segunda-feira, 17 de junho de 2013

O PRESIDENTE DA MULTINACIONAL

Por Gustavo do Carmo



A notícia caiu como uma bomba na Multiflex. O recém-empossado presidente da multinacional de tecnologia de informação renunciou ao cargo para cuidar da mãe.

Os vice-presidentes e gerentes não acreditaram. As belas secretárias e os tímidos estagiários até louvaram a nobre decisão do demissionário dirigente. Só não entenderam o que levou um executivo, que havia acabado de ser nomeado presidente, a abandonar a profissão para virar enfermeiro da mãe.


Douglas chegou aonde chegou graças a muito esforço e dedicação. Formado em informática, começou a trabalhar ainda adolescente como vendedor de uma loja de roupas esportivas. Começou a estagiar no laboratório da faculdade. Depois ingressou na Multiflex como auxiliar de escritório. Ia ao banco e servia cafezinho para os diretores e clientes esnobes.

Logo passou exercer a função dentro da sua formação. Daí foi subindo: assistente de tecnologia, chefe de setor júnior, gerente de setor regional, gerente de setor nacional, vice-diretor nacional, diretor, vice-presidente nacional e finalmente a presidência.

Duas semanas depois da posse a sede mundial na Califórnia recebeu uma carta de renúncia e demissão. Já esperava ser de algum executivo sessentão, com quarenta anos de casa, solicitando aposentadoria. Ou renunciando depois de um escândalo público. Repetiram a mesma surpresa de toda equipe da filial brasileira quando notaram que a carta vinha do seu mais jovem e talentoso executivo.

Na carta Douglas anunciava claramente que estava deixando a empresa, mesmo pondo em risco uma carreira promissora, para cuidar da mãe doente. Enviaram até um representante para tentar demovê-lo da idéia. Ofereceram os melhores tratamentos psicológicos para Dona Clotilde, com médicos e enfermeiros vinte e quatro horas por dia. Tudo para que Douglas continuasse na corporação. O jovem presidente ficou profundamente comovido e agradecido pela consideração e a preocupação. Mesmo com todos esses benefícios recusou. Para ele, nada disso substitui o carinho de um filho. 

O também recém-nomeado vice-presidente Jackson, um coroa amigo de Dona Clotilde e depois de Douglas, foi mais um que tentou convencer o rapaz a não abdicar do cargo máximo.

— Deixa de loucura, rapaz! A sua mãe não está tão mal assim. Você recebe muito bem. Pode pagar ótimos enfermeiros para ela.  

— Os enfermeiros não cuidam tão bem como um filho. E ainda assim tenho medo desses enfermeiros agressivos.

— Não tem perigo nenhum. Deixa de paranóia. E eu conheço a sua mãe. Ela é muito dengosa. Vai acabar com a sua carreira só por causa de um capricho dela? E se, Deus me perdoe, ela morrer? Já vai ter gente no seu lugar. Vai ser difícil reconquistar o seu posto de novo com a idade que você tem.

— Não me importo. Pela minha mãe eu faço tudo.

E não teve jeito. O recém-empossado novo presidente mundial da Multiflex, Douglas Miranda, que ia comandar as setenta filiais da empresa no planeta, deixou a empresa para cuidar da mãe, Dona Clotilde.

Dona Clotilde era uma senhora bondosa e religiosa. Mimou bastante Douglas, que era o filho único. Mãe solteira e tardia, criou-o com muito carinho e dedicação. Advogada, renunciou a uma bem-sucedida carreira de promotora para cuidar de Douglas quando ele tinha seis anos. Tomou a decisão depois de sofrer algumas ameaças de morte e de seqüestro. Tinha acabado de ser nomeada para a promotoria quando pediu aposentadoria. Começou a costurar para fora para manter a boa renda da família – que se resumia a ela e o filho - e passar o tempo.

Quando Douglas cresceu, Dona Clotilde abriu uma loja de aviamentos para matar a solidão, pois o filho já trabalhava na loja de roupas e começava a construir sua carreira profissional. Estudava de manhã e trabalhava o resto do dia. Não tinha tempo para dar atenção à mãe. Douglas foi mimado, mas nunca se deixou mimar.

Com a renda da loja de aviamentos, da costura e da aposentadoria da justiça tinha um bom padrão de vida e não precisava do alto salário do filho. Mas ainda se sentia sozinha com a prioridade que o filho dava ao trabalho. Começou a procurar novas amigas e até um namorado na internet. Conheceu algumas e alguns, mas logo enjoou e ficou solitária.

Um mês antes de Douglas ser nomeado presidente da Multiflex, Dona Clotilde sofreu uma queda e fraturou a bacia. Mesmo precisando dar assistência à mãe, Douglas não precisou faltar nenhum dia de trabalho. Estava de férias. Quando terminaram, Douglas foi nomeado presidente mundial da empresa. Ia ser transferido para os Estados Unidos.

Mesmo depois de curada da fratura, Dona Clotilde caiu numa depressão profunda. Não queria comer e se recusava a levantar da cama. Nem mesmo para fazer as necessidades fisiológicas. Quando o filho lhe contou que fora nomeado presidente da multinacional, usou um olhar tão profundo, triste e carente que Douglas se sentiu culpado por ter priorizado a carreira profissional e deixar a mãe para morar no exterior.  

Com uma voz já fragilizada pela prostração, Dona Clotilde ainda tentou demover o filho da decisão de se desligar da Multiflex para cuidar dela, embora, no fundo, queria exatamente isso. Mas Douglas lembrou que ela fez o mesmo para cuidar dele. Se sentia obrigado a retribuir o gesto da mãe.

E assim ficou explicado porque Douglas pediu demissão do cargo de presidente mundial da Multiflex, deixando de se mudar para a Califórnia.

No fim do primeiro dia como enfermeiro da mãe, após um cansativo expediente de aplicação de remédios, refeições, limpeza e banho, Douglas perguntou:

— Ainda vai precisar de mim por hoje, mãe?

— Não, meu filho. Pode ir dormir. Respondeu Dona Clotilde com uma voz sussurrante.

— Vou mesmo, mãe. Estou morto de cansaço. Boa noite e dorme com Deus.

— Boa noite, meu filho. Desejou a senhora com o mesmo sussurro.

Douglas já roncava quando Dona Clotilde se levantou, pegou o notebook, conectou-se ao chat e teclou:

Clô Fatal disse:
 Oi Jackson, meu amor! Parabéns! Você conseguiu. É o novo presidente da Multiflex. Mas vou ficar com saudades.

Tchutchoco disse:
Obrigado, minha querida! Como o seu filho, que retribuiu o seu abandono da carreira de advogada em prol dele, também vou retribuir o que você fez por mim. Mandarei a sua pensão e uma passagem para você vir me visitar aqui na Califórnia. Estava sonhando com esse cargo há décadas, que ia ser meu. Quase morri quando aquele frangote imaturo passou na minha frente. Sorte minha que ele tem uma mãe como você.

Clô Fatal disse:
Além de querer essa retribuição, eu também não queria meu filho indo morar com aquela Rafaelle. Além de divorciada tem cara de piranha!

Não havia nenhum sinal de depressão nos olhos brilhantes de Dona Clotilde. Apenas um sorriso malicioso em seus lábios secos e enrugados.


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