terça-feira, 15 de maio de 2012

LISBETH

Por Hemerson Miranda





           Dizem que só damos valor a algo depois de o perdermos, mas eu acredito que quando amamos uma coisa com todas as nossas forças e a perdemos, nem mil mortes poderão curar esta dor.

Poucas coisas neste mundo fazem um homem se curvar. Mas a mais costumeira delas é a mulher. O mais valente chora e o mais bárbaro sorri. Elas são capazes de transformar um ignorante em um poeta. Eu sei, pois já passei por isso.

          A conheci na rua, como vendedora de flores. Era órfã e vivia em abrigos diferentes todos os dias. Não possuía sonhos ou esperanças. E pelo jeito não suportava mais nem possuir a si mesma. Ao tomar o costume de sempre passar pela rua em que ela se encontrava vendendo suas flores eu comecei a criar amizade. Seu sorriso havia me encantado como nenhuma outra imagem jamais havia feito. Ao perguntar seu nome foi como se um coro de anjos começasse a entoar os mais belos cânticos. Lisbeth. Falei seu nome em voz alta como que para senti-lo em minha língua. Sonoro. Encantador. Ela sorria olhando para mim, como se me achasse bastante bobo.

            O tempo passava e nossa amizade crescia. Certa vez a convidei para jantar em minha casa e qual não foi a surpresa dela ao ver a minha mansão. Seus olhos castanhos brilhavam de tanta alegria e espanto. Naquela noite eu a pedi em casamento e consumamos nossos desejos na cama. Foi a noite mais inesquecível de toda a minha vida. Tenho decorado em minha mente cada momento, cada detalhe. Seus cabelos loiros e sedosos, belos como nenhum tesouro de reis jamais foi. Os suspiros que ela soltava; sua ingenuidade e ao mesmo tempo sua malicia, me envolveram e eu desejei que a noite não tivesse um fim.
            Casamos e eu dei a ela uma festa de casamento que ela jamais poderia esquecer. A cerimonia ocorreu em meio as bênçãos de alguns e os murmúrios maldosos de outros, mas a nossa felicidade nos deixava surdos e cegos quanto a essas coisas.

Os meus dias pareciam agora infindáveis primaveras. A cada vez que acordava e via o sorriso dela em minha direção eu imaginava que estava no paraíso. Sua companhia era agradabilíssima e me divertia com a curiosidade peculiar das crianças que ela possuía. Deleitei-me em sua presença todos os dias e nunca me cansava de elogiá-la, afagando suas delicadas madeixas douradas e beijando sua boca macia e suculenta. Mas assim como toda noite sucede o dia, por mais belo que ele seja, as nuvens negras se acumularam sobre nossa vida aos poucos, trazendo uma torrente de desgraça para o seio de nosso relacionamento. Foi num dia ensolarado que ela desmaiou no jardim e uma febre a acometeu durante longo tempo. Sentia dores em todo o corpo. Desmaios frequentes a deixaram na cama todo o tempo.

Chamei o melhor médico que conhecia. Ele a examinara e disse nunca ter visto algo semelhante. Aparentemente ela estava bem, pois ele não encontrava a fonte das dores, desmaios e febre. Julgou ser talvez algo psicológico, mas os gemidos de dores o fizeram descartar esta hipótese. Fiz ele se instalar em um dos vários quartos da casa, para assim ficar de prontidão para qualquer emergência e pudesse avalia-la melhor.

Dias melancólicos se passaram sem que nenhuma melhora ocorresse no corpo de minha amada. A cor de sua pele estava quase transparente e durante a noite os seus gemidos de dor se tornaram numa sombria melodia. Eu trancava-me em outro quarto para que ela não visse ou ouvisse meu pranto derramado por ela. Sentia, com todas as minhas forças, que um fim trágico estava chegando. No sofá me demorava a dormir e quando conseguia dormir era com o rosto banhado em lágrimas.
Foi no despontar do trigésimo dia, ao som de gritos e lamentos das empregadas, que aconteceu. Corri para o quarto de Lisbeth e encontrei o médico segurando em seu pulso. A pele branca e os lábios me diziam que a vida tinha abandonado aquela que eu julgava ser minha própria vida. Ela se distanciara de Lisbeth como as esperanças ao toque de minhas mãos. Joguei-me ante seu corpo inerte e a banhei com uma profusão de lágrimas. O médico e as empregadas me deixaram a sós com o cadáver, que por mais sem vida que estivesse ainda mantinha sua beleza corpórea.

