segunda-feira, 10 de março de 2014

O HOMEM COM MEDO

Conto de Gustavo do Carmo



Quando criança, Afrânio tinha medo do escuro e do bicho-papão. Entre os pavores reais estavam os bate-bolas no carnaval e as baratas. Dos três primeiros perdeu quando cresceu, mas ainda continua com medo dos insetos.

Na escola, tinha medo de ficar de castigo e tirar nota baixa, o que não deixava de acontecer. Quando tirava nota baixa, seus pais se recusavam a assinar o boletim. Ele ficava com medo de ser castigado por entregar o boletim sem assinatura e chegou  ao ponto de falsificar a do pai.

Chegou à adolescência com medo de levar fora das namoradas. O temor se concretizou. Era sempre humilhado pelas garotas (que exibiam os seus musculosos namorados na porta da escola), que o chamavam de feio e bobo, e também pelos garotos mais espertos, que diziam que ele era o filho do professor de Química, de rosto marcado, dentuço e óculos de fundo de garrafa como Afrânio usava na época.

Ele também não gostava muito de estudar. Não tinha paciência para decorar. Assim, teve dificuldades de passar no vestibular. Obviamente, não foi aprovado para uma faculdade pública. Ficou com medo de ficar sem estudar após o segundo grau.

Afrânio tinha medo de trabalhar na loja do pai, que sempre o deixava pra escanteio em favor dos seus parceiros de negócio.  Também morria de medo da cidade onde ficava o estabelecimento comercial do pai, que já fora assaltado algumas vezes por lá.

Conseguiu ser aprovado para uma faculdade particular na zona sul do Rio. Suburbano, tinha medo de ser discriminado pelos colegas, o que realmente aconteceu.  Ingênuo, tinha medo de ser humilhado pelos professores, o que de fato ocorreu, mas apenas por alguns. Os demais ficaram com pena. Tinha medo de ser rejeitado pelas mulheres e foi.

Já era adulto e continuava com medo. Ainda na faculdade, tinha medo de procurar estágio. Depois que se formou em jornalismo e publicidade (tinha medo de fazer medicina e pôr a vida de alguém em risco, de fazer direito e não saber defender um inocente e de fazer engenharia e viver escravo dos números), ficou com medo de procurar emprego.

Nas entrevistas era sempre descartado, pois ia com medo. Jamais conseguiu emprego, mesmo com a pressão do pai e da irmã, que lhe obrigavam a prestar concurso público. Tinha medo de ser funcionário público e viver em greve. E também de não ser efetivado e nunca ganhar a tão propagada estabilidade.

Não aprendeu a dirigir porque teve medo de enfrentar o trânsito. Nunca mais se interessou por mulheres. Desempregado, tinha medo de ser humilhado pela família da namorada desconhecida. Obviamente, nunca teve filhos. Tinha medo de crianças. Sempre teve, desde que ele mesmo era criança.


Afrânio já era um homem de corpo formado, quase se deformando pela gordura abdominal. Mas o medo o impedia de amadurecer. Chegou aos 40 anos ainda com medo da vida. Procurou um psicólogo. Descobriu que tinha medo das responsabilidades.  E tinha medo de enfrentar o medo. 

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