a mesma coisa. Nunca perdeu um concurso infantil de beleza em sua vida. Quando entrou para a escola, no ano seguinte, participou e ganhou um concurso de desenho.

Aos oito, entrou para a escolinha de futebol. Sem posição de linha no time, virou goleiro. Não tomou um gol enquanto jogava e ganhava concursos de redação e olimpíadas de matemática no primeiro grau colegial.  

A adolescência chegou junto com uma miopia galopante e espinhas borbulhantes. A beleza campeã foi embora com a infância. Deu lugar a feiúra. Mesmo assim, Victor não deixou de ser um vencedor. Participou brincando de uma competição de homem mais feio do país. A decisão dos jurados foi unânime.

Aos vinte, entrou para a faculdade de direito. Até então, jogava no time do colégio de ensino médio, várias vezes campeão invicto dos torneios inter-colegiais, além de ter passado por todas as categorias de base do futebol de campo. Quase se tornou um jogador profissional. Encerrou a carreira sem tomar um gol.

Cinco anos depois estava formado como advogado. A fealdade foi embora junto com as espinhas expulsas por um tratamento de pele e a miopia exorcizada por uma cirurgia ocular. Ainda como estagiário, ganhou o seu primeiro processo civil. Primeiro de muitos. Aos quarenta anos de idade venceu o milésimo processo por danos morais.

A beleza já voltara quando casou-se com Sofia, sua primeira namorada fixa. Na adolescência, feio como era, não ousou paquerar ninguém. Mesmo assim, conquistou Orlaine Regina, a empregada de sua casa que era dentuça, queixo pontudo, nariz rebaixado e olhos fundos. Claro que Victor fugia dela. E mais uma vez se saiu vencedor.

Tão logo livrou-se das espinhas e do óculos virou um galã de cinema.
Um conquistador nato. Sofia foi apenas a vigésima moça bonita que passou pelo seu currículo, digo, seu caminho. Com ela teve duas filhas: Laureane e Vitória.

Comemorava o seu aniversário de quatro décadas e meia quando veio a sua primeira derrota. No campeonato entre amigos de futebol society perdeu a sua invencibilidade de goleiro. Mas isso não abateu Victor. Ele não jogava desde quando saiu do ensino médio. Seu time ganhou por 4 a 1. Um mês depois, levou três gols e o inédito duplo revés: o jogo e o torneio. Mas isso não o abateu.

Victor perdeu a sua invencibilidade profissional anos depois. Era um julgamento difícil. Atuou na defesa de um fazendeiro influente que matou um inimigo político a sangue frio. Mesmo com sua competência e a tendência da justiça do país, o réu foi condenado por unanimidade não só por homicídio, como também por grilagem de terras. Mas Victor ainda não se abateu.


Por causa das ameaças do ex-cliente, mudou-se com mulher e filhas para a fria Noruega. Lá, mesmo casado, encantou-se por Danika, uma bela nativa de olhos azuis cor do mar e cabelos pretos nanquim, pele branca como neve e amiga de Laureane, a filha mais velha adolescente. Perdeu também a invencibilidade de conquistador. Desta vez, Victor se abateu. Literalmente com roleta russa, que acertou o alvo na primeira e última tentativa. 

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