terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Torpor das Palavras

Por @hemersomn




- Eu sei que mereço coisa melhor.

A voz dele saiu abafada do outro lado do celular. Ela quase pensou que fosse outra pessoa. Antes fosse. Antes não fosse para ela. Antes fosse um sonho.

As palavras saíram da boca dele sem nenhum esforço, fracas e desprovidas de qualquer relevância. Assim ele imaginou por um momento. Mas no caminho entre sua boca, as ondas do celular, até chegar ao ouvido dela, elas ganharam um poder descomunal, destroçando, rasgando, pulverizando tudo o que estava pela frente. E quando penetraram a mente dela, explosões gritaram alto em sua caixa craniana. As palavras entraram em combustão, explodindo sem se importar com o que estava ao redor. Depois, liquefeitas, derramaram por seus olhos.

O silêncio, após o baque surdo do desligar do celular, parece ter sido pior. Explosões silenciosas tomaram o lugar das outras. Causando o mesmo estrago, clamavam mais alto que as explosões anteriores. Então, novamente liquefeitas, transbordaram de seus olhos, escorrendo até a boca, cujos lábios, entorpecidos, estavam entreabertos gritando algo que ouvido nenhum poderia ouvir, mas que fez tanto ruído que seu corpo estremeceu.

Ela sentiu em cada fibra, em cada membro. Labaredas pareciam cavalgar ferozmente sob o caminho de tudo o que a revestia. Seus pelos eriçaram e os dedos das mãos começaram a tremer. Dentro de si, mil vozes clamavam. Seu exterior estava em silêncio, mas o ruído dentro dela era ensurdecedor. Aquelas seis palavras percorriam seu corpo como em uma maratona de cadáveres em putrefação, deixando seu fétido odor por cada célula. Um rio negro e amargo de mágoa corria em suas veias. Dos olhos, ela sangrava água.

O celular ainda estava encostado ao seu ouvido, mudo, como se fizesse silêncio em consideração ao momento. Ela colocou ele sobre a mesinha à sua frente e, recostando-se no sofá, refez os passos que levaram àquela derrocada. 

Toda manhã ele ligava para desejar um bom dia. Conversavam um pouco e depois se aprontariam, cada um para o seu trabalho. Estava tudo bem, até que determinado assunto fez o humor dele mudar bruscamente. Ela pensou que aquilo já tinha sido resolvido. Mencionou sem nenhuma intenção de despertar novamente o péssimo animo que aquilo causava. Mas era tarde. As inocentes palavras já tinham feito seu trabalho. Elas a traíram. Ele se irritou profundamente e ela, tentando remediar a situação, parecia piorar a cada vez que abria a boca. Por fim, ele expeliu as seis palavras que quebraram a redoma que cobria a realidade que os rodeava. 

Ela tentou se recompor. Tentou pensar que logo aquilo tudo estaria resolvido. Então decidiu se aprontar para o trabalho. Mas a mente dela não conseguia se concentrar. Ela não acreditava que aquelas palavras tinham sido sinceras. Ela não queria acreditar. Sua mente não estava totalmente em seu corpo. A prova veio quando percebeu, ao sair de casa, que calçara uma meia branca e outra azul. A calça cobriu. Quem dera algo cobrisse os pensamentos dela também.

E ela não conseguiu se concentrar até a hora do almoço. Hora essa em que os dois se encontrariam, como todo dia, para conversar. E ele já estava lá, sentado, os dedos tamborilando na mesa. Quando a viu seus olhos brilharam, mas logo baixou a cabeça e esperou ela sentar. O silêncio foi quebrado por um pedido de desculpas. O coração dela batia forte. A raiva despertara quando ela o viu. Ele pegou em suas mãos e esse toque junto com o som da voz dele, o mesmo som que a ferira por dentro antes, fizeram com que ela amolecesse. Essa era a mesma voz que a fizera se apaixonar na primeira vez que se encontraram. Conversaram e fizeram as pazes. Ela sabia que ele não tinha dito aquilo de verdade. Ela sabia que foi um momento de raiva. Mas lá no fundo, no recôndito de seu intimo, algo dizia que sempre há algo de verdade, mesmo numa mentira. Ela tentava afastar esse pensamento. Agora tudo estava de volta ao normal. Eles estavam bem de novo...

"Até quando?"

A pergunta nasceu e logo agonizou num eco sinistro.

"Até quando?"

O eco foi perdendo força, até que morreu num completo silêncio.


Um comentário:

ymara disse...

Belo texto.. mas fiquei angustiada...
;)

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