terça-feira, 13 de agosto de 2013

lasanha

por @hemersomn




Paulo acordou e respirou fundo ao lembrar que era o primeiro dia da semana de férias dele. Os outros dias ele decidiu vender. Olhou pra o lado da cama e lembrou que Janaína deveria ter saído muito cedo para o trabalho, o que ele já estranhou, pois era costume sempre ele levantar duas horas antes dela. Foi até o banheiro e jogou água no rosto. Passou as mãos nos cabelos grisalhos e ficou encarando para seus olhos cansados. Decidiu fazer a barba. Decidiu. Isso lembrou-lhe de outra decisão que havia tomado. Deixar Janaína.

Demorou a dormir aquela noite exatamente por isso. Ficou observando-a dormindo, pensativo, lembrando dos oitos anos que estavam juntos. E não sabia como dizer a ela que não dava mais, que ele não mais conseguiria continuar. Mas precisava.Fazia a barba olhando mais para seu olhar que para o rosto. Duas vezes cortou-se. Duas vezes xingou. Várias vezes sentiu um nó na garganta. 

— Que merda eu tô pensando? — disse de si para si mesmo, jogando água no rosto. Dando um soco na pia.

O que estava acontecendo era confuso até para ele. Tinha conversado com Marcos, colega das antigas, no trabalho, e ouviu que se ele estava decidido deveria ir adiante. Marcos era homem, talvez por isso tenha concordado com ele. Mas Paulo sentia certa vergonha sobre o motivo que o levou até essa decisão. E era por isso que ele não sabia como conversar com Janaína. Sabia que ela iria rir. Muito. Sabia que ouviria as palavras "drama", "louco" e uma variedade de ironias e deboches.

O motivo? Ele estava se sentindo a mulher da casa. Ele trabalhava numa empresa de entregas. Recebia um salário comercial com alguns poucos benefícios que só faziam diferença mesmo no final do mês, sobrando, talvez, para comprar mais uma caixa de cervejas. Acordava às cinco da manhã. Pegava dois ônibus e tomava café na barraquinha de um senhor que vendia salgados. Já Janaína era gerente de um grande armazém no centro da cidade. Foi ela quem comprou o carro e era ela que o usava para ir trabalhar, pois acordava duas horas mais tarde que ele, tomava o café da manhã em casa mesmo e ainda ia para a faculdade à noite, concluir o curso de administração. Ganhava o triplo que Paulo recebia. No fim de semana ela ainda fazia academia. Estava beirando a casa doa quarenta, mas tinha um corpo escultural. Já ele, que olhava agora para baixo, via a barriga esticando a camiseta, batendo na pia e deixou os ombros caírem. Ele só tinha o ensino médio completo. Não conseguia ter disposição para fazer exercícios e, acima de tudo, tendo já ultrapassado os quarenta, ainda não se acostumara ao fato de "cuidar" da casa.

Como ele chegava mais cedo, ficava responsável pela limpeza da casa e pelo jantar. Janaína chegava depois das dezoito e trinta e a comida já estava pronta esperando-a. A roupa já estava lavada, os móveis espanados e ela ainda recebia uma latinha de cerveja na mão quando voltava da academia. Paulo via toda essa rotina e se desesperava.

"Eu só queria uma mulher que fosse mais...mulher?" Ele corou ao pensar isso. Tinha uma esposa bem-sucedida, linda, inteligente e que ganhava bem, mas havia algo, e ele julgava ser alguma coisa entranhada em seu gene masculino, não sabia ao certo, que desejava uma mulher das antigas, que cuidasse de casa, que levasse cerveja para ele, que fizesse a comida. Claro que Marcos concordou com ele. A esposa dele era assim. Dez anos juntos, três filhos, vivia em casa costurando e preparando a janta para quando o marido chegasse. Essa era a vida que Paulo desejava. Mesmo que ele estremecesse ao pensar nisso. "Machista!", ele pode ouvir a voz de Janaína falando para ele e entortando a boca com desprezo.

Mas era o que ele queria. Então decidiu fazer isso naquele dia. Precisava ser rápido. Precisava ser direto. Ligou para a casa do pai e combinou tudo. Iria para lá, passar um tempo até encontrar uma casa para alugar. Falou sobre Janaína e recebeu o apoio do pai. Ele pensou no que diria sua falecida mãe ao ouvir o que ele disse. Talvez seu erro estava em sair pedindo a opinião e conselho de homens. Mas por que diabos ele pediria a opinião de uma mulher sobre isso?

De alguma forma, contraditória para ele, incongruente até para mim que estou escrevendo, ele achava que seria melhor, mais livre, mais "bem-sucedido" sem ela. Sim, e eu desisti de tentar entender isso, mas ele não. E prosseguiu em seu plano. 

Arrumou uma mala com algumas roupas. A barriga atrapalhou. Decidiu ligar para Janaína avisando que ia encontrá-la mais tarde no restaurante onde ela costumava almoçar. A primeira tentativa ele não deixou a ligação completar. Então ligou de novo.

— Janaína.

