terça-feira, 7 de maio de 2013

Revelações

 Por @hemersomn



Se tem uma coisa que eu aprendi nesses setenta e cinco anos foi que não importa a idade, distância, ou mesmo a quantidade de mágoa que nos causou. Nosso filho sempre será nosso filhinho. Mesmo que a quantidade de rugas em seu rosto seja proporcional ao seu. Mesmo que os cabelos brancos dele não estejam encobertos por tintura, como os seus. Não importa quantas palavras ele pronunciou e veio até mim como setas pontiagudas que propagaram a mágoa profunda dentro de mim. Não importa.

E das maiores dores dessa vida, creio que essa se sobressaia a todas que eu já tive, está a de ver ou ouvir seu filho chorar, em qualquer idade, e sentir sua impotência ante isso. E eu senti. Eram três horas da manhã quando fui acordado, num pulo, pelo meu telefone tocando. A voz do outro lado, embargada, tropeçando nas palavras, era do meu filho, quarenta e cinco anos, que morava dois bairros próximo ao meu. Das palavras que eu consegui compreender, ele queria conversar comigo, pessoalmente, então perguntou se eu estaria em casa pela manhã. Então ele disse que viria bem cedo para falar comigo sobre algo muito importante e que o estava perturbando. Tentei adiantar o assunto, mas ele insistiu que pessoalmente seria melhor, então o acalmei e coloquei o fone no gancho. Mesmo preocupado, meus ossos cansados me fizeram adormecer rapidamente.

Cinco e meia da manhã eu já estava tomando o café da manhã quando ouvi o bater na porta. Meu coração já sabia que era meu filho. Arrastei-me até a porta e o fiz entrar. Ele me abraçou e beijou minha testa. Senti o odor acre de seu suor na cabeça, resultado da pressa com que viera para conversar. Eu, a quem o tempo não permite mais a regalia da ansiedade, permaneci sereno como sempre, o que talvez o tenha incomodado um pouco, mas que poderia eu fazer? Não tenho mais a pressa da juventude. As coisas parecem mover em câmera lenta para mim.
Servi-lhe uma xícara de café com biscoitos que eu mesmo fiz. Ele tomou um gole com tanta dificuldade que me fez perceber o nó em sua garganta, que ele pretendia ser desfeito com esse diálogo.

- O que houve? - perguntei antes de bebericar o café.

Ele, repousando a xícara na mesa, olhou para mim com os olhos vermelhos, provavelmente devido a noite mal dormida. Vi uma lágrima tímida se formar no canto esquerdo de um dos olhos. O suspiro profundo que saiu de suas narinas me mostrou que era um assunto bastante sério. Engolindo em seco ele soltou num suspiro de desabafo ou algo que parecia isso:

- Ricardo é gay.

Ricardo é seu filho mais velho. Meu filho casara-se aos vinte anos com uma mulher maravilhosa. Tiveram dois filhos devido a essa união. Uma menina de quinze anos e um menino de dezoito. A morte visitou sua esposa quando a menina nasceu, desde então ele fazia o papel de mãe também, dedicando total carinho aos meus netos. Quando ele falou de Ricardo eu senti em sua voz um misto de decepção, terror e angústia. Quase senti como se o suco gástrico subisse à sua garganta em sinal de nojo.

- Ele me contou ontem. Achou que se me contasse logo eu entenderia. Como eu posso entender isso? O que eu fiz de errado? Eu sempre o eduquei da melhor maneira possível. Sempre conversamos sobre tudo. Não entendo o que eu fiz para que ele me desapontar desse jeito. Não entendo, pai. O que eu fiz?

Eu o olhava fixamente. Vi as lágrimas que escorriam-lhe na face como pontadas no meu coração. Suas mãos erguidas em súplica por algo muito terrível que havia feito. 

- Me diga, pai. Onde eu errei? O que eu posso fazer agora? Ele disse que traria o namorado - e nesse momento sua face se desfigurou, demonstrando um asco absoluto. Quase vi sua face verde de tanta repugnância. - para que eu conheça. Não posso aceitar isso...Simplesmente não posso.

Tomei mais um gole de café e perguntei, com a voz calma:

- O que você disse a ele?

- Gritei com ele. Disse que não estava certo. Que me magoava e decepcionava muito fazendo isso. Que jamais aceitaria ter um filho doente desse jeito...

Meneei a cabeça.

- O que eu poderia fazer, pai? Ninguém em nossa família tem esse desvio. Ele vai ser a vergonha de nossa família...- ele pôs as mãos na cabeça, soluçando. - Não acredito que vivi para ver isso acontecer. Não acredito. Teria sido melhor...Não sei... Pelo menos fico tranquilo em saber que Vivian não está aqui para ver isso. Seria a maior decepção da vida dela.

Eu o encarava, mesmo que sua cabeça permanecesse baixa, o rosto molhado apoiado pelas mãos. Suspirei longamente e peguei em sua mão. Ele me devolveu um olhar terno. Sei que ele esperava de mim compreensão. Sei que ele queria o abraço caloroso do pai em concordância com o que ele havia dito e pelo que estava passando. Mas se há outra dor, embora necessária, é essa quando precisamos mostrar a nossos filhos o erro que estão cometendo.

