quinta-feira, 8 de março de 2012

Teclas, o Filatelista. 2ª Capítulo

João Paulo Mesquita Simões

                                                                         II



Quando o Teclas e a sua Mãe entraram com o carro no alpendre lá de casa, deram-se conta de um gato bebé que mal miava. Estava cheio de fome.

Como o Teclas adorava animais, saiu do carro e foi a correr agarrar o gato, fazendo-lhe festas.

- Coitadinho! Está cheio de fome! – Lamentou-se o Teclas – Podemos ficar com ele, Mãe?

- Ai é tão lindo, Zeca! Queres que fiquemos com ele? Não me importo, mas o pior vai ser o teu Pai que gosta da independência dele!

- Damos–lhe a volta!

- Ó Zeca! Que modos são esses?

- Anda lá, Mãe! – Retorquiu o Teclas em tom mimado.

O gato foi lá para casa. Mal se aguentava nas pernas de tão pequenino que era.

Quando o Pai do Teclas chegou e viu aquele espalhafato na cozinha e um animalzinho minúsculo a circular pela casa, indignou-se.

- Que é isto? Que estendal é este? E de onde apareceu este gato?

- Ó Pai, este gato estava no jardim caído, cheiinho de fome e tivemos pena dele!

- Eu não disse que não queria mais animais cá em casa? Depois é uma chatice. Queremos ir a algum lado, ou mesmo de férias, e onde fica o animal?

- Não te preocupes. Eu trato dele – disse o Teclas com um ar muito compenetrado.

- Tu? Quero ver isso!

- Isso quer dizer que podemos ficar com o gatinho?

- Que remédio! Já cá está em casa e não gosto de abandonar animais. Mas se os cortinados aparecerem rasgados, ou alguma coisa estragada, podes crer que o dou! – Exclamou o Pai.

- Fixolas, o meu pai! – Exclamou o Zeca dando saltos de alegria.

- Como lhe vamos chamar, Mãe?

- Sei lá! Arranja tu um nome. – Disse a Mãe.

- Hum… Que tal Kiko?

- Kiko? – Perguntou a Mãe.

- Ya!

- Pode ser.

- Pronto, Kiko. Gostas do teu nome? – Perguntou o Teclas ao gato.

E lá ficou o gato a chamar-se Kiko.

O Teclas andava radiante. Tinha um animal de estimação e não aguentou até contar aos amigos.

Aquele telemóvel não parou de apitar com tanta mensagem recebida. De tal maneira que os pais o mandaram colocar no silêncio.

Parecia que se tinha esquecido da Internet, dos selos. Só tinha olhos para o gato.

Mas não.

De repente, lembrou-se da sua conversa com o Avô e telefonou-lhe.

-Olá! – Saudou o Teclas.

- Olá meu menino! – Saudou o Avô – Então há alguma novidade?

- Há! Olha, tenho um gato e sabes do que me lembrei? Fazer colecção de gatos.

O quê? – Não te chega um?

- Ó Avô! Colecção de selos sobre gatos!

- Então não era de carros?

- Mas também pode ser de gatos e de carros, não pode?

- Claro que pode.

- Fixe! É o que eu vou fazer. Dá beijos à Avó!

Mas um problema surgiu na cabeça do Teclas. Como iniciar uma colecção de selos?

O Avô tinha-lhe explicado. Ele não tinha ainda selos. Como começar?

Pegou novamente no telefone e ligou ao Avô.

- Alô! Sou eu outra vez!

- Que te aconteceu agora, Zeca?

- Como começo a minha colecção, se não tenho selos?

O Avô riu a bom rir.

- Quando cá voltares, eu dou-te. Não te preocupes!

- Mas dás-me selos de gatos e de carros?

- Não. Dou-te selos portugueses. As temáticas tens tu que as fazer.

- Pois… Mas como?

- Fala com o teu Pai. Aí em Coimbra, há duas casas filatélicas. Pedes ao teu Pai ou à tua Mãe que te levem lá e dentro das posses deles, que te comprem colecções completas dessas duas temáticas. Mas toma atenção no que eu disse! Colecções completas!

- Ok, Avô! Obrigado! Adeus!

A Mãe estava na sala a ler uma revista, quando o Teclas entrou disparado que até a assustou.

- Ó Zeca! És doido? Assustaste-me!

Ignorando o que a Mãe lhe dizia, o Teclas perguntou de imediato se não podiam ir no dia seguinte à baixa de Coimbra comprar uns selos.

- Sei lá! Fala com o teu Pai quando ele chegar.

Aceitou a sugestão da mãe e sentou-se no sofá. Ligou a televisão para ver uma das suas séries preferidas e ali esteve até o pai chegar.

- Pai! Podemos passar pela Baixa e comprar selos?

-Vais escrever a alguém? – Brincou o Pai.

- Oh! Claro que não! É para a minha colecção de selos!

- Só se for no Sábado. Com os horários que tenho, não tenho possibilidade de te levar a lado nenhum.

- Ok, Sábado, então. Que remédio! Mas tenho de ir à Figueira falar com o meu Avô.

- Quando entrares de férias, vais para lá e falas tudo com o teu Avô – disse o Pai.

- Para a semana! – Sorriu o Teclas.

Ia entrar nas férias grandes e, como de costume, passava sempre uma temporada em casa dos Avós.

Desta vez, andava ansioso que