segunda-feira, 25 de março de 2013

QUEM INDICA?


Crônica de Gustavo do Carmo

Entrar no mercado de trabalho só se consegue com Q.I.  Não o Quociente de Inteligência, mas a abreviação da frase Quem Indica. Em qualquer função, de qualquer nível de instrução. Procurando emprego ou não.


Há quem diga que é preciso correr atrás onde a oportunidade está. Conseguir alguma coisa depois de correr atrás, sem saber onde ela está, só com muita sorte. O anúncio de emprego é o exemplo mais prático da expressão citada no início do parágrafo.

 Uma empresa que coloca um anúncio no jornal ou na internet recrutando gente, geralmente, recebe 100 currículos por dia e uns 1.000 por semana. É preciso selecionar para a entrevista apenas 10% disso. E neste índice entram somente as pessoas que agradam ao selecionador. Aí mesmo já tem uma indicação. Isso quando não aparece o currículo de um parente, namorado, noivo, marido, esposo(a) ou amigo do selecionador. Neste caso, as chances de quem está sozinho na batalha pelo emprego reduzem quase que totalmente.

Quando eu disse que o Quem Indica domina o mercado de trabalho de todas as funções e em todos os níveis é porque eu tenho vários exemplos na minha família. Minha mãe chegou ao Rio, vinda do interior do estado, para trabalhar em uma empresa de ônibus indicada pelo cunhado dela, que era gerente. Meu tio, que eu não cheguei a conhecer, porque morreu uns dez anos antes de eu nascer, pediu à minha mãe, quase em seu leito de morte, que seu cargo fosse ocupado pelo seu irmão, que estava chegando de Goiás. O jovem encarregado da bilheteria na rodoviária viria a se casar com a minha mãe e se tornar o meu pai.

Mais de trinta anos depois, minha irmã foi indicada duas vezes. A primeira para estagiar em um centro de tecnologia mineral e a outra para trabalhar onde ela está até hoje, na área dela, de engenharia química. E eu recebendo sermão de que não corro atrás, que as oportunidades não caem do céu e etc. Mas apoio que é bom mesmo eu não recebo, a não ser da minha mãe. A carreira que eu escolhi é a que mais pede QI: a de jornalismo. E a alternativa também: a de escritor.

 Por ser muito tímido e carente, não consegui manter os  "amigos” que eu fiz nas duas faculdades (jornalismo e publicidade) e pós-graduações (Gestão da Cultura e Telejornalismo). Todos sumiram e não tiveram nenhuma vontade de me procurar (sou discriminado até hoje por ser tímido e pessimista). Quando cobrei fiz desafetos.

Além de não ter QI, tenho gente que fecha as minhas portas. Alguém que faz a minha caveira (A.Q.F.M.C. ou QD – Quem Desestimula). Aposto que alguém da panelinha da pessoa que se interessou por mim chega nele e diz para não me chamar pra trabalhar. E aí não sou chamado.

A pós-graduação de telejornalismo eu fiz apenas para conhecer amigos. Só conheci um grupinho esnobe que só dava oi para as panelinhas (coordenadora inclusive) e outro que se fingia de amigo, mas na hora H, mais especificamente no trabalho final do curso (que abandonei) me deixou sozinho. Só fiz mais desafetos. Quanto a eles, a maioria conseguiu emprego ou se promoveu. Na base do Quem Indica, claro.

No mundo artístico é ainda pior. Porque além de te excluírem, podem roubar as suas ideias.  Afinal, ideia não caracteriza plágio. Como fizeram com um conto meu que parece que inspirou uma série na TV a cabo. Sem falar na hipocrisia.

Editoras de livros, pra dar um primeiro exemplo, impõem mil condições para te desestimular a mandar um original, exigindo cópias impressas em duas vias, sinopse completa, descrição dos personagens, etc. E tudo enviado pelo correio. Por e-mail não pode.  A  resposta nunca chega. Isso quando não dizem que o cronograma está lotado. Mas os amigos dos editores colocam ponto final num dia (se não plagiaram de algum escritor sonhador), revisam no outro, mandam pra gráfica no seguinte e em cinco dias o livro já está em todas as livrarias do país.  E bem divulgado.

Mas o pior da hipocrisia vem daqueles que anunciam aos quatro ventos que tiveram muitas dificuldades para conseguir o que têm, em qualquer área, quando na verdade, são filhos, cônjugues ou amigos de celebridades.  E aqueles que não admitem que foram indicados? Pra chegarem onde estão, com certeza, foram indicados por alguém que não conheciam.

No entanto, também tem gente ainda mais cara-de-pau que diz que não aceita roteiros de desconhecidos. Inclusive uma produtora iniciante de esquetes cômicos imbecis e sem graça. E ainda a emissora de televisão que só faz oficinas de roteiros para os seus funcionários, parentes, amantes e amigos dos funcionários. Assim é difícil correr atrás das oportunidades.

 Ah! Não posso me esquecer daqueles que sabem que emprego só se consegue indicado e assim arranja. Parece que é pra te matar de inveja. E ainda plagia o seu conto através de uma conhecida atriz. 

É. Para ter uma oportunidade eu preciso correr atrás. Atrás de panelinha pra me servir de Quem Indica. 

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