Segurando em sua mão, eu olhei fixamente em seus olhos azuis e falei pausadamente para que ele ouvisse perfeitamente o que eu tinha para dizer:

- Filho, já que o Ricardo teve essa coragem de te contar o que ele sente, farei o mesmo.

Ele estacou. Senti sua mão tremer na minha e seu corpo recuou um pouco.

- Filho, eu também já me apaixonei por um homem.

Ele largou minha mão subitamente. Recuou o corpo ainda mais, olhando-me incrédulo, e esse olhar me fez sentir-me a pessoa mais desprezível do mundo. Ele já tinha me magoado várias vezes, mas meu coração mole o perdoava sempre. Mas nunca suas palavras tiveram o mesmo impacto que aquele olhar encharcado de silêncio. Um silêncio ensurdecedor que atravessou minha carne e fez o sentimento dentro de mim se diluir em lágrimas que eu segurei nos olhos.

- Não, o senhor está brincando comigo. Por favor. Diga que é brincadeira. Não faça isso comigo, pai.

Minha mão ficou no mesmo lugar, abandonada, ainda inerte ante a repulsa de meu próprio filho. Eu não desviei os olhos dos seus. Ele olhava para os cantos, temendo me encarar, como se meu olhar pudesse desnudar sua alma e trazer à tona todo o ódio que agora o possuía.

- Não estou brincando. Você veio aqui para conversar sobre algo sério e é o que estou fazendo. Eu entendo o Ricardo lhe contou e gostaria que você me ouvisse para entender também.

- Não, não, não! Não posso aceitar isso! - ele apoiou as duas mãos na mesa em sinal de que ia levantar-se para sair.

- Você pode ir, não vou te segurar. Mas se você ama o seu filho, me escute, por favor. Escute o que eu tenho a dizer. Depois disso pode fazer o que quiser.

Suas mãos tremiam. Sei que ele ficou por respeito a mim. Mas seria a única chance que eu teria, então fui em frente. Ele coçou a cabeça com tanta força que pensei que veria pedaços de carne sob suas unhas.

- Como foi isso? Antes da mamãe?

- Não. Eu já estava com sua mãe quando me apaixonei.

Mais um acesso de fúria inundou seus olhos. E mais um olhar fulminante me foi lançado.

- Não acredito nisso! - ele falou com a voz alterada, mesmo fitando minha serenidade nas palavras e na postura. - Como o senhor pôde?

- Não temos controle sobre essas coisas, filho.

- Não acredito que o senhor fez isso com a minha mãe!

- Ela sabia.

Nesse momento pensei que ele iria desmaiar de tão branco que ficou o seu rosto. As palavras não saíram de sua boca. Eu ainda o olhava fixamente, inabalável.

- Como ela...

A mão trêmula repousou na boca. Me olhava com desprezo.

- Eu me apaixonei desde a primeira vez que o vi. E como sempre fui leal a sua mãe, eu contei a ela.

- E ela?

- Sua mãe foi a pessoa mais maravilhosa que já apareceu na minha vida. E a mais compreensiva também. Nunca acharei alguém tão paciente e compreensiva. Só a morte pôde tirar ela de mim. Ela aceitou, pois me entendia, ou pelo menos fazia muito esforço para isso.

- O senhor só pode estar brincando comigo...A mamãe jamais aceitaria uma coisa dessas. Não entendo como o senhor pôde trocar uma bocet...

Eu lancei a ele um olhar de reprovação e ergui minha mão. Ele, obedientemente calou-se e abaixou a cabeça.

- Não estamos falando de atração física. Não estamos falando do prazer momentâneo dos corpos. Não estamos discutindo sobre a escolha de alguém para satisfazer nossas necessidades carnais. Estamos falando da escolha de alguém que pretendemos ter até o fim de nossas vidas. De alguém que vai nos fazer feliz e nos magoar nos momentos mais inesperados, mas que desejamos que nunca saia do nosso lado. Eu estou falando da pessoa que nos assoma os sentidos, que descontrola nossa razão e que faz a alma do mais bruto dos homens e da mais orgulhosa mulher se ajoelhar. Estou falando de amor, filho. Isso que sentimos como fogo gélido na carne. Isso que eu sinto ainda hoje pela sua mãe. O mesmo sentimento que você sentiu e sente pela Vivian.

Ele engoliu em seco e todas as palavras que ele usaria para me refutar morreram em sua boca e se arrastaram como animais medrosos para a sua garganta. Fechou os olhos e senti que ele pensava em Vivian, sua mulher, sua companheira. A mulher que perdeu sua vida tão jovem, ao dar vida à terceira mulher mais importante de sua existência. 

Vi meu filho balançar a cabeça negativamente, endurecido pelo ódio, pelo preconceito que lhe cegava diante da verdade simples. Ele não tinha forças para concordar comigo. Seria humilhante demais.

