segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

AS VIUVEZES DE OSWALDO




Conto de Gustavo do Carmo

Voltava do enterro da esposa. Morrera de câncer no colo do útero. Tinha apenas 30 anos. Ainda era uma menina. Com ela teve dois filhos, um casal ainda pequeno que iria crescer sem a mãe.

Gerlaine era a sua terceira esposa. As duas primeiras também morreram de câncer no colo do útero. Maria Isabel também não passou dos 30 e deu três filhos homens a Oswaldo. Todos já adultos. O mais velho até já lhe deu dois netos. Aurora ainda chegou aos 35 e deu duas meninas, hoje adolescentes, ao então biviúvo.

Foi só depois da morte da quarta mulher, Ana Helena, que Oswaldo se questionou porque todas as suas mulheres morriam de câncer de colo de útero. Oswaldo não era analfabeto. Sabia que essa doença existia e era transmitida pelo HPV. Mas, como dono de padaria, nunca teve tempo para fazer um exame urológico.

Achava que era azar. Castigo por não dar atenção necessária aos filhos (teve mais uma menina com Helena). Praga de algum desafeto. Somente quando morreu a quinta mulher, Célia, de apenas 26 anos (que não lhe deu filhos), é que Oswaldo começou a se culpar por não ser um marido exemplar.

Já aos setenta anos, ele sempre dava em cima das mulheres mais novas. Todas as mulheres com quem se casou depois de Maria Isabel  ele já conhecia durante o casamento com a anterior. Assim que a esposa morria, logo já assumia o novo romance e se casava com a próxima. Só se culpava por isso.

A culpa realmente era dele. Lidiane seria a sua sexta esposa, mas a primeira que o obrigou a fazer um exame pré-nupcial. As outras desconheciam a doença, pois tinham baixa escolaridade. Com exceção da Maria Isabel, eram todas empregadas do velho padeiro.

Lidiane já sabia da fama de “viúvo negro” do pretendente. Advogada, já tinha 40 anos, dois filhos e ia se casar pela segunda vez, pois o primeiro marido morrera de câncer no pulmão. Impôs o exame a Oswaldo, que descobriu que era portador de HPV e estava com câncer de próstata já em estado avançado.


Lidiane foi a primeira mulher que sobreviveu ao casamento com Oswaldo. Era vacinada contra o HPV. Ficou mais rica do que já era. Herdou a aposentadoria e as padarias do marido, que padeceu do câncer. Eles se casaram em comunhão total de bens quando Oswaldo já estava internado em estado terminal. Ela só não sobreviveu ao casamento com Henrique, o segundo filho mais velho de Oswaldo, que a contaminou com o HIV que desconhecia. 


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