segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

RETROSPECTIVA 2013 - TARDE DEMAIS 19 - ENTREVISTA


Conto de Gustavo do Carmo

— Bom dia. Eu vim para a entrevista com a Fabiana.

Disse Adriano para a secretária da dona da produtora de cinema, que o havia chamado para conversar. Ele não fora indicado por ninguém. Tinha mandado um currículo há algum tempo, pela internet. Pedira uma oportunidade como roteirista.

Patrícia, a secretária, se assustou com a aparência do candidato: extremamente magro, totalmente careca e andando com bastante dificuldade, apoiando-se em duas muletas. Também não conseguia falar direito. Aliás, quase não tinha mais voz, que saía bem rouca.


— Pois não. Você veio para qual vaga? Respondeu a secretária, assustada.

— Roteirista.

— Ok. Eu vou entregar o seu currículo a ela. Levantou-se, tentando disfarçar a sua fisionomia de nojo.

— Mas ela já tem o meu currículo.

— Na verdade, é a sua ficha. Esclareceu, gaguejando.

Patrícia deixou a recepção e entrou na sala de Fabiana. Batendo a porta, ela se anuncia e é autorizada por um seco “Entra”. Depois de encostar bem a porta, correu logo para a patroa e amiga. Avisou sussurrando.

— Fabiana, o Adriano, candidato à vaga de roteirista já chegou.
— Ok, Patrícia. Pode mandar entrar.
A secretária ficou parada em silêncio. O tempo para Fabiana consultar o computador e voltar a olhar para a funcionária, ordenando impaciente.
— Tá esperando o quê, Pati? Vai lá chamar o Adriano!
— É queee...
— É que o quê, cara-pálida?! Perguntou ríspida. 

Realmente a cara de Patrícia estava bem pálida. Pálida de susto com a aparência do candidato.

— Fabiana, me desculpa. É que o Adriano está com uma aparência horrível.
— Ele tá bêbado? Xii, então pode mandar embora.
— É. Está cheirando até droga! Disfarçou. — Eu vou despachá-lo.

No momento que Patrícia abre a porta para sair do escritório, a figura debilitada de Adriano invade a sala de Fabiana.

— Com licença. A senhora é a Fabiana? Desculpa invadir a sua sala. Explicou-se com dificuldade. 

Não a de um bêbado, mas de um doente terminal.

— O senhor, quem é? Perguntou Fabiana, depois de trocar olhares assustados com a secretária.

— Eu sou o Adriano, candidato a vaga de roteirista na produtora.

Fabiana olhou de cara feia para Patrícia, que mentira sobre a sua real aparência.

— Pois não, Adriano. A minha secretária disse que você estava bêbado, mas não parece, né, Patrícia? Fitou-a com olhar repreensivo.
— Me perdoa senhora. Me perdoa, Adriano. É que eu fiquei assustada com o estado de saúde dele. Desculpou-se, de cabeça baixa.

— Tudo bem.

— Está bem, Pati. Pode sair, por favor. Depois a gente conversa.
— Ok. E, constrangida, Patrícia deixa patroa e candidato a sós.
— Bem, Adriano. Eu peço desculpas pela mentira e o preconceito da minha secretária. No entanto, infelizmente, estou vendo que você não tem condições de saúde para trabalhar aqui. Você está muito debilitado.

— Eu sei. Por isso fiz questão de vir aqui. Vim aqui pra dizer que se tivesse me chamado tão logo mandei o currículo, há três anos, eu teria condições de trabalhar. Mas no ano seguinte descobri um câncer no estômago e depois outro na garganta. Estou fazendo quimioterapia, mas já estou com metástase e fui desenganado.

— Eu dou meus parabéns pela sua força de vontade, mas por que se sacrificou tanto para vir à entrevista, se não tem mais condições de trabalhar?

— Para pedir que você não demore tanto a dar, pelo menos, uma resposta a quem a procura. E fale a verdade! Se não gostou do portfólio aponte os defeitos e se gostou contrate logo. Que sirva de lição para os próximos aspirantes a roteiristas. Um deles pode desenvolver um câncer como eu, mas pelo menos terá a felicidade de ter trabalhado no que gosta em seus últimos momentos de vida. Pra mim, agora é tarde demais. Passe bem.

E com as suas muletas, andando bem devagar e sôfrego, Adriano deixa o escritório de Fabiana e a sede da produtora Arruda Films. Meses depois, uma amiga de Patrícia foi contratada como roteirista. Ao mesmo tempo, o sofrimento de Adriano se encerraria.

Fabiana ficou sabendo do destino de Adriano. Disse apenas “coitado” e seguiu sua vida, produzindo e dirigindo um conto do ex-candidato, assinado por Patrícia, que ficou rica com ele e abriu uma produtora concorrente.  

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