sábado, 4 de agosto de 2012

AMADURECIDO


Conto de Gustavo do Carmo



Era chamado de criança. Aos 50 anos. Renan ainda morava com a mãe e dependia financeiramente do dinheiro do pai e da irmã mais velha. Limpava todo mês a sua coleção de carrinhos em miniatura, com ajuda da mãe. Não tinha vergonha da coleção. Mas tinha vergonha da sua vida.

Estudou jornalismo. Estudou publicidade. Pós-graduou-se em Gestão da Cultura. Fez vários cursos e oficinas literárias. Não guardou aprendizado e nem amizades de nenhuma de suas escolas ao longo da sua vida.

Por isso, Renan nunca teve uma rede de relacionamentos. A cada turma que conhecia, se magoava e desentendia com todos, que, logicamente, o rejeitavam. Exatamente por esse motivo, abandonou uma pós em telejornalismo. Envergonhado com a sua imaturidade tardia, afastou-se dos primos.

Não tinha coragem de procurar empregos simples. Se era formado em jornalismo, só queria ser jornalista. Tinha inveja dos colegas que se promoviam na sua profissão. Por isso, ficava à toa em casa e costumava discutir com o pai, que queria vê-lo funcionário público. Sua imaturidade demorou 40 anos para cessar.

Um dia, tudo mudou. Renan foi contratado por uma emissora de televisão para trabalhar como roteirista. Pela primeira vez, conseguiu o seu próprio dinheiro. E um bom dinheiro. Renovou seu notebook, aumentou sua coleção de carrinhos em miniatura e... continuou morando com os pais. Por mais um ano apenas.

Casou-se com uma diretora de novelas da emissora. Teve dois filhos. Sua mãe curtiu a neta e o neto por quinze anos. O pai curtiu um pouco menos, apenas dez anos. Deu sobrinhos para sua irmã, que não teve filhos. Ficou rico. Soube educar os filhos com humildade.

Aos oitenta e um anos, adoeceu. No seu leito de morte estavam a segunda mulher – trinta anos mais jovem (a primeira já era falecida) - os filhos crescidos do primeiro casamento, os quatro netos ainda crianças e a irmã mais velha já idosa e viúva. Os pais já tinham morrido.

Renan lembrou-se de como a sua vida deu uma guinada. Tivera um infarto quando completou 51 anos. No dia do seu aniversário, descobriu que uma antiga colega da pós de telejornalismo, já falecida, estava namorando um também colega da mesma turma.

Os tais colegas ficaram com remorso, se comoveram com o drama do ex-amigo, acionaram a coordenadora do curso e esta o indicou para a emissora. Esta tinha gostado dos seus contos, recebidos vinte anos antes.

E depois de tantas oportunidades perdidas Renan finalmente amadureceu. A sua carreira profissional. Graças à compaixão dos outros. Morreu como uma criança.  

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