quarta-feira, 27 de março de 2013

vis-à-vis

TEXTO NÃO RECOMENDADO PARA MENORES (INCLUSO MENTAIS) E/OU MORALISTAS.

Por @hemersomn

- Amanhã à noite eu vou comer a minha mulher.

Eu disse a frase em tom médio, mas, em meio ao burburinho do bar, os quatro colegas de trabalho que bebiam comigo, ouviram claramente. Os rostos se voltaram para mim, enquanto eu bebericava a cerveja. Primeiro foram as bocas entreabertas. Depois os sorrisos tortos, os olhares indagadores e o entreolhar-se confuso. 

- Como é? - perguntou o cara à minha esquerda, olhando para mim como se visse um fantasma.

Era engraçado ver em seus rostos uma expressão de falsidade. Eu sabia o que eles pensavam da minha esposa. Via a forma como a olhavam quando ela ia até o escritório me entregar algum documento. Como lobos famintos por carne fresca. Eu até ouvia algumas vezes os comentários baixos que faziam sobre a bunda dela, sobre a boca. 

Não posso negar a beleza da minha mulher. Morena, alta, seios médios, mas firmes. Bunda arrebitada e pernas bem torneadas. Eu me sentia privilegiado. E sabia que muitos dos que trabalhavam comigo me invejavam. Mas eu nunca comentara nada semelhante com eles. Nos conhecíamos há muito tempo, mas mesmo assim, ao menos na minha frente, eles me respeitavam. Sempre fui calado e reflexivo. Foi uma surpresa para eles.

- Foi o que eu disse. Amanhã à noite eu vou comer a minha mulher e queria convidar vocês para fazer o mesmo.

O cara à minha frente se engasgou. Os outros três, com sorrisos tortos e a mente confusa, olhavam pra mim perplexos. Eu podia ver, em suas mentes pequenas, os neurônios em euforia, escolhendo as palavras, analisando parcamente os detalhes a fim de não estragar nada. Eu ria por dentro. O que coloquei diante deles era muito para seus minúsculos cérebros.

- Deixa eu ver se entendi. - começou o cara à minha esquerda. - Você está nos convidando para comer a sua mulher?

Olhei para ele com uma frase na cabeça. "Parabéns. Você teve capacidade sozinho de entender isso?" Mas eu abstive disso. Confirmei com a cabeça e ele olhou para os outros. Percebi que ele se comunicava com o olhar, pedindo aos outros pra que deixassem apenas ele falar. Qualquer deslize, pensavam eles, e perderiam essa chance única. Sequer passou pela cabeça deles que eu estivesse blefando, tamanha era a vontade que lhes assomou.

- Eu estava pensando em fazer algo novo. Cansei dessa rotina. E pensei em convidar vocês. Algum problema? 

- Não, não! - ele olhava de mim para os outros, mantendo uma seriedade que me fez segurar uma gargalhada na garganta. - Com certeza vamos te ajudar a sair dessa rotina tediosa.

Eu sorri e me levantei. Joguei um maço de notas na mesa, pagando toda a conta para que a alegria nos rostos daqueles miseráveis homens não se dissipasse.

- Então está combinado. Amanhã à noite. Dezoito horas. Na minha casa. Eu cozinharei.

Eles ergueram os copos com os dentes à mostra. Numa outra ocasião eu saberia que era por causa da comida que eu ia preparar, pois eles tinham conhecimento de que eu sou um ótimo cozinheiro, mas hoje era diferente. Pelo menos é o que eles achavam.

Na noite seguinte eu fui atendê-los na porta. A princípio fiquei decepcionado com tamanho desleixo deles. Me senti realmente insultado ao vê-los trajados tão informalmente. E quando viram que eu tinha colocado meu melhor blazer, seus sorrisos morreram nos lábios. Mas em um segundo eu me recompus da ira e sorri, dando tapinhas em seus ombros e os convidando amistosamente para entrar.

A noite mal começara e eu já via que aquele não seria meu único arrependimento. Sentaram-se olhando admirados para a mesa de jantar. Eu havia preparado um cocktail com aperitivo para eles irem preparando o estômago. Eu já estava acostumado a seus gestos à mesa, mas ainda tinha esperanças de que se comportariam melhor. Claro que rapidamente as perdi.

- E onde está sua esposa? - o cara que colocava dois aperitivos de uma vez na boca me indagou.

- Oh, ela já vem. Vai demorar um pouco, mas não se preocupem.

Entreolharam-se sorrindo. Respirei fundo, dada a involução daqueles homens e quase pude sentir o cheiro de feromônios exalando de seus pescoços e pútridos genitais. Fechei os olhos e, ouvindo o som de Chopin que vinha da sala, relaxei todos os músculos, incluindo os da minha mente.

Fui até a cozinha e lhes trouxe um vinho branco seco de ótima qualidade. Servi-lhes ostras com pão preto e manteiga e ficamos um tempo conversando sobre o trabalho. Eles estavam cientes da minha sofisticação na cozinha e demonstravam muito apreço por isso. Da forma deles, claro. Em seguida servi sopa de frutos do mar, a qual me parabenizaram pelo delicioso gosto. Ainda assim eu pude ver, em seus gestos e em algumas gotas de suor que lhes brotavam das têmporas, que a ansiedade os estava matando. Mal sabiam eles que isso me agradava e muito.

Quando voltava da cozinha com um vinho tinto seco muito caro, eu ouvi o burburinho sobre a ausencia da minha mulher. A impaciência na voz deles me fez rir ironicamente e, quando apareci diante deles, seus olhares eram quase de reprovação.

- Sua mulher não vai jantar conosco?

Eu sorri, enchendo suas taças. Eles aguardavam uma resposta como quem aguarda ansiosamente o resultado decisivo de um jogo.

- Ela já está vindo. Não se preocupem. Afinal, ela é o prato principal.

Gargalhadas ecoaram pela sala e estalos de mãos também se ouviram. Era o instinto animal aflorando naqueles homens. Tolos. Soubessem eles que meu animal interior fosse um predador mais vil que eles, jamais teriam aceitado meu convite.

- Então, vou buscá-la.

Vi, de soslaio, o brilho faminto em seus olhos. Ouvi também goles sôfregos de vinho descendo em suas gargantas. O murmúrio que me chegava da cozinha me parecia como o de fantasmas famintos pululando sobre cadáveres. Mas nenhum brilho era maior que o dos meus olhos.

Voltei com a travessa de carne e vi seus sorrisos murcharem. Mas sabia que eles não cometeriam a falta de educação de insistir sobre a presença da minha mulher. Quando coloquei a carne em seus pratos, vi que seus membros relaxaram e o cheiro do prato principal atiçara suas papilas gustativas.

- O que é isso? - perguntou o cara à direita que já estava levemente embriagado, enlevado pelo cheiro da tenra carne.

- Timo. Com cogumelos. O prato principal.

- Cheira muito bem.

Amansados pelo cheiro, eu os vi se deliciarem com a carne. Num súbito contentamento, eu sorri. Meu coração começou a bater mais acelerado. Um sorriso brotou em meus lábios. Não é qualquer um que compreende a felicidade contida nessa refeição, e eu entendo isso.

Quando ouvi seus lábios estalarem com a suculenta carne, eu me ergui com uma taça de vinho na mão e disse:

- O que acharam da minha mulher?

Pausaram e me encararam. Sorriram, o sorriso bêbado dos que demoram a compreender. A satisfação com a comida estacionara em suas bocas, em seus corpos. Eu repeitava o momento sublime da degustação da carne tenra e saborosa.

- Onde está sua mulher? - indagou um dos homens.

- Você acabou de engoli-la, meu amigo.

Em um momento eu vi os quatro homens se afastarem da mesa. O cérebro, que acompanhava o timo, deve ter ajudado nas suas reações. Vi um deles vomitar no meu carpete. Algo que me irritou, pois eu tinha preparado com tanto esmero o timo da minha esposa e agora era obrigado a ver ela ser expelida por um idiota qualquer no carpete caro que ela mesmo escolhera.

- Você é doente?!

Eu ouvi um dos rapazes gritar. Eles finalmente entenderam a situação.

Não vi raiva neles e sim medo. Me olhavam como se eu fosse um monstro. Não esperavam tal acontecimento, o que lhes deixara vulnerável. Os olhares assustados me excitaram. Via o medo em seus olhos. A raiva não lhes dava força. Sentiam certa repugnância de mim.

- Vamos sair daqui!

O medo, o nojo, a agonia os tomou sobremaneira. Correram, como quem corre da morte. Deixaram para trás o jantar que eu havia preparado com tanto gosto. Mas era de se esperar. Para pessoas com a mente tão pequena, até que a ficha lhes caiu rápido. Vi-me então só. Sentei-me e desfrutei da carne apetitosa.

Sonhei com aquele momento várias vezes. Eu sentia, em mim, que a degustação da carne da minha mulher, quando trepávamos, não estava mais sendo o suficiente para satisfazer meus desejos. O gosto da sua pele em minha boca já não era suficiente. Eu me deliciava em seus seios. Mordia com força, às vezes, e percebia que machucava ela, mas ela gostava. E quando minha língua passeava pela sua buceta, minha fome aumentava. Seu gosto impregnava-se de tal modo na minha língua que eu desejava mais. Esse desejo foi crescendo até eu colocar uma faca em seu estômago, para a direita.

Quando vi seus olhos sem vida me encararem, senti a paixão da adolescência me tomar. Minha alma elevou-se sobremaneira. Nunca a tinha visto tão linda. Nunca a tinha visto tão sedutora. E quando dividi seus membros, eu vi meu amor por ela crescendo a tal ponto que o fato de saber que quando a devorasse, ela faria parte de mim, me arrancou até lágrimas. Acreditei que tinha alcançado um novo estágio em nosso amor.

Enquanto saboreava sua carne, com todos os condimentos e o vinho tinto seco a molhar-me a língua, eu fechei os olhos e a senti em mim, ligada, como nunca, em todos os nossos sete anos juntos, me senti tão próximo dela.

Meu nome é Herne Mendel. E essa foi minha primeira verdadeira refeição.

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