— Oi, amor. Aconteceu alguma coisa?

— Sim, precisamos conversar...

—  Puta que pariu, Alfredo! Essa carga vai cair em cima de você, infeliz!

Ela não tirou a boca do fone e os tímpanos de Paulo quase explodiram.

— Janaína...

— Nego, presta atenção. Você precisa fazer aquela lasanha que só você sabe fazer hoje a noite...

— Como é?

— Falei com minha chefe, que me elogiou ontem...esqueci até de te contar...aí a chamei pra jantar com a gente hoje. Lembrei que você tá de folga então deu certinho...É o dia perfeito, pois tô achando que ela vai me dar uma promoção...

— Mas...

— Eu deixei meu cartão naquela bolsa que Jucilene me deu de aniversário. Pega ele e vai no mercado comprar o que precisa.Não esquece, tem que ficar delicioso.

—  Mas Janaína...

— Alfredo, porra! Tu quer fuder com tudo aí?! — Espera, amor. Eu te ligo depois...Alfredo!

E desligou. A boca de Paulo ficou aberta. Uma lasanha. Promoção. A chefe dela. E ele não disse nada. Procurou a bolsa e pegou o cartão. Parou um momento e lembrou porque usaria o cartão dela e não o seu. O dele tinha um limite bem menor e já estava estourado. O sangue lhe ferveu novamente. Ficou batendo com o cartão na cabeça, pensativo. Aquilo deveria se resolver hoje. Ele decidiu ligar de novo para ela. O telefone tocou antes.

— Amor, compra aquele vinho branco que você tanto gosta. Como é o nome mesmo? Bem, você sabe. E compra uma grade de cerveja que a Marcela também vai e ela prefere uma loira gelada. Eu acho até que ela é sapatão...hahaha...bem, não tem nada a ver. Ok? Já saiu pro mercado?

— Não, acabei de achar o cartão, mas...

— Olha, nem invente de comprar presunto daquela marca que você usou da última vez. Aquilo é horrível. Compre do mais caro, mas compre do bom. Pera, preciso receber um carregamento. Beijo.

E desligou.

Paulo vestiu-se e foi para o mercado. Colocava as coisas no carrinho com um pouco de raiva, um pouco de ódio, salpicados com um pouco de frustração. Era importante para ela. Era importante para a carreira dela. E uma amiga de infância dela também viria. As amigas dela. Será que riam dele? Será que o viam como um capacho? Um fracassado?

O celular tocou.

— Nego, a Beatriz vai também. Você vai ter que fazer o seguinte, já que ela tem alergia a leite. Faz uma lasanha pequena à parte com aquele queijo sem gosto feito de...como é? soja, né?

— Janaína, a gente poderia conversar?

— Claro, meu amor. Mas não agora que eu preciso conferir um carregamento que acabou de chegar. Não esquece dos petiscos. Sei lá, faz umas asinhas de frango. Você é bom nisso. Te amo, beijo.

E desligou.

Paulo quase jogou o celular no chão. Janaína gostava de dizer que ele era um ótimo cozinheiro. Contava para todo mundo no trabalho, para a família dela. Ela se sentia orgulhosa com isso. Até lhe comprou um avental bem legal no aniversário de casamento deles. Paulo sorriu. Ele estava errado. Tinha uma ótima mulher. Como poderia pensar em deixá-la? Então fez as compras e foi para casa.

Toca o celular.

— Amor, a sobrinha da minha chefe acabou de sofrer um acidente. Acho que não vai dar para ela ir hoje. Cancela tudo. Se ainda não passou no caixa, deixa tudo aí pra não gastar mais. Pera...Alfredo, filho da puta! Beijo, nego.

O sangue subiu para o rosto de Paulo. "faz o jantar só pra a gente, amor." Ela bem que poderia ter falado isso. E ele estava ali na cozinha com as compras feitas. Olhou para a mala arrumada que estava jogada no sofá e sua decisão voltou.

— Não sou escravo dela. — falou abrindo uma latinha e tomando um gole demorado. — As coisas não funcionam assim. Nem vou ligar. Vou chegar lá de surpresa na hora do almoço e acabo tudo.

Era a terceira latinha. Ele conversava consigo mesmo enumerando os defeitos de Janaína. Olhou para o relógio e faltavam duas horas para o almoço. Estava decidido. Tudo acabaria hoje.

Celular toca. Janaína fala com a voz alegre:

— Nego, era alarme falso! O acidente foi com uma menina que estuda na mesma escola da sobrinha dela e tem o mesmo nome. Prepara tudo aí que a gente vai largar o expediente mais cedo pra ir jantar.

— Janaína, nós precisamos conversar sério.

— O que foi? Vai me dizer que meu cartão estourou o limite? Porra, paulo, o que tu comprou dessa vez?

— Que cartão? Não tô falando de cartão, mulher!

— Então deixa de drama e vai preparando as coisas pra esse jantar que eu já tô aqui pensando nele. Surpreenda minha chefe, hein? Aí eu te surpreendo à noite. — sorriu. — Beijo.

E desligou.

