segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Puxador sem Voz


Conto de Gustavo do Carmo


Neguinho da Beija-Flor - Foto ilustrativa, sem ligação com o personagem do conto


Sambódromo lotado. Arquibancada e todos os componentes da escola cantando o samba-enredo. Os destaques começam a rebolar nos queijos a 10 metros de altura. A madrinha de bateria, de topless, também já samba e faz reverência aos ritmistas, disciplinados pelo Mestre Turcão. E o intérprete Ari do Pandeiro, cujo verdadeiro nome é Aristênio Soares,  faz o seu gargarejo antes de dar o seu grito de guerra.


Ele cospe o preparado de própolis e gengibre num balde. Estava meio gripado nos últimos dias. Mas achava que poderia puxar o samba sem problemas. Conseguiu dar o grito de guerra: SAI DA FRENTE QUE A UNIDOS DA DEMOCRÁTICOS TÁ CHEGANDO!!!! SORRIIIIIIIIIIIA PANDEIRO!!!!!!

Foram as últimas palavras que Ari conseguiu soltar. Depois delas ficou sem voz. O cavaquinho continuou tocando, mas o samba não entrava. O presidente da escola se desesperou. Ari, tenso, falava com o fiapo de voz que lhe restava:

eu não estou conseguindo nem falar.  

Enfim, o grupo de puxadores auxiliares assumiu o samba, que foi levado até o fim em coral. A Unidos da Democráticos foi aplaudida ao fim do desfile. Na quarta-feira de cinzas, descobriu que perdeu pontos em harmonia, evolução, samba-enredo e conjunto. Ficou em sexto lugar. Voltou ao sambódromo, na semana seguinte, para o desfile das campeãs. A voz de Ari ainda não tinha voltado. A escola foi mais uma vez aplaudida.

Aristênio Soares ficou mudo de vez. Mesmo não precisando mais dele e efetivando o coral de intérpretes, Ari do Pandeiro foi mantido para ser um talismã. Foi demitido porque nem pra isso ele serviu. A Unidos da Democráticos foi rebaixada no carnaval seguinte.

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