- Não acredito que o senhor fez isso. - o olhar repreensivo voltou a me atravessar a alma. - Não acredito que o senhor pôde fazer isso com a minha mãe. Não posso conceber isso.

- Não deixarei de ser seu pai por isso. Nem o Ricardo de ser seu filho.

As palavras tentaram sair, mas som nenhum foi pronunciado.

- O que aconteceu com "ele" - o desconforto em sua voz me trouxe amargor na língua.

- Ele conheceu uma mulher.

Seus lábios esboçaram um sorriso sarcástico. Torto, irônico, recheado do mais profundo desprezo. Tão doce era o que ele sentia agora que o vi passar a língua pela boca.

- Está vendo? Eu tenho esperança que o Ricardo caia em si e perceba que não é isso que ele quer de verdade. Deve ter sido influenciado por gente da escola. Esses jovens de hoje em dia pensam que sabem o que querem.

- As coisas não são assim, filho.

- Claro que são! Ricardo não entende o que ele sente.

- E você entende?

- Claro, eu sou pai dele. O conheço melhor que ele mesmo.

Eu sorri. E óbvio que isso o deixou desgostoso. Ele se sentiu desconfortável na cadeira. Meu sorriso batera em seu corpo como vento na palha que o faz curvar-se mesmo contra sua vontade.

- Ah, filho...Rezo para que você chegue à minha idade e, com o pensamento amadurecido, perceba que isso de que pais entendem melhor os filhos que eles mesmos é uma ilusão tão tediosa que quando você perceber que está errado, vai sentir vergonha de si mesmo.

- O senhor mesmo já disse isso uma vez para mim.

- Sim, disse. E sinto vergonha disso. Hoje eu entendo meu erro. Nenhum ser humano pode entender outro. Cada pessoa é um inferno próprio. Você não entende o Ricardo. Acha que entende e ninguém no mundo o fará acreditar o contrário. Continue com esse pensamento e sua decepção será colossal.

- A mamãe deve ter ficado feliz quando soube que o senhor foi "largado" por uma mulher. - ele falou, desviando grosseiramente do assunto, já que não tinha o que dizer. Sorriu com o nariz, em tom de deboche.
- Sua mãe sofreu tanto quanto eu.

- Duvido.

- Bem, sua mãe era especialista nela mesma. Se você acha o contrário...Ela mesma disse a mim.

- O que aconteceu depois?

- Ele casou-se e teve dois filhos. Mas eu continuei amando-o. Até hoje.

Mais um sorriso de deboche.

- E ele?

- Ele também me ama. Eu sei. Mesmo distantes, mesmo ele tendo constituído família. Sei o que sentimos um pelo outro. As coisas não acontecem como planejamos. E a vida tem que seguir seu curso, mesmo com as dores advindas de nossas decisões.

- O senhor ainda tem contato com ele?

- Tenho.

- E o senhor... - ele limpou a garganta. - diz que ainda o ama?

- Muito. Daria a minha vida por ele.

Passando a mão nos cabelos grisalhos, suspirando profundamente, olhou para mim com uma visão penetrante.

- Primeiro o Ricardo e agora o senhor. Falta só a Vanessa ter algo para me contar também e a decepção estar completa.

- Decepção, filho? Decepção seria se seu filho não lhe contasse. Se não fosse corajoso o suficiente para te revelar isso. Se não confiasse em você a tal ponto de lhe explicar seus sentimentos, não?

- O senhor não entende.

- Depois de tudo o que eu contei, eu não entendo?

- Qual o nome dele? - perguntou, mais uma vez se desviando de assuntos para os quais não tinha resposta.

Eu sorri. Bebi mais um gole de café e falei:

- Roberto.

- O desgraçado tem até o mesmo nome que eu!

- Ele não apenas tem o mesmo nome que você, filho. Ele é você.

Eu vi o corpo de meu filho desabar sobre a cadeira, os ombros caírem sem forças, a boca entreaberta e os olhos cheios de lágrimas. Todo o seu corpo gritava. Todo o seu ser chorava. Ao ligar todos os pontos, ao entender finalmente de quem eu estava falando, aquele homem diante de mim, meu filho, minha vida, com as mãos enrugadas, o rosto com sinais visíveis de uma velhice se aproximando a cada dia, aquele homem, levantou-se de um salto da cadeira e veio até mim.

Nunca, em toda a minha vida, eu senti um abraço mais forte, mais caloroso que aquele. Eu vi meu único filho com a cabeça posta no meu colo, chorando, soluçando e clamando por desculpas. E ao passar a mão em seus cabelos, ao ver que ele entendera o que eu tinha dito, percebi que iria morrer tranquilo, pois a minha parte como pai nessa terra estava cumprida.

No dia seguinte, na hora do almoço, recebi meu filho, minha neta, meu neto e seu namorado para comerem comigo. Gostaria que minha esposa estivesse ali para ver. Gostaria que as pessoas nesse mundo também estivessem ali para ver. O que eu vi? Vi pessoas. Eu vi amor. Numa época em que nada mais importa, eu vi amor. E depois disso eu não precisava ver mais nada.


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