segunda-feira, 10 de junho de 2013

MEU AMOR É UM VULTO MARROM


Conto de Gustavo do Carmo
       
Quando a beijei pela primeira vez eu estava de olhos fechados. Abri meus olhos e não consegui ver seu rosto. Só um vulto marrom. Pelo menos seu corpo era magro.

Foi assim durante todo o nosso namoro. Nas festas e casamentos em que fomos. Tanto da minha família quanto da dela. No velório da mãe dela eu fiquei o tempo todo ao seu lado. Foi ela quem me consolou quando as minhas tias morreram.

Estranhamente a família dela (que misteriosamente também não consigo lembrar seu nome) também era um vulto marrom. Seu pai me adorava. Mas a mãe só me tratava com educação. Fiz amizade com o irmão, meu cunhado. Seus sobrinhos me arrastavam para brincar com eles.

A minha família era nítida pra ela. Minha mãe ficou encantada com a futura nora. Minha irmã e meu cunhado nada comentaram. Meu pai me deu um parabéns orgulhoso. Como não tenho amigos, ninguém mais deu palpite, mas tive a sensação de ouvir meus primos rirem pelas minhas costas.

Mesmo assim, não consegui ver seu rosto e nem me lembrar do seu nome. Procurei um oftalmologista para tentar identificar o meu problema. E um neurologista para me ajudar a guardar o nome dela, que me sugeriu perguntar seu nome mais uma vez. O médico da vista marcou uma cirurgia.

Perguntei seu nome e ela me respondeu pela quinta vez. Esqueci de novo e ela não ficou chateada. Pelo contrário, me acompanhou até a minha cirurgia. Operei os dois olhos. Fiquei cego por uma semana. E ela estava lá me acompanhando.

Quando tirei o curativo tive um choque. Ela era tão feia, mas tão feia, com rosto queimado de sol e marcado, cabelos desgrenhados, nariz de bruxa, lábios caídos, dentes tortos e queixo pontudo que terminei o noivado (já estava de casamento marcado) sem dó, ali mesmo, no hospital. Fiquei traumatizado.

Me consultei com o neurologista, que me disse que ela e sua família eram tão feios que a minha visão tentou me proteger do choque visual e a minha memória tentou me proteger fazendo com que eu sempre esquecesse o seu nome. Meu nariz também colaborou ao entupir sempre quando a gente se encontrava: ela fedia muito.

Doutor Nero me chamou atenção para que, se eu não tivesse operado os olhos para tentar descobrir seu rosto, eu poderia ter tido um casamento feliz. Eu acredito que não. 

Um comentário:

Anônimo disse...

Achei seu conto na melhor tradição dos contos fantásticos, ou de horror e mistérios.Os sentidos muitas vezes nos enganam e nos protegem da realidade.

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