segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A SOGRA

Foto: Reprodução


Conto de Gustavo do Carmo

Além de não querer que a namorada sofresse com as suas manias, Albano morria de medo de ser mal visto pela futura sogra por não trabalhar e depender do dinheiro do pai. Assim, resistia a assumir um relacionamento mais sério.

Até que conheceu e foi fisgado por Lorraine, filha única e órfã de pai. Albano citou todas as suas manias, como mudar de canal da televisão toda hora, nunca frequentar missas ou cultos, boates e academias de jeito nenhum, cortar as unhas com a própria mão, entre outras. Ele também tinha vergonha de não ter nenhuma experiência profissional.

— Não se preocupe com isso. Vou dar um jeito.



Esse foi o primeiro problema que Lorraine resolveu. Pediu para o seu tio Lair arrumar um emprego para o namorado. O senhor, bondoso e influente, conseguiu uma vaga de redator na agência de publicidade de um amigo para Albano, que agarrou com unhas e dentes a oportunidade, tornando-se um ótimo profissional.

Albano finalmente realizou a sua tão sonhada independência financeira. Enriqueceu e pôde pedir Lorraine em casamento. Com o noivado, não teve escapatória: ele precisava conhecer a sogra, que era viúva.

Durante  um ano de namoro, Albano sempre arrumava uma desculpa para adiar o encontro com a mãe de sua amada. Lorraine compreendeu o medo do namorado, assim como todas as suas manias.
Dona Lourdes cobrava a filha.

— Você não vai me apresentar o seu namorado não, minha filha? Até o seu tio Lair o conhece e eu não.

— Eu já tentei. Mas o Bano é muito tímido.

A senhora aceitou a primeira desculpa, mas voltou a cobrar no mês seguinte.

— Mãe, vou te contar a verdade: ele tem medo de conhecer a senhora! O Bano acha que a senhora não vai gostar dele.

— Ah, ele não deve é ser boa pessoa. Onde já se viu? Ter medo de conhecer a sogra. 

— Claro que já se viu. As sogras são sempre temidas pelos maridos.

— Ele deve estar tramando algum golpe do baú, isso sim! Tome cuidado!

— Deixa de bobagem, mãe! Já não lhe disse outra vez que o Albano é muito tímido?

— Então ele deve ser um bobo. Se afasta desse tipo de gente.

— Se fosse bobo ele não faria tanto sucesso como publicitário.
Dona Lourdes encerrou com uma rosnada contrariada. Já Lorraine, pela primeira vez, cobrou o noivo para conhecer a sua mãe.

— Amor, por favor!  Você tem que conhecer a minha mãe. Ela já está desconfiando de que você não presta.

— Poxa, Lô. Eu estou tentando criar coragem.

— Pois então crie! Se não criar a gente termina o namoro por aqui! Disse Lorraine, pela primeira vez furiosa com Albano.

— Do que ela gosta, então?

A partir daí, Albano pediu um dossiê sobre a sogra para a namorada: do que ela gosta, do que ela odeia, dos assuntos que deve conversar, dos assuntos que ele deve evitar. E Lorraine disse tudo.  A mãe era religiosa, adorava receber flores, gostava de dançar e era viciada em cupcakes.

Para a tão esperada apresentação, Albano levou um buquê de flores e uma caixa de cupcakes de chocolate com creme de maracujá fresquinhos, comprados no shopping perto da casa de Lorraine. A noiva não tinha falado sobre as preferências de sabor e nem de marca do doce. Dona Lourdes ficou satisfeita de imediato. Albano não deu margens para desconfiança. A senhora encantou-se pelo genro de imediato.

Ele aproveitou e pediu para a sogra a mão de Lorraine em casamento. Dona Lourdes, claro, aceitou e depois disse para a filha que o genro era muito romântico.

Albano também descobriu um assunto que Dona Lourdes adorava: histórias. Contou várias sobre a sua família. Os dois passaram horas conversando. Tantas horas que o cinema que ele iria com Lorraine ficou para outro dia. Depois outro, depois outro. A cada dia Albano conversava mais com Dona Lourdes do que namorava Lorraine.

Em uma das visitas, Albano levou uma caixa cheia de fotos antigas. De novo, ficaram horas conversando. No domingo, ele passou a acompanhar a sogra na missa. Para ciúmes de Lorraine, que ficou sobrando na relação, e da mãe de Albano, Dona Adelaide, que reclamou com a nora que o filho nunca ia à missa com ela.

Dona Lourdes retribuiu o carinho e passou a mimar o genro cozinhando seus pratos preferidos, como capeletti, bife mal passado com batatas fritas e arroz com feijão vermelho. Também dava presentes como livros e miniaturas de carros. Lorraine, claro, continuava com ciúmes. Dona Adelaide idem, pois Albano quase não almoçava mais em casa.

A agência de publicidade onde Albano trabalhava foi vendida para um grupo paulista e ele foi demitido. O casamento, antes certo, ficou fora dos planos. Lorraine passou a usar o desemprego do noivo para envenenar a sua relação de amizade com a sogra.

— Mãe, você aceita um genro desempregado?

— Normalmente não. Mas o Albano eu aceito porque ele é um bom rapaz e vai conseguir outro emprego logo.

A relação começou a esfriar. As manias do rapaz também passaram a incomodar a moça. Lorraine e Albano começaram a discutir com frequência.
Dona Lourdes usava panos quentes:

— Calma, minha filha. Não seja tão intempestiva! Ele está nervoso por causa do desemprego!

— Ele nem está procurando emprego!

— E adianta procurar? As pessoas só conseguem emprego indicadas.

— E ele também está dando em cima de outra mulher na minha frente.

— Você está com tanto ciúme do seu sentimento de mãe pelo Bano que já está vendo o que não existe.
Um dia, revoltada, depois de mais uma missa em que ficou sobrando na conversa, Lorraine apelou:

— Você decide, Albano: ou eu ou a minha mãe! Você está tendo um caso com ela?

— Claro que é você, amor! Eu não tenho culpa de que ela gostou de mim!

— Mãe, você está dando em cima do meu noivo?

— Que isso, minha filha! Olha o respeito! O Albano é o filho homem que eu nunca tive.

Dona Lourdes nem era mulher atraente. Já tinha 70 anos, cabelos brancos e era gorda. Ela ficou uma semana sem falar com a filha por causa das acusações injustas de roubar o namorado da filha. Dona Adelaide, mãe de Albano, fez o mesmo com o filho quando descobriu que ele ia à missa com a sogra e iria a um baile da terceira idade com a sogra. Já Lorraine terminou o noivado. Foi a gota d’água.

O casamento já estava esquecido e as manias de Albano insuportáveis. Lorraine tirou a aliança do dedo e a jogou fora. Voltou a frequentar as danceterias e a academia. Não que o namorado tivesse proibido, mas ela tinha evitado os lugares que ele odiava para agradá-lo. Agora estava livre para fazer o que quisesse.

— Está satisfeita, mãe? Terminei tudo com o Albano! Ele agora é todo seu! Desabafou outro dia.


— E quem disse que eu queria ele?! Eu só o papariquei para testar a sua fidelidade! Se encantou tanto por mim que se esqueceu de você. Depois que vocês terminaram, nunca mais me procurou! E ainda se acomodou com o desemprego!  Esse tipo de homem não presta! Além disso está obeso, tem umas manias chatas e ainda é porco!  

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