quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Assédio Textual

Por @hemersomn




Eu sempre amei as palavras. Aos doze anos de idade meu livro preferido era um dicionário. Passava tardes lendo o significado de palavras que eu desconhecia. Era amor à primeira vista, não apenas paixão de infância. Cresci com isso. Os diálogos entre mim e minha família eram sempre complicados. Eles não me entendiam. Talvez devido a quantidade de sinônimos que eu usava para expressar algo que eles, na sua simplicidade, só conheciam por um determinado nome. Era engraçado, às vezes. Era gratificante em algumas ocasiões. Mas era sempre muito solitário. Triste, por assim dizer. Como se eu fosse um ilha rodeada por ignorantes. E mesmo assim eu ainda achava que o problema era eu.

Foi quando eu tinha vinte anos que aconteceu. Fui a um café próximo de onde eu trabalhava na minha hora do almoço. Não tinha fome naquele dia. Tinha cansaço, desânimo, causado pelas pessoas ao meu redor. De mentes tão vazias, eu já estava cheio. Todos os meus dias tinham se tornado gris. Aí eu sentei numa mesa ao lado de uma mulher que, à primeira vista, não tinha nada de especial. Seus cabelos negros emolduravam o rosto comum. Os lábios finos não estavam de batom. E seus olhos castanhos corriam nas páginas de um livro. Foi isso que me chamou a atenção. O livro.

Eu me contorci para ver se conseguia, sob as mãos finas dela, ler o título da obra. Ela percebeu minha incapacidade e então, num gesto indiferente, mostrou a capa para mim, só o tempo de eu rapidamente ler e voltou à sua leitura. Era Edgar Allan Poe. Meu escritor preferido. Um arrepio subiu-me à espinha. Engoli em seco e não podia deixar passar despercebido esse momento.

- Você tem bom gosto, moça.
- Eu sei.

A resposta veio seca, da mesma forma que ficou a minha garganta. Ela sequer se deu ao trabalho de me olhar. Respondeu com seus olhos ainda correndo pelas letras. O silêncio que se seguiu à sua resposta foi o maior barulho que eu já tinha ouvido. E veio de dentro de mim. Respirei fundo para uma nova tentativa.

- É seu escritor preferido?
- Não tenho escritor preferido. Gosto de vários escritores. Só tenho ojeriza por alguns escritores da atualidade.

Eu percebi que minha respiração havia parado. Fiquei quase um minuto olhando para ela. "Ojeriza". A palavra ecoou por cada fibra do meu corpo. Olhei ao meu redor, analisando os rostos das pessoas no café e me perguntei quantas daquelas criaturas conheciam o significado da palavra "ojeriza". Minha conclusão foi rápida. Nenhuma. Um sorriso brotou de meus lábios. O próprio silêncio repetia aquela palavra, expelida por aqueles lábios finos que sequer tremiam. 

- Desculpe, você poderia repetir o que disse antes? O que você tem por alguns escritores atuais?

Ela desviou os olhos do livro e eu vi uma ruga nascer em sua testa. Seus olhos tinham dois grandes pontos de interrogação apontando para mim.

- Eu disse "ojeriza". 

De repente ela parou, a ruga em sua fronte se desfez e vi seus lábios esboçarem um sorriso.

- Desculpe, desculpe. Eu tenho essa mania de falar palavras que acho que todo mundo compreenda.
- Não, não, não se desculpe, moça. Eu sei perfeitamente o significado dela.
- Sério?

Seus olhos brilharam e o que era um esboço tornou-se um belo sorriso. Ela puxou a cadeira que estava do seu lado, me convidando a sentar. Eu aceitei o convite e conversamos. Foi a uma hora de almoço mais inesquecível de toda a minha vida. Finalmente eu tinha encontrado alguém com quem eu pudesse conversar e ser entendido. Alguém que não precisava andar com um dicionário para compreender o que eu estava falando. E pela primeira vez na minha vida, eu me senti completamente feliz. Desde aquele dia passamos a nos encontrar. Ela me contou de suas experiências, as quais muito se assemelhavam às minhas. O amor dela pelas palavras era tão grande quanto o meu. Tínhamos orgasmos intelectuais toda vez que conversávamos. Uma atração textual tomou conta de nós dois. 

O sexo era algo que beirava à perfeição. Eu escrevia nossa história em suas costas com minha língua, a apagava com beijos e reescrevia tudo de novo. Alguns palavras que falávamos nos excitava sobremaneira. Lembro do dia em que ela, ao me ouvir falar uma palavra que lhe era desconhecida, até perdeu o fôlego. E ela me pedia para repetir algumas vezes, enquanto eu via a felicidade em seus olhos. Eu vi em nós dois um plural muito singular. Para mim o mundo tinha dado uma pausa sugestiva para que nos conhecêssemos.

Escrevemos nosso conto de falhas nas linha tortas dessa vida por quase oito anos. Nesse tempo pensamos em unir nossos verbos, colocar um hífen em nossos vocábulos e então gerarmos um neologismo que gostaríamos de chamar de Felipe, se fosse menino, ou Isabel, se fosse menina. Tentamos, mas não conseguimos, até descobrirmos que ela não poderia ter filhos. Isso não enfraqueceu o que sentíamos um pelo outro. Na verdade nos uniu mais. E vivemos esse triângulo amoroso, ela, eu e as palavras, da forma mais plena que conseguíamos.

Mas assim como as palavras nascem, voam e morrem no esquecimento, nossa relação teve o mesmo destino. As palavras já não causavam mais o mesmo impacto. Parecia que elas já não serviam para expressar aquilo que sentíamos. Eu me sentia traído por elas. As tinha amado por toda a vida, mas quando eu mais precisava, elas me davam as costas. Via nela também o mesmo sentimento. Surgiu assim, sem mais nem menos, talvez do nada, ou talvez de tudo. Não sabíamos o que era, mas estava presente, nos incomodando.

Foi num dia chuvoso. Eu estava encharcado, debaixo do mesmo guarda-chuva que ela, que estava seca, pois eu a protegera do mar em pedaços que caia do céu. A mala estava em sua mão e eu temi em perguntar o que aquilo significava. O sorriso em seus lábios não estava mais lá. Seus olhos para mim tinham perdido o brilho. E eu não quis ouvir as palavras que ela tinha para me falar. Pela primeira vez na minha vida, eu não queria ouvir o que as palavras queriam me dizer. Então ela foi. Levou o guarda-chuva consigo e eu, com a visibilidade distorcida, não pela chuva, mais pelas lágrimas pendentes em meus olhos, a vi se afastar de mim, mais e mais. 

E aquilo que eu pensava ser virgula, aquilo que eu almejava ser reticências, tornou-se ponto final.



4 comentários:

Ana SSK disse...

Ah, que lindeza de texto!
E olha só, eu me lembro da primeira vez em que ouvi essa palavra...ahahaha

Gustavo do Carmo disse...

Belo conto! Parabéns!

Hemerson Miranda disse...

Eu também lembro, Ana. Tem coisas que a gente não quer esquecer. =)

Hemerson Miranda disse...

Valeu Gustavo!

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