terça-feira, 16 de julho de 2013

anima mea

por @hemersomn



Marília sentiu a lâmina fria encostar no seu pescoço e um arrepio subiu-lhe pelo corpo desde o dedão do pé até a ponta mais dupla do seu cabelo. Uma respiração forte e adocicada batia na sua orelha, vinda de quem pertencia a mão que segurava a faca contra sua pele. Estavam diante de um espelho e ela pôde ver aqueles olhos grandes, insanos, lhe encarando por trás, com um sorriso macabro. Os olhos amendoados percorriam seu corpo enquanto ofegava. Marília engoliu em seco e encarou-a com os lábios trêmulos.

- Por que razão você tá fazendo isso?

A mulher nas suas costas criou rugas na testa. Abriu um sorriso maior e ficou em silêncio.

- Que mal eu fiz pra você? - questionou Marília.

- Que mal você me fez? Que mal você me fez? Você é o mal na minha vida.

- Mas o que eu fiz?

- Tecnicamente, você nasceu.

- Isso é algum tipo de brincadeira?

- Parece brincadeira pra você?


Marília ainda olhava para a mulher que esboçava um sorriso sádico no rosto. Percebeu suas semelhanças no espelho. Ambas tinham a pele negra, cabelo cacheado e olhos cor de amêndoa bem vivos. Ela havia passado um braço pela sua cintura e o outro encostava no seu busto, segurando a faca de cozinha afiada, que reluzia no espelho por causa da luz incidindo nele. Marília, atordoada com a situação, não conseguia lembrar como chegara àquilo. Sentia como se tivesse acordado e a primeira coisa que sentiu foi a gélida lâmina na pele. Seu busto arfava sob a blusa sem alça e ela viu pelo espelho uma gota de suor escorrer de seu pescoço até desaparecer entre seus seios.

- Mas o que foi que te fiz?

- Você estragou minha vida. Desde o dia que te conheci. Tudo o que eu perdi foi culpa sua.

- Mas do que você tá falando?

- Não se faça de idiota. Todas as oportunidades que eu tive você me fez perder. Seus conselhos nunca me valeram de nada. Só me fizeram sofrer.

- Você não tá me confundindo com outra pessoa?

A mulher apertou a cintura e encostou mais a faca no pescoço de Marília. A ira se expressou no rosto da mulher e sua respiração ficou mais rápida.

- Pare de bancar a imbecil comigo! Eu quero me libertar de você e isso vai acontecer hoje.

- Mas...

- Lembra quando tivemos a oportunidade de viajar pra aquela pousada em Campina Grande e você ficou colocando areia e terminamos desistindo? Eu poderia ter tido várias oportunidades na época, mas não. Eu sempre tenho que ouvir você. Sempre tenho que aceitar tudo o que você diz, porque você sempre tá certa.

Ela desejou que tudo aquilo fosse um sonho. Mas não era. Flashs de memórias surgiram diante de Marília. Ela via, meio nublado, esse tempo em que discutiam sobre ir para uma pousada. O estranho é que a lembrança parecia tão distante, tão distinta, tão longe de sua realidade. A principio não lembrava daquela mulher, mas ela, de alguma forma, parecia ter uma forte ligação com sua vida. Então buscou mais memórias. Vasculhou sua mente em busca de mais momentos onde ela aparecia e teve dificuldades de encontrá-la, achando apenas fragmentos enevoados de sua voz ou rosto. Analisou pelo espelho a mulher e viu a notável semelhança que as duas tinham, ainda que não fizesse ideia de quem fosse. Ela viu-se em um redemoinho de pensamentos aleatórios, como se até então não lembrasse de nada da sua vida. 

- Qual o seu nome? - Marília perguntou inocentemente. Diante dessa pergunta a mulher se irritou sobremaneira e, retirando a mão da cintura de Marília, segurou forte nos cabelos dela e colocou a ponta da faca mais próxima do pescoço. Um fio de sangue escorreu.

- Pare de brincar comigo! - a mulher falou sacudindo violentamente a cabeça de Marília. 

Marília começou a chorar. Esforçou-se mais uma vez para lembrar-se da mulher que atormentava-lhe, mas não conseguia. Na verdade não conseguia lembrar de nada. Nem da casa onde estava, sequer do quarto que parecia ser seu, com ursos de pelúcia na cama, uma penteadeira repleta de maquiagem, perfume e livros. Não conseguia nem lembrar da roupa que estava usando. Uma blusa sem alça, branca e uma calça jeans com desenhos nas coxas. Tudo parecia-lhe estranho. Até mesmo quando a mulher falou o seu nome (Marília) ela sentiu-se alheia àquela nomeação. Sentiu vontade de vomitar.

A mulher colocou o braço de volta na cintura de Marília e começou a contar outras histórias como a da pousada. Momentos em que Marília tomara as decisões. Oportunidades que ela perdera por Marília sempre estar à frente nas resoluções. E Marília foi lembrando de cada detalhe conforme ia ouvindo. Não parecia ser sua história. Não parecia ser sua vida. Mas ela lembrava, mesmo que no momento estivesse alheia a tudo, ela sentia certa nostalgia pelas lembranças que surgiam em sua mente. Uma névoa encobria tudo, mas estava lá, no fundo de sua memória, tão vívida e tão distante.

Namoros que perdera, oportunidades de emprego, bem como oportunidades de ficar calada. Enquanto a mulher falava Marília via que reprimia muita coisa. Que não se soltava e acabava levando a outra mulher com ela, através de uma persuasão incomparável. Marília olhou para si no espelho e contemplou um monstro, de acordo com a descrição da mulher. Seu rosto estava molhado de lágrimas e seus lábios continuavam tremendo. Agora, além da lâmina, o fio de sangue frio lhe arrepiava também a pele. Sua pernas estavam cansadas e seu coração parecia querer subir pela garganta. Ela tentou respirar fundo, mas o choro a fez engasgar e tossir.

A mulher segurou-a mais forte. 

- Dessa vez eu vou tomar a minha decisão e você não poderá me impedir. Você me dominou por muito tempo. Agora eu vou receber minha carta de alforria.

Marília forçou a mente mais uma vez para lembrar daquela mulher com mais detalhes. Não fazia ideia de qual era seu nome, nem seu grau de relacionamento. Seria sua irmã? Isso explicaria a semelhança. Seria uma amiga? Na verdade, alguma amiga chegaria a esse ponto? Poderia ser sua namorada? Nada em suas lembranças indicavam uma dessas três possibilidades. Na verdade, o que lembrava constantemente era de discussões, gritos, choro.

- Você sempre faz só o que você quer. E todos ao seu redor estão errados. As nossas conversas tem sempre que girar em torno do assunto de seu desejo. E se eu falo algo, sempre tô errada. Tudo o que eu faço não presta. Eu tô cansada de você. 

Tendo fechado os olhos, Marília esperou o pior. Então ela pareceu cair num abismo profundo e silencioso.

Outra voz, que não a da mulher, penetrou em seus ouvidos. Era uma voz de homem, que vinha distante e aumentava gradativamente o tom. Marília então abriu os olhos e olhou para a direção de onde vinha a voz. A porta do quarto abriu-se com violência e detrás dela surgiu um homem barbudo, de olhos verdes, encarando-a com surpresa. 

- Marília, não, por favor...

Um choque de realidade atingiu Marília como um espasmo. Súbito, sua mente clareou. O homem suado à sua frente era seu marido. Ele estendia sua mão em forma de súplica. Marília ainda chorava, mas não entendia o que estava fazendo ali. Olhou então para o espelho e viu a si mesma segurando uma faca de cozinha e roçando-a no pescoço. Dois fios de sangue escorriam até seu busto, manchando a blusa branca. Ela soltou a faca e caiu de joelhos no chão. O marido correu ao seu encontro, chutou a faca para longe e abraçou-a. 

Ela também abraçou o marido fortemente. Ele acariciava seus cabelos, dizendo que estava com ela e que tudo iria ficar bem. Permaneceram os dois ali, no chão, refletidos no grande espelho, ela com o queixo apoiado no ombro dele. O rosto de Marília ainda estava banhado pelas lágrimas. Ela olhou para si mesma, o rosto desfigurado pelo desespero. Sentia o aconchego de seu amado. Sentia a realidade lhe deixando tonta. E de repente, de forma natural, ela começou a sorrir sadicamente, desferindo no marido um golpe com a tesoura de ponta fina que pegara da penteadeira e escondera dentro da calça. o sangue escorreu nas costas do homem. Ela olhou para o espelho e colocou o dedo indicador entre os lábios, num pedido de silêncio para seu reflexo.

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