Paulo olhou para os lados. Jogou o celular no sofá e tomou o último gole da cerveja. Pensou no que aconteceria à noite. Janaína era muito boa na cama. Sacudiu a cabeça e deu um tapa nela.

— Seja homem Paulo! Tome uma decisão e leve adiante, porra!

Mas pensava nela e na promoção que poderia receber. Pensava também que ela poderia receber um aumento. E ele continuaria ganhando aquela mixaria. Tinha que fazer bonito para surpreender a chefe dela. Iria continuar suportando essas coisas por mais quanto tempo? Ela nem deixava ele falar! Uma carta...Isso...Escreveria uma carta. Não, isso não é coisa que um homem faça. Mas de que outra forma ele conseguiria dizer a ela o que estava sentindo?

— Tu é muito mole mesmo, cara. Escrever uma carta? Não tem coragem de dizer na frente dela?

E em dois minutos ele estava na mesa tentando escrever. Começou elogiando-a. Agradecendo por tudo que ele tinha aprendido durante os oito anos juntos. Falou de suas qualidades e da alegria que ele sentia por estar junto dela. Depois começou a falar o que estava sentindo, o sumo da contradição em uma só carta. Vários elogios seguidos de um "mas". Ele lia em voz alta e achava ridículo. Mas prosseguiu. Não ficou como ele queria, mas era isso. Guardou no envelope e depositou acima do travesseiro dela. Olhou para a cozinha. Lá estavam os ingredientes. Deixaria como estava. Seria bom ela ter uma raiva completa. Melhor que fazer tudo bem, falsamente e então depois lhe apunhalar pelas costas. Pegou a mala e deu uma última olhada na casa.

Celular toca.

Ele pega, meio apreensivo. É Janaína, ele sabe. Respira fundo e tenta ser frio.

— Amor, a sobremesa! Sabe aquele mousse de chocolate que você fez no meu aniversário? Então. Por favor, faz um daquele pra hoje à noite.

— Janaína, eu...

— Olha, eu falei muito bem de você pra minha chefe. Ela tá doida pra conhecer seus dotes culinários. E a Marcela também ajudou. Te colocou lá em cima. Não me decepciona. Tá, gostoso? Pera que tão me chamando. Depois te ligo.

Paulo deixou os ombros caírem.

— PUTA QUE PARIU!

Foi para a cozinha separar as coisas. Deixava o frango marinar em ervas finas para ficar um gosto melhor. Era o seu toque especial na lasanha. Gostava de cozinhar. E na verdade, agora que caiu em si, gostava de cozinhar para Janaína. Um sorriso voltou a florar-lhe nos lábios. "O que foi, bebê?" Seria assim que ela o trataria, os dois já com os aparentes cabelos brancos surgindo na cabeça, quando o via cabisbaixo. Pegava sua cabeça e colocava entre seus seios, como uma mãe. Paulo lacrimejou, mas não soube se era pela lembrança ou pela cebola que estava cortando. 

A noite chegou. A mesa estava pronta. As mulheres chegaram. A chefe de Janaína se deliciou e as amigas a acompanharam. Conversaram muito, riram com algumas histórias de Paulo e, quando viram que a conversa estava tão boa, acompanhada do mousse, que Paulo teve que escrever a receita para as três, decidiram ir embora, sob os protestos de Janaína.

— Eu adoraria continuar, seu marido tem uma mão pra a cozinha muito boa. Um dia desses peço ele emprestado pra fazer um almoço lá em casa...hahaha

— É, Janaína, você é uma mulher de sorte.

Se despediram. Janaína fechou a porta atrás de si, correu para Paulo e lhe deu um beijo demorado na boca.

— Desculpe se não saiu como você quis. Aconteceram algumas coisas e...

— Tá brincando? Foi a melhor lasanha que você já fez! E eu consegui minha promoção! Lembra quando ela me chamou na cozinha rapidinho? Foi pra isso.

Se abraçaram.

— Agora...  — Janaína foi até o sofá e tirou algo de dentro da sua bolsa. — Como eu prometi... — uma algema brilhou na mão esquerda dela e uma calcinha de renda preta era agitada na sua mão direita. — Você vai me mostrar quem é o homem dessa casa... — e correu para o quarto.

Paulo ficou em pé, com um sorriso de orelha a orelha. Do quarto Janaína falou:

— Nego, o que é esse envelope aqui na cama?

3 comentários:

Gustavo do Carmo disse...

Conto ao estilo Rodrigo Ramazini ou Celamar Maione. (rs) Mas você poderia inverter a formação deles para refletir o que acontece muito de verdade: o Paulo, com faculdade e pós-graduação em comunicação, trabalhando muito e ganhando pouco, e a Janaína, só com ensino médio, sendo gerente de comércio.

Hemerson Miranda disse...

hahahaha Sim, Gustavo, pensei nisso. Mas foi exatamente por isso que mudei. =)

Leandro Gonçalves do Rosário disse...

Excelente seu texto, como sempre. Acho que foi boa escolha completar o fracasso dele com uma baixa escolaridade.

Arquivo do blog