segunda-feira, 26 de agosto de 2013

VEJA O MEU VÍCIO

Crônica de Gustavo do Carmo



 Tudo começou quando eu queria ler textos da época em que a poeta Ana Cristina César se suicidou, ao se jogar da janela do apartamento dos pais, em Copacabana, Zona Sul do Rio, em 1983. Pesquisei no acervo do Jornal do Brasil no Google e não achava nada.

Já conhecia o acervo online da Veja. Até já tinha visto por ele a reportagem sobre o acidente aéreo que matou alguns jornalistas de televisão em 1984 e mais dois da Rede Globo no dia seguinte, inclusive o filho da Danuza Leão e do Samuel Wainer. Mas ainda não tinha me viciado.
Sim. Fiquei viciado. Achei a matéria sobre a Ana Cristina César um pouco incompleta. Mas o suficiente para me viciar. No texto havia uma menção ao também poeta Torquato Neto, que também se suicidara (mas intoxicado por gás de aquecedor de banheiro) onze anos antes.

A partir de então, passei a procurar por obituários de personalidades falecidas bem antes de eu nascer ou quando era bem pequeno. Faço uma busca no Wikipédia para ter uma referência da data da morte e então seleciono a edição de uma semana depois do falecimento.

Qualquer celebridade morta a partir de 1968 (ano do lançamento da Veja) eu vou lá e procuro. A minha leitura não se resume aos obituários desejados. Aproveito para ver a edição toda, disposto a descobrir anúncios antigos (fantásticos), costumes e celebridades da época.

E descobri histórias interessantes, como a do sucesso do lançamento do livro Meu Pé de Laranja Lima (que depois eu procurei pelo obituário do seu autor, José Mauro de Vasconcelos), a história de um jornalista esportivo hoje muito conhecido em Cabo Frio (o Katuka), a reconciliação dos Trapalhões, a propaganda da construção do antigo hotel Meridien (hoje Windsor Copacabana), a trágica morte de um bebê e sua mãe em um assalto à banco em São Paulo há 30 anos (a violência já era como hoje e desde aquela época já se defendia bandido) e o curioso caso de uma mulher que se jogou do sexto andar no Leblon e pediu um cigarro quando foi resgatada, mas morreu dias depois.

Alguns obituários eu descobri acidentalmente, como o do escritor Pedro Nava (que se suicidou no meio da praça em 1984) e do ex-presidente da República Emílio Garrastazu Medici - em cujo velório houve um barraco entre o seu neto e o também ex-presidente militar João Batista Figueiredo.

Além dos obituários de Ana Cristina César e do Torquato Neto, procurei também pela história das mortes de Maysa, Chacrinha, Hélio Oiticica, o ex-goleiro do Fluminense Castilho, Aracy de Almeida, Grace Kelly, Cacilda Becker, Glauce Rocha, Coco Chanel, Pixinguinha, Noel Nutels, Adriana Prieto, Igor Stravinski, Ingrid Bergman, John Wayne, Charles Chaplin, Garrincha, Liilian Lemmertz, João Goulart, Carlos Lacerda, Sharon Tate (mulher do cineasta Roman Polanski, assassinada pelo maníaco Charles Manson), Renato Russo (na mesma edição falava da complicação da cirurgia de lipoaspiração da modelo Cláudia Liz, que milagrosamente se recuperou sem sequelas uma semana depois), a modelo Adriana Oliveira e etc.

O obituário da estilista Zuzu Angel aparece censurado, mas o do ex-malandro Madame Satã aparece na página seguinte. Dessas e outras celebridades que eu não citei, alguns funéreos ganharam matérias completas, mas outros aparecem apenas em notas da seção Datas, que existe desde 1970, e iniciam sempre com “Morreram”, mas que não fala só de mortes. Fala de nascimentos também (iniciando com “Nasceu”), como o do jogador de vôlei Bruno Rezende, então noticiado somente como filho dos então jogadores Bernardinho e Vera Mossa.

O que dificulta a pesquisa é o bug que costuma aproximar demais as páginas, obrigando a reiniciação da página. A pesquisa também dá resultados irrelevantes demais. Mesmo assim, vou continuar procurando obituários, mas vou pesquisar sobre assuntos agradáveis também.

Não há como negar que o acervo da Veja é indispensável, como dizia um antigo slogan da revista (juro que não estou fazendo propaganda e nem lobby para ser contratado) e é mais confiável do que uma pesquisa no Wikipédia. Claro que eu devo ser o último a falar do acervo da Veja, mas fica a dica.  

Eu nunca vou abandonar o vício do conhecimento, mas ser viciado em notícias trágicas e obituários não é nada bom, né? 

Para quem quiser viajar no tempo o link é http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx. E quem quiser compartilhar determinada matéria nas redes sociais, copie e cole no seu navegador o link a seguir: http://veja.abril.com.br/acervo/home.aspx?edicao=604&pg=34 e mude para o número da edição (que aparece no menu) e a página (pg) desejadas.

Na semana passada, o jornal O Globo lançou o seu acervo. O leque de pesquisa se estende até 1925. Porém, o sistema é mais lento e não tem como ir direto para a página desejada. É oito ou oitenta. Ou você busca a matéria ou a edição inteira (que no domingo é enorme) para folheá-la toda. Se der problema ou se você tiver que sair quando estiver no final da edição, vai ter que recomeçar da primeira página. E o pior: será pago em breve. Por enquanto é gratuito. Me desculpem se estou sendo tendencioso, mas o acervo da Veja é muito melhor.

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