terça-feira, 6 de agosto de 2013

oblítus

Por @hemersomn



Existem coisas que a gente quer esquecer, mas se fixam em nossa memória como tinta indelével, uma farpa na mente que nos condena a conviver com essa angústia até o fim de nossas vidas. E espero que não haja vida após essa, pois o tormento seria ainda maior. 

Hoje eu tenho vinte e cinco anos, mas foi quando eu tinha nove que as coisas mudaram bruscamente dentro de mim e só a lembrança disso me causa um tremor no corpo. Voltar no tempo e passear por aqueles momentos me enche de agonia, como se olhos invisíveis me observassem em cada passo, a cada corredor cinza por onde eu passe. Na época eu não era a mulher bem sucedida, casada e com dois filhos que sou hoje. E pensar naquele dia me faz olhar para meus filhos e temer. Eles tem quase a idade que eu tinha naquela época, me causando um nó na garganta. Quando olho para Emily, eu, que dou medo em meus funcionários, fico com os olhos cheios de lágrimas só em pensar que...

Bem, deixe-me contar.

Eu sou filha única, nascida sob um lar sofrido, pois meu pai trabalhava duro para sustentar a mim e minha mãe, que não conseguia emprego por ser paraplégica. Eu cresci vendo o esforço dos dois em me educar e termos uma vida razoável e hoje agradeço a Deus por poder devolver todo o carinho e empenho que tiveram comigo. E o amor de meu pai por minha mãe sempre me inspirou. Nos fins de semana nós íamos visitar meus avós maternos. Eu adorava, pois os dois eram muito carinhosos comigo e a companhia deles me era bastante agradável. Naquele dia chegamos quase na hora do almoço e já dava para sentir o cheiro de galinha cozida, a especialidade da minha avó, e logo me vieram à mente aquelas batatas macias, me causando água na boca só de lembrar. 

Saí do carro e ajudei meu pai a colocar mamãe na cadeira de rodas. Depois, fazendo um gesto com a cabeça, ele me disse para ir ver meus avós. Eu corri e me joguei nos braços deles, que já nos esperavam na porta. Me encheram de beijos e perguntas de como eu estava. Falei alegremente da escola, dos bordados que mamãe estava fazendo e me afastei um pouco para mostrar a coreografia que eu estava ensaiando para um evento que haveria na escola. Ao me afastar, essa imagem gravou-se em mim e estranhei nunca ter percebido isso dessa maneira. Diante de mim estavam aqueles dois seres que alegravam meus domingos. Meus avós eram o casal mais ambíguo que eu conhecia. Guardo ainda na memória o quadro que desenhei daquele momento. Minha avó era a mais velha. O rosto anfíbio era enrugado, com verrugas das quais brotavam pequenos pelos brancos, emoldurado por um desgrenhado cabelo grisalho, por causa da tintura que já estava desaparecendo. Apesar do rosto meio gordo, era magra, mas ágil, e seu vestido florido dançava sobre seu corpo, desprovido de busto, desprovido de alguma beleza que provavelmente teve na juventude. Meu avó era totalmente o oposto. Era apenas dois anos mais novo que ela, mas todos diziam que era muito menos quando o viam. Era o homem mais bonito que eu conhecia. O cabelo e a barba brancos como algodão, corpo esguio, charmoso, calmo, me encantava toda vez que falava e contava suas histórias de vida. A única coisa que me incomodava nele era seu hálito. Uma vez perguntei à mamãe o que era aquele cheiro estranho que eu sentia quando o vovô falava e ela me explicou que era porque ele bebia. Papai bebia, mas não tinha o mesmo cheiro. Deixei isso para uma outra ocasião.

Passávamos o dia todo com eles, conversando, comendo os biscoitos que minha avó fazia e ouvindo os "causos" do meu avô. Eu guardo bons momentos comigo dessas visitas, mas nesse dia, em especial, as coisas ficaram diferentes. De tal forma que todas as outras boas lembranças são suplantadas por esse acontecimento. Me arrepia o fato de que apenas uma coisa possa estragar tanto uma convivência, o que me faz pensar sobre o amor acabar, ou se o ódio é só mais uma de suas faces.

