sábado, 21 de julho de 2012

REDUNDANTE


Conto de Gustavo do Carmo


Desde a barriga da sua mãe, Redson já era um redundante. Além dos redundantes chutes na barriga, dava redundantes alarmes falsos antes do parto. Redundantemente fez seus pais saírem correndo para a maternidade sem de fato nascer. Desde os sete meses de gestação ele fazia seus pais correrem para a maternidade.

Nasceu finalmente no dia 11 de novembro de 1988, com os naturais nove meses de gestação, na décima-primeira contração do dia em que finalmente sua mãe foi ao hospital para fazer o parto. Sua mãe foi internada à meia-noite do dia 11 de novembro de 1988, mas ele só nasceu às onze e cinqüenta e cinco do mesmo dia 11 de novembro de 1988, chorando redundantemente.

Nasceu em Volta Redonda. Numa maternidade de Volta Redonda. Foi criado em Volta Redonda. Brincava brincadeiras redundantes em Volta Redonda. Adorava brincar com o Ferrorama. Aquele Ferrorama de trilhos ovais. Aquele Ferrorama de trilhos ovais nos quais o trem andava sozinho. Sem competição. Sem emoção. Andava redundantemente sozinho, tendo a manivela apenas para diminuir ou aumentar a velocidade e mudar o sentido do percurso. Na pracinha gostava daquela roletinha giratória. No parque adorava o carrossel.

Estudou em Volta Redonda. Na escola tirava zero num bimestre e oito no outro. Ficava sempre em recuperação. Só repetiu duas vezes. A sexta e a oitava série, as séries que ele repetiu. Nas demais passou na recuperação. O mesmo desempenho se repetiu no segundo grau. Tirava zero num bimestre e oito no outro. Ficava sempre em recuperação. Mas passou em todos os três anos.

Redson foi aprovado em octagésimo-oitavo lugar na faculdade de filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi a faculdade que ele escolheu para estudar e exercer a sua profissão. A faculdade de filosofia. Na hora de se inscrever para o vestibular da Universidade Federal do Rio de Janeiro chegou a ficar em dúvida entre a faculdade de filosofia e a faculdade de direito. Mas escolheu a faculdade de filosofia porque era menos concorrida. A faculdade de direito era muito concorrida. A faculdade de direito tinha muitos candidatos para uma vaga. Já a faculdade de filosofia tinha poucos candidatos para uma vaga.

Redson era um cara bonito. Não era feio. Era bonito. Diferentemente do que o seu nome, que na verdade significa filho do vermelho e não redundante, como sugere, o que também sugere redondo, e como redondo sugere também gordo, Redson era um cara magro. Não muito magro, diga-se de passagem, magro na média. Seu rosto era redondo, aí sim, parecido com o nome que sua mãe escolheu que não quer dizer redondo e nem redundante. Seu nome significava filho do vermelho. Ela só não sabia explicar de onde tirou a idéia para o nome do filho. Redundava sobre o assunto quando ia explicar o nome do filho. Os cabelos de Redson eram cacheados. Ou melhor, encaracolados como a personalidade de Redson sugere. Redundantemente encaracolados.

Redson não era bom de redação. Por isso não escolheu o jornalismo como profissão. Ia até escolher direito, mas, como já disse antes, o direito era uma faculdade muito concorrida. Pelo mesmo motivo rejeitou, também, a faculdade de psicologia. Escolheu filosofia. Sua redação era redundante como este conto, aliás, escrito por Redson, e não por Gustavo do Carmo, como está assinado.

Redson era melhor falando do que escrevendo. No entanto, com as palavras saídas diretamente da sua boca, ele redundava no assunto do mesmo jeito. E foi com esses discursos redundantes que ele se formou, quatro anos depois de ter sido aprovado em octagésimo-oitavo lugar na faculdade de filosofia. Faculdade que escolheu em preterimento às faculdades de direito e psicologia, porque estas eram mais concorridas do que as faculdades de filosofia.

Como Redson não tinha dinheiro para fazer cursos de especialização em filosofia fora do Rio de Janeiro e fora do Brasil, ficou sem campo para exercer a sua profissão de filósofo. Também não tinha dinheiro para publicar livros sobre filosofia. Com discurso redundante para argumentar porque não aceitava trabalhar em outra atividade Redson acabou engrossando a longa e redundante estatística dos cidadãos economicamente capazes desempregados. Voltou para Volta Redonda, sua cidade natal onde nasceu no dia 11 de novembro de 1988, às vinte e três horas e cinqüenta e cinco minutos, para continuar sendo sustentado pelo pai, na casa onde foi criado.

Para se ocupar com a redundante sobra de tempo e falta de serviço, Redson andou fazendo algumas oficinas literárias. Oficinas para que ele pudesse aprender a escrever com mais clareza e menos redundância. Redson sempre sonhou em ser escritor, mas não era bom de redação. Sua redação era redundante como este conto autobiográfico, que apesar de estar escrito em terceira pessoa, fala da vida biográfica de Redson e foi escrito por ele mesmo e, não, pelo Gustavo do Carmo, como está assinado no início do conto.

Na quinta oficina literária que Redson entrou para aprender a escrever com mais clareza e menos redundância, Redson conheceu Clariane, que mudou sua vida e com Redson se casou. Clariane fez de Redson um homem mais objetivo e menos burocrático e menos redundante, a não ser pelo seu cargo burocrático e redundante de auxiliar administrativo que ele conseguiu ao ser aprovado num concurso público após chutar redundantes questões de múltipla escolha.  
     

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