Deixei que outras pessoas fizessem os preparativos para o velório. Pedi ao médico que fosse para casa afim de eu ter meu momento de dor a sós. Ordenei as empregadas, que dormiam numa casa nos fundos da mansão, que não fizessem nenhum trabalho aquela noite. Desejava ficar com minha amada falecida sem interrupções. A noite chegou mais rápida que o vento e com ela nuvens pesadas, trovões e relâmpagos, que anunciavam a partida daquela que eu amei mais que a mim mesmo.
Na sala o caixão fora posto bem no centro, rodeado por castiçais e coroas de flores. Rodeei-o por uma hora e, não mais me contendo, retirei-me ao meu escritório e abri minha única garrafa de absinto. O desejo de acompanhá-la na morte era forte, mas a covardia de tirar a própria vida me preenchia a mente e cheguei a me envergonhar disso. Deixei-me cair na poltrona e me embriaguei com o líquido verde. Seu gosto arranhou minha garganta e o amargor fixou-se em minha língua a ponto de eu querer vomitar. A luz dos relâmpagos invadia o escritório e por vezes me causou saltos de susto e frio na espinha. Continuei a bebericar mesmo que meu interior fosse ficando tão amargo quanto minha vida.

Em meio ao trovoar no céu eu ouvia um barulho estranho, mas julguei ser alucinação causada pela bebida, unida a minha profunda tristeza. Quando de repente um som alto, seguido por mais um trovão, vindo da sala, me chamou a atenção. Após isso tudo ficou em silencio. Depois ouvi um arrastar de algo no piso de madeira. O barulho parecia se aproximar. Um calafrio percorreu minhas costas. Tomei mais um gole e quase me engasguei. Ergui-me da poltrona lentamente enquanto continuava a ouvir o arrastar de algo vindo em direção ao escritório. Parou. O silencio voltou a reinar. Procurei em minha calça a pistola que herdara de meu pai e aguardei algo aparecer na porta. Acredito que fora a influencia da bebida que me trouxera a mente a ideia de que era um ladrão. Como todos haviam me deixado a sós na grande casa a meu próprio pedido, julguei que algum estranho houvesse entrado na casa a procura de algo, pois nenhum dos empregados jamais me desobedecera. Meus braços erguidos apontavam a pistola para a porta, de onde o barulho ficava cada vez mais alto.

Ao lembrar-me deste incidente eu amaldiçoo aquele dia como o dia mais negro da minha vida. A forma apareceu diante da porta como que uma assombração, junto com amais um trovão. O tiro foi certeiro na cabeça. Acredito que o dedo deslizou, ou o susto que tomei que fez a pistola atirar. Não importa mais. A minha amada caia diante de meus olhos como se o tempo tivesse parado. O corpo, alvo mais que a neve, estremeceu sob a mortalha quase transparente. Suas madeixas douradas cobriam metade de seu rosto lívido, em cuja testa uma ruga de dúvida se formara. Os olhos olhavam para mim fixamente e nunca em toda a minha vida, um olhar perpassou o meu interior como o dela naquele dia. Ela parecia perscrutar com os seus olhos todo o meu ser, despindo-me de tudo aquilo que me fazia ser eu. O corpo de Lisbeth caiu a poucos metros de mim, sem vida, sem esperanças, sem alegria. Eu desabei no chão com as mãos na cabeça. A arma, fruto de minha desgraça, a joguei para o lado, enojado. Um grito animalesco saiu do fundo de minha garganta, arranhando minha carne interna, e foi abafado por mais um trovão. Trovão semelhante ao que também abafara o som do tiro que levara de vez e para sempre a minha doce Lisbeth.

Nunca chorei tanto em toda a minha existência. Abraçava o corpo inerte de minha amada com todas as minhas forças. Em seus dedos as unhas estavam quebradas e cobertas de sangue, pois ela forçara a sua saída do caixão. Seu rosto estava agora coberto pelo líquido vermelho e viscoso. Amaldiçoei a minha vida. Banhei seu corpo com minhas lágrimas e pedi a todos os deuses e demônios que ouvissem o meu clamor e me levassem junto da minha joia mais preciosa. Eu fui o autor de minha desgraça. Eu tirei de mim mesmo a minha mais profunda alegria.

O dia começou a raiar quando me levantei do chão e levei seu corpo de volta ao caixão. Sentia a mais dolorosa vergonha de mim mesmo e não queria compartilhar isso com mais ninguém. Aproveitei que o tiro fora abafado pelo trovão e a coloquei de volta no caixão. O enterro ocorreu como havia sido planejado. Ninguém desconfiou, mas no meu intimo eu definhava a cada dia com a terrível lembrança do que fiz à minha esposa.

Os dias se passaram como se uma pesada, densa e mórbida nuvem repousasse acima da minha casa. Não houve uma noite em que, ao lembrar-me de Lisbeth, eu não caísse em prantos inconsoláveis. Nada poderia preencher o meu vazio. Nada. A não ser Lisbeth. Por isso hoje, ao escrever este pequeno relato, estou aqui, sentado em meu escritório com uma pá do meu lado, pronto a ir ao encontro de minha amada e trazê-la de volta para mim.

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