quinta-feira, 27 de junho de 2013

Ourivesaria Arcaica em Portugal

João Paulo Mesquita Simões

O numeroso conjunto de peças de
ourivesaria proto-histórica procedente do


território português, e que se encontra,
maioritariamente, exposto no Museu Nacional
de Arqueologia, mas com significativa
representatividade também noutros museus
do país, constitui uma das manifestações
mais preciosas do nosso passado.



Os objetos de ourivesaria antiga autorizam a
investigação arqueológica a tomar os produtos
dos ourives como um indicador do estatuto
dos possuidores dessas joias. Entre outros
fatores, essa diferenciação social acontece pela
exibição de bens e materiais de acesso crítico,
particularmente custosos de obter.

Os artefactos de ouro foram, desde o
III milénio a. C., parte de um conjunto de bens
que alcançam a natureza de insígnias de poder e
que dão brilho ao estatuto social. Encontradas
na esmagadora maioria em circunstâncias
indeterminadas, as peças de ourivesaria do
II milénio a. C. ganham paulatinamente maior
dimensão e peso. A sua decoração demonstra as
crescentes aptidões técnicas dos ourives, como
se vê no excecional bracelete de Cantonha.

Em todas as sociedades da Pré- e Proto-História
europeia, o intercâmbio de bens de prestígio foi
importante, e as joias foram-no especialmente:
os poemas homéricos falam-nos do comércio,
da imposição de tributos a esse comércio em
pontos estratégicos de passagem (o que faz a
fortuna de Príamo de Troia), da guerra, do saque
e do confisco (que ditam a sua destruição) e do
dom, a oferta generosa a alguém julgado digno
(como os presentes do rei dos Feaces a Ulisses,
que determinam a sua fortuna final).

Não sabemos qual a extensão e qualidade ou
o processo pelo qual os ourives peninsulares
conheceram, compreenderam e imitaram as
peças de ourivesaria oriental (ou orientalizante,
no sentido de terem sido produzidas no Ocidente
por oficinas diretamente formadas no Oriente
ou com artífices orientais, como as arrecadas
de Odemira), mas toda a evidência mostra que
esses artífices peninsulares, herdeiros dos velhos
mestres do Bronze Final, aprenderam desde
muito cedo a utilizar o metal de formas novas.
Não devemos esquecer o fenómeno de adesão
à novidade que, correntemente, se designa de
«moda». É este fenómeno, adicionado à mestria
imemorial de uma atividade de transmissão
familiar, tradicionalmente muito fechada, que
explica o aparecimento de classes de objetos
sempre diferentes e de objetos verdadeiramente
únicos, como a obra-prima que é o torques de
Vilas Boas.

Mais tarde, as conquistas de Alexandre trouxeram
para a esfera do Mediterrâneo enormes saques
de metais preciosos que modificaram a natureza
das relações que as sociedades estabeleciam com
a riqueza e, naturalmente, modificaram também
o valor relativo dos metais preciosos.

Na sua esteira, os romanos reservaram
principalmente a expressão da sua riqueza para
o ambiente doméstico e para a convivialidade
que nele tem lugar: o banquete. Isto é visível na
arquitetura doméstica, pelo papel predominante
dado, nas residências aristocráticas, às salas onde
as grandes refeições decorriam e, em alguns
conjuntos muito interessantes conhecidos por
todo o império, à baixela, designadamente de
prata, que servia nesses banquetes, como terá
sido o caso da phiale de Lameira Larga.

Com o fim do Império, entra-se numa época
em que escasseiam realmente os achados de
ourivesaria, que todavia continuou a produzir
obras de qualidade, como as fíbulas de tipo
visigodo de Beja. Mas «o brilho do poder» passa
a manifestar-se de outras formas: a Igreja vai
concentrar no seu património a maior parte do
metal precioso disponível e utilizá-lo em objetos
de uso litúrgico.



In: Pagela dos CTT.

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