terça-feira, 18 de junho de 2013

Ocaso

Por @hemersomn



Crepúsculo, os raios dourados se lançavam sobre o chão de areia, sobre os pedaços de grama ressecada, cor de cobre, mastigada e fustigada pelas pisadas das pessoas suadas por causa do sol que agora começa a se esconder por detrás de nuvens rosadas e douradas, mas que ainda lançava seus raios tímidos sobre o chão de areia, a grama fustigada, o corpo. Sim, o corpo, ensanguentado, estirado no chão de areia perto das pequenas partes de grama onde os poucos raios de sol do crepúsculo se jogam, iluminando aquele corpo sem vida, com um rombo na cabeça, o sangue escorrendo pelo rombo, molhando o chão, a grama e fazendo uma nova cor com o dourado do raio de sol crepuscular. O próprio corpo banhado pelo louro solar recebia uma aura sacrossanta, de onde escorria o vermelho do sangue, do rombo, no rosto, nos lábios da mulher.

A mulher, jogada no chão com o rombo na cabeça de onde jorrava o sangue que maquiava seu rosto, peitos grandes, melados de vermelho, quase saindo do sutiã, cabelo louro como o louro do sol crepuscular e pele bem branca, tão branca quanto as nuvens que se avolumavam no céu. Os olhos da mulher, esbugalhados, olhando o nada, o horizonte, o nada daquela cidade que já era um nada, olhando para longe, para nada, o próprio nada olhando pro nada num espelho eterno e sem vida. Contraditório. O oratório.

Sim, o oratório. Tava na mão de um moleque branco, mas sujo, cabelo ensebado, dentes amarelos, raquítico, com lágrimas nos olhos. Parecia com a mulher estirada no chão, com o rombo na cabeça, o sangue jorrando do rombo, aquela cena louca, aquela visão macabra e celestial ao mesmo tempo, quando os raios do sol do crepúsculo banhavam o corpo sem vida. Não parecia ter vida no corpo do menino também. Os olhos dele pareciam os da mulher estirada no chão, com o rombo na cabeça. Ele olhava para o corpo sem piscar, abraçando o oratório, de joelhos, do lado do corpo, olhando ele sem piscar e as bochechas sujas sendo limpas pelas lágrimas.

Eram só os dois naquele chão de terra com os parcos pedaços de grama onde repousavam os últimos raios de sol do dia dando uma nova cor pra o sangue que escorria do rombo da cabeça da mulher sendo observada pelo menino branco, sujo, sem camisa e com uma bermuda branca suja de lama que segurava o oratório nos braços e chorava sem piscar o olho. Nem barulho fazia naquele lugar sem vida, aquele nada que envolvia os dois corpos banhados pelo crepúsculo. Aquela cena que parecia pintada a óleo. Mas que era apenas pintada pelos mórbidos e últimos raios do sol.

Aí o menino olhou para o rombo na cabeça da mulher, o sangue jorrando, uma aranha se aproximando perto do corpo, do rombo, do sangue escorrendo do rombo de onde até saíram uns pedaços do cérebro, aquele amarelo envelhecido, os miolos, cobertos de sangue parecendo nhoque com molho de tomate. E a aranha se aproximando e o menino olhando a cena, com o oratório nos braços, as costas lambidas pelos últimos raios do sol, as bochechas com o sujo derretido pelas lágrimas, os olhos vidrados na cena sem piscar. Aí ele bateu com força com a palma da mão na aranha. Poeira subiu, aranha morreu e ele levantou a mão melada de um líquido pegajoso e amarelo e pensou que era pedaço de cérebro saindo do rombo da cabeça da mulher estirada no chão, cujo corpo já não parecia rodeado de uma aura celestial, pois o sol já morria no horizonte e a luz do poste perto deles ainda não acendera e talvez nem acendesse, pois talvez estivesse queimada.

Então essa cena da mulher loira estirada no chão com o rombo na cabeça e o sangue escorrendo pelo rombo, molhando o chão de areia seco e as parcas porções de grama mastigada e seca onde também estava ajoelhado o menino loiro, sujo, abraçado no oratório chorando, sem piscar os olhos e com a mão melada de pedaços cadavéricos de uma aranha, essa cena, que se cobria agora com o manto da noite, lúgubre, nefasto, aquela coisa louca, cinza-escuro, vermelho escuro, aquele cheiro desagradável já se erguendo como um sacrifício aromático a algum deus que se fizera de cego àquilo tudo, àquela coisa louca.

E ninguém estava ali pra ver aquilo, só o menino loiro sujo abraçado com o oratório e chorando sem piscar, com a mão agora tendo se tornado túmulo de uma aranha que passava por ali. Só ele de testemunha naquele lugar silencioso e que agora estava virando breu. Mas aí veio uma luz do lado esquerdo, da rua estreita, do lado contrário do ocaso, da morte do sol, uma luz dançando, na mão de uma velha com passos lentos, se aproximando com a mão na boca, olhando o corpo, o menino, a aranha esmagada no chão, o rombo na cabeça, o oratório, o menino, a mulher com olhos esbugalhados, o sangue.

A velha parou perto dos dois e lançou a luz da vela pro menino loiro sujo, abraçado no oratório. Viu na parte superior do oratório a cruz prateada melada de sangue, o sangue da mulher, o sangue que jorrava do rombo, o rombo causado pela cruz, a cruz do oratório que o menino se abraçava, o sangue, pedaços de cérebro na cruz e o menino chorando sem piscar, olhando pra a velha. A velha com a mão na boca e a mão que segurava a vela tremendo, olhando o rombo, a cruz no oratório, o menino.

E a única frase que quebrou aquele longo silêncio e que ecoou pela rua de areia que não mais estava banhada pelos raios crepusculares, que ecoou no corpo do menino, fazendo ele se tremer todo, a voz lenta, chorosa, da velha segurando a vela e olhando pro menino, a voz que quebrou o silêncio , ecoou e morreu naquele nada, o nada que caminhou na rua de areia, banhou os dois corpos, sentenciou a aranha, e cobriu tudo de escuro.

- O que você fez com sua mãe?

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