Minha avó fazia bonecas. Foi dela que minha mãe herdou o dom de costura. Eram bonecas de pano e borracha impecáveis. Meu avô que fazia os braços e pernas das bonecas numa oficina por trás da casa, que me assustava às vezes, por ver aqueles pedaços tão parecidos com membros humanos. E havia um quarto na casa cheia delas, próximo ao quarto dos meus avós, que cheirava a naftalina. Era um dos momentos do dia que eu mais apreciava. Ela me deixava tocar nelas, mostrava como algumas eram feitas, e geralmente me dava uma de presente. Falava delas como se fossem suas filhas e eu via como acariciava as pernas, sentindo tristeza pela única filha que tinham e era deficiente desde o nascimento. Me contava a história de minha mãe com um rio nos olhos. Eu a abraçava e depois continuava me contando sobre as bonecas.

O quarto era muito grande. Erguiam-se prateleiras e mais prateleiras com bonecas de todas as cores e tamanhos. E toda vez que entrávamos minha avó colocava uma caixinha de som para tocar. Era como uma marca solene ao apresentar-me suas criações. Mas havia algo naquele quarto que sempre me intrigou. No meio dele havia uma porta. E essa porta era proibida para mim. Das únicas duas vezes que perguntei a minha avó o que tinha dentro dela, ela respondeu rispidamente e disse para eu não questionar mais. Óbvio que aquilo me deixou muito curiosa e eu já vinha planejando uma forma de entrar nele. Por vários fins de semana eu observara as raras vezes em que minha avó o adentrava, sem que a deixasse me ver. Ela guardava consigo a chave, no bolso de seu vestido, o que dificultaria ainda mais o meu acesso. Só que percebi também que em um determinado horário da tarde ela ia tomar banho e deixava seu vestido em cima da sua cama, com a chave ainda no bolso. Então eu aguardei essa hora.

Meus pais estavam passeando no pomar com meu avô e conversando. Minha avó já se aprontava para banhar-se e eu fui deixada no chão da sala, a meu pedido, desenhando. Meu coração começou a acelerar com a aventura que se divisava à minha frente. Minha avó costumava demorar no banho e eu já tinha tudo praticamente cronometrado na cabeça. Esgueirei-me pelo quarto dela e quando passei de frente ao banheiro a ouvi cantarolando. Vi o vestido na cama e peguei a chave com muito cuidado para não fazer o mínimo barulho. Era um molho com apenas cinco, mas qualquer tilintar poderia me denunciar. Caminhei até o quarto das bonecas na ponta dos pés, descalça. Testei as chaves até que a fechadura cedeu em uma delas. Temi que a porta rangesse, por isso a abri pausadamente. Tudo estava escuro. Tateei a parede atrás do interruptor e, ao achar, fechei a porta e acendi a luz. Tive um ligeiro susto quando vi a cena. Era praticamente um quarto de bonecas.

Um lustre pendia do teto. Um guarda-roupa cor de marfim e uma penteadeira ficavam nos extremos do quarto. Havia uma pequena cadeira de balanço de um lado e alguns ursos de pelúcia perto dela. Bem no meio havia uma cama com um cobertor branco e vermelho, encimada por um dossel com as mesmas cores. Fui me aproximando e vi que havia algo na cama. Senti um cheiro estranho, que naquela época eu não sabia definir, mas o esqueci diante da próxima cena. Era uma boneca, mas diferente de todas as outras que haviam na parte de fora. A boneca tinha praticamente a minha altura. Usava um vestido de princesa, muito semelhante ao que eu tinha ganhado de meus avós no meu aniversário de oito anos. Estava deitada com os olhos fechados. Não era de pano. Fiquei impressionada com o rosto. Imaginei que minha avó a guardasse ali por ser uma espécie de obra-prima, pois era de uma realidade extrema. Toquei na mão de borracha, encantada, um sorriso bobo na boca. Passei suavemente meus dedos pelos cabelos loiros, macios e bem penteados. Se pareciam com os meus. Então levei um susto quando vi que a boneca abrira os olhos. Sorri comigo mesma. Várias outras bonecas que minha avó tinha confeccionado abriam os olhos com o mais simples movimento. E aqueles belos olhos azuis me chamaram a atenção. Mas o que se seguiu foi a coisa mais bizarra que eu já presenciei na minha vida.

O peito da boneca começou a arfar e seus olhos se voltaram para mim. Eu recuei e coloquei a mão no meu peito, cujo coração parecia querer sair. Aqueles olhos azuis tremiam me encarando. Quase pude ouvir um grito de súplica que emanava deles. Eu gelei. A boneca abriu a boca vermelha com dificuldade, como se não fizesse isso há muito tempo e eu vi a saliva se desprendendo dos lábios de onde exalou um odor pútrido que me fez tapar o nariz. Não saia som de sua boca. Ela não conseguia mexer os braços, óbvio, já que não lhe pertenciam. Só vi seu tronco se movimentar. A cabeça sacudir sem tirar os olhos de mim. Um desespero naquele olhar que me fazem arrepiar todos os pelos até hoje. Aquela criatura era uma pessoa. Não sei como, não sei a razão, nem sei de que forma alguém poderia sobreviver assim, mas sim, ela estava viva. Seus membros foram substituídos por outros de borracha. O que houve com suas cordas vocais eu não sei, mas ela não conseguia falar. Seu corpo se debatia pedindo ajuda, pois eu via o sofrimento no seu olhar. E eu não soube o que fazer. Não soube o que falar. Senti enjoo. O cheiro não saia mais do meu nariz. A vi me pedindo ajuda, com ruídos baixos que saíam de sua garganta. Mas não sabia o que fazer. E sai correndo com o coração na garganta. Corri sem parar até onde estavam meus pais. Chorei e implorei que fôssemos para casa. Meu avô olhava sério para mim, provavelmente já sabendo o que eu tinha visto. Vi minha avó aparecer com uma toalha na cabeça e meu desespero aumentou. Naquele momento eu fui invadida por um sentimento que nunca tinha tido e hoje sei que é ódio. Esperneei e não deixei que eles se aproximassem de mim. Meus pais brigaram comigo, mas fiz tanto escândalo que fui atendida e fomos embora sem as despedidas normais. 

Não podia contar o que tinha visto. Sequer saberia explicar o que tinha visto. Mas depois desse dia eu nunca mais quis visitar meus avós. Todo fim de semana que meus pais tentavam me convencer a ir eu fazia um escândalo. E das vezes que meus avós quiseram nos visitar eu fazia mais um. Me levaram a psicólogos, mas eu não tinha coragem de contar o que havia visto. Meus pais se preocuparam muito, mas a vida seguiu seu curso, bastando não mencionar meus avós. Tive noites terríveis com aquela imagem. Mas com o tempo isso foi diminuindo. Meus pais continuavam os visitando, me deixando na casa de minha tia, irmã de meu pai, onde eu me sentia muito melhor.

O tempo passou, meus avós faleceram e nunca soube o que era aquilo que eu tinha visto. Não acredito que tenha sido imaginação de criança. Eu sei o que vi. E sei a angústia que me acomete toda vez que lembro disso. E hoje eu falo sobre isso por causa de meus dois filhos. Imaginar que minha Emily pudesse ser uma boneca da minha avó me causa desespero. Hoje ela faz nove anos...E eu estou aqui com a caixa de presente dado por minha mãe. Eu temo ser um vestido. Eu temo até saber o real motivo da minha mãe estar naquela cadeira de rodas. Eu temo morrer e não proteger meus filhos. E temo haver uma maldita vida após essa e encontrar-me com meus avós.

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