quinta-feira, 18 de outubro de 2012

1º Salão dos Humoristas - Centenário

João Paulo Mesquita Simões




A 9 de Maio de 1912 inaugurou-se o 1.º Salão dos Humoristas Portugueses, momento importante para a história da arte e da cultura portuguesa novecentistas. A exposição decorreu em Lisboa, ao Chiado, onde o Grémio Literário abriu as portas para acolher as obras de vinte e oito artistas. Inusitadamente, recebeu a visita de Manuel de Arriaga, Presidente da jovem República, fazendo eco na imprensa da época, que terá procurado adquirir uma peça de cada um dos expositores. O evento resultava dos esforços da Sociedade de Humoristas Portugueses, constituída no ano anterior, sob a emblemática presidência de Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, filho e sucessor do notável artista Rafael Bordalo Pinheiro, já desaparecido, homenageado com dezoito litografias da sua autoria, à entrada do Salão. Outros dois nomes, também já falecidos, foram igualmente recordados: Francisco Teixeira e, de maior relevo, Celso Hermínio. Mas, a presença do mestre Rafael Bordalo cumpria um outro sentido, servindo de «caução» a toda esta geração de bordalianos e, sobretudo, aos novos humoristas de traço modernista.
Uns e outros apresentaram mais de três centenas de obras, entre gravuras, croquis, capas para publicações, frisos decorativos, estatuetas, placas em relevo e até caraças, acumuladas em três salas do Grémio e elencadas num modesto Catálogo editado. Entre os herdeiros do gosto bordaliano destacavam-se o filho Manuel Gustavo, Alonso (pseudónimo de Joaquim Guilherme Santos Silva) e Francisco Valença, que prolongariam o traço oitocentista. Mas seria o trabalho dos novos que marcou o acontecimento para a arte portuguesa. A proposta destes jovens artistas procurava contrapor ao estafado tema da política, um certeiro comentário social, realizado em risco sintético da figura e do contexto, mais actual. Mostrava se uma plêiade de novos artistas, como Américo Amarelhe, caricaturista do mundo teatral, da caserna como o oficial Menezes Ferreira, a piada urbana de Sanches de Castro, as figuras de kermesse do emigrado Emmerico Nunes (enviadas de Munique), o riso popular de Stuart Carvalhais (em Paris). Logo, foi distinguida pela crítica a elegância no desenho de Jorge Barradas, as figurinhas de boulevard, em barro, de Canto da Maia e, sobretudo, irmanando os exemplarmente modernos Cristiano Cruz e Almada Negreiros. Faltas maiores, também, foram notadas, como as de Leal da Câmara (expondo ao mesmo tempo na Capital), Luís Filipe e Correia Dias. Passados cem anos, para assinalar esta efeméride, seleccionaram-se doze artistas representativos das duas correntes artísticas em confronto e, pela primeira vez, tentou-se encontrar as peças então exibidas, para servir de ilustração ao selo dedicado a cada autor. Embora com sucesso na sua maioria, foi forçoso abrir excepção para Emmerico (o único a ultrapassar o limite cronológico de 1912) e para Manuel Gustavo, Celso e Barradas, por insucesso na busca. O humor agora conseguido, sobretudo, com pormenores das peças dos artistas, fez jus ao esforço patente no Salão. Apesar do enorme êxito, não mudou o gosto da sociedade, continuando a agradar o registo bordaliano. A modernidade, apenas por alguns entendida, chegaria mais tarde ao público, cultural e mentalmente mal preparado...



Pedro Bebiano Braga
Coordenador do Museu Bordalo Pinheiro



Dados Técnicos
Emissão
2012 / 10 / 16

Selos
€0,32, €0,47, €0,68, €0,80,

Design - Atelier B2

Papel - FSC 110 g/m2

Formato
Selos: 30,6 x 40 mm



Folha Especial : 110 x 185 mm



Picotagem
Cruz de Cristo / Cross of Christ 13x13
Impressão / printing - offset

Impressor / printer - Joh. Enschedé


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