terça-feira, 2 de julho de 2013

Inceptum

Por @hemersomn



Ele continuava diante do computador, tamborilando os dedos no teclado, tentando forçar a inspiração a chegar. Passou a mão entre os cabelos com um longo suspiro e olhou para o editor de texto ainda em branco. Precisava entregar um texto pronto no dia seguinte e a maldita inspiração se escondera dele. Precisava de algo que causasse impacto. Algo que impressionasse, que merecesse bis. Morte. Morte sempre chamava atenção. Muitas mortes. A morte de uma família. Sim, uma família feliz. Ali estava a inspiração voltando. Ele sabia que havia uma ponta de crueldade nisso. Mas era seu trabalho. Imaginar e escrever era o que lhe davam o pão de cada dia.

E ele queria escrever sobre um personagem que também era escritor e que gostaria de escrever algo que realmente fosse fascinante. Algo de sua própria experiência, mas que fosse realmente interessante de ser lido. Era um escritor escrevendo sobre outro escritor.

Ele já escrevera sobre muitas mortes. Sim, várias. E até fizeram sucesso. Mais que muitos outros textos seus, ele sabia. Mas nunca ficava satisfeito com elas. Faltava algo. Talvez algo mais realista. Algo como o gosto de sangue na boca, um ralar na pele, uma lâmina fria na carne. Ele não sabia exatamente. Então teve uma ideia. Encarnaria o personagem o máximo que pudesse. Assim, extrairia de uma experiência esse algo real para colocar no papel. Sim, faria isso. Aquilo que para alguns poderia parecer um absurdo, para ele se mostrou uma ideia genial.

Sorriu antes de se levantar da cadeira. Não acreditou no que estava prestes a fazer. Foi até a garagem e pegou um pequeno machado, afiado, com cabo de madeira. Colocou-o dentro de uma mochila e saiu para a rua.

Estava perto do crepúsculo e ele dirigiu-se até uma praça, onde sentou em um dos bancos. Olhou à sua volta e não demorou a encontrar seus protagonistas. Sobre a grama, sentados numa toalha, juntos de uma cesta de piquenique, estava um casal e seus dois filhos. Ele os observou atentamente enquanto tomavam sorvete. O homem era baixo, cabelos curtos com entradas que já lhe adiantavam a precoce calvície. Barrigudo, meio abobalhado, parecia receber ordens da esposa sempre. Ela, mais alta que ele, cabelos castanhos, olhos verdes, vestido florido e um ar meigo, mas de olhar intimidador quando encarava o marido. Seus filhos, menino e menina, herdaram a beleza da mãe, cheios de saúde e curiosos. Se lambuzavam com o sorvete e riam gostosamente. Tinha uns nove anos, o menino, com chapéu panamá; e uns sete, a menina, vestida de jardineira. Pareciam uma família feliz.

Ele esperou que se aprontassem para irem pra casa e os seguiu. A cada momento, desde que escolhera o casal, ele imaginava seu personagem e ditava seus passos em sua cabeça. Detalhou as características da família, a caminhada da praça até a casa e a sensação que tinha ao andar com um machado na mochila. Ele encarnou de tal forma seu próprio personagem que, cada passo que dava agora, era uma linha escrita em seu texto.

O sol já se escondia no horizonte. Dava para ouvir, em frente à casa, o barulho das crianças ainda brincando. Ele avançou e tocou a campainha. A mulher atendeu. Ele empurrou a porta, desfigurando o sorriso no rosto da mulher e a agarrou, com o machado ameaçando sua garganta. O grito dela fez com que o marido viesse junto com os filhos. O marido arregalou os olhos horrorizado e não conseguiu se mexer ou soltar algum som. As crianças se esconderam atrás dele, que mais parecia uma estátua. Ele balbuciou algo que foi entendido como um pedido para que deixasse sua mulher em paz. Bolhas de suor brotavam de sua testa. A mulher chorava olhando para seus filhos.

Ele sentiu a emoção. Isso! Era isso que ele queria sentir! A adrenalina, o medo, o pavor nos rostos das pessoas. O choro da mulher e das crianças impregnara-se em seus olhos e ouvidos. Tecia cada palavra em sua mente para depois colocar no papel. Era essa realidade que ele desejava. Enquanto segurava a mulher e olhava para o marido, cujas pernas estavam tremendo, ele pensou como essa cena poderia ser perfeita. Não ouviu os pedidos do homem à sua frente para que soltasse a mulher e ele daria tudo o que quisesse, que podia pegar todo o dinheiro que tinham, contanto que os deixassem em paz.

- Cala a boca, porra!

Ele gritou, pois as palavras chorosas do homem estavam atrapalhando seus pensamentos, sua linha de raciocínio. Estavam atrapalhando o caminhar de seu texto. Pensou em matar primeiro os pais. Assim as crianças cresceriam traumatizadas, com uma cicatriz em suas almas que o tempo não poderia curar. Sim, isso era genial. Eu poderia matar lentamente os pais na frente deles e assim causar-lhes uma dor profunda. Seria perfeito. Seria.

Mas pensou melhor e a dor mais lancinante, o que mais chamaria a atenção, o que faria os leitores se emocionarem, seja revolta ou o que for, era que os pais vissem seus filhos morrerem. Isso! Essa seria a cena perfeita! Matando os filhos, a dor dessas duas pessoas adultas que os criaram com tanto carinho, seria superior a qualquer outra dor. Eu os ouviria desesperadamente pedirem que os matasse no lugar dos filhos. Sim. Eles iriam preferir morrer no lugar deles. Esse seria o ápice da cena. Sua apoteose. Nesse momento eu seria deus.

Jogou a mulher no chão, de joelhos, ainda com o machado em seu pescoço. O marido protegia a crianças enquanto olhava suplicante de sua mulher para o homem à sua frente que trazia desgraça à sua família.

- Mande as crianças pra cá.

Ambos, pai e mãe, negaram com a cabeça. Ele aproximou mais o machado ao pescoço dela. O marido engoliu em seco.

- Não largue eles, Jorge, não largue eles!

A mulher chorava desesperadamente. O marido agarrara-se aos filhos sem tirar os olhos da esposa. Via-se nos pequenos corpos das crianças, o tremer de medo.

Ele encarou o marido e um pensamento o iluminou. Sorriu sadicamente. Ele via agora o início de sua exaltação. Olhou fixamente para o marido e desferiu o golpe de machado na mulher até abrir sua garganta. E depois que seu corpo caiu no chão, ele desferiu mais um golpe em sua cabeça e mais sangue espirrou, dessa vez, no rosto do marido. O marido, estava agora de boca aberta com a cena à sua frente, em choque. Choque esse que não o deixou perceber quando seus filhos foram arrancados de seus braços.

Ele viu o corpo de sua esposa estirado no chão e o debater dos membros das crianças chorando e pedindo socorro ao pai. Mas ele não conseguiu se mover. Parecia que mãos estavam segurando seu rosto para que não desviasse os olhos da cena que corria adiante.

Mais sangue foi jorrado e os pequenos corpos jazeram no chão, junto da mãe, num encontro macabro. A sala girou ao redor do marido que só conseguia ouvir a risada satânica do homem com o machado. Ele destruiu minha família. E eu não pude fazer nada além de ver. Não consegui sair do lugar. Não pude proteger minha mulher e filhos. O que eu sou?

Ele olhava para o marido curioso. O homem parecia em transe. Talvez tudo aquilo o tenha deixado em estado de choque. Era isso que eu queria captar. A dor, o sofrimento, o desespero calado daquele homem que agora perdera tudo que era de mais importante na sua vida. Olhou para as próprias mãos ensanguentadas e para o machado com pedaços de cérebro na lâmina. Em sua mente dançavam as palavras exatas da emoção que sentiu ao matar cruelmente aquelas três pessoas. A cor, o líquido espesso, o cheiro do sangue. Tudo seria descrito perfeitamente, para levar o leitor à cena do crime mesmo. O coração acelerado pelos olhares angustiados daquelas pessoas. Cada mínimo detalhe estava sendo guardado.

Mirando o marido, ele refletiu se seria um bom final deixá-lo vivo para passar o resto de sua vida com esse tormento em seus pensamentos. Mas ao segurar o machado novamente, ele sentiu o poder. O mesmo poder que sentiu ao matar as três pessoas estiradas agora no chão, sem vida. 

Sentiu em suas veias uma emoção grande percorrê-las. Ele tinha o controle. O homem diante dele se ajoelhava como se prestasse reverencia, como se tivesse dado sua mulher e filhos a ele como uma oferenda. Um arrepio perpassou-lhe a espinha. Não era medo, não era nada além de gosto, tesão, emoção imensurável por causa do poder que tinha nas mãos, e em um só golpe, tirou a vida daquele homem, cujo corpo uniu-se ao resto de sua feliz família.

Olhou para a tela do computador e viu as letras ali, contando a história que imaginara. Foi relendo cada parágrafo para ver se tinha ficado tudo perfeito para um leitor exigente. Conferiu se chamaria atenção, se lhe renderiam elogios, se saíra finalmente da forma como ele esperava. Corrigiu algumas palavras, substituiu outras que davam uma melhor sonoridade à leitura.Então suspirou e recostou-se na cadeira, aliviado. Era a primeira vez que ficava satisfeito de verdade com um texto seu sobre morte. Vira que conseguira captar as emoções, tanto que as palavras pareciam palpitar na tela. Tão real que...

Colocou a mão no queixo e sentiu algo frio na pele. Olhou para a mão e viu o viscoso liquido vermelho. Olhou para a outra e estava também ensanguentada. Do lado do teclado, repousava um machado pequeno, com cabo de madeira e manchas de sangue por toda a sua superfície. Virou e atrás de si estavam quatro cadáveres, jogados no chão de seu quarto, inertes, sem vida.

Meu medo...meu medo é tirar os olhos dessa tela...meu medo é olhar para as minhas mãos e depois para trás de mim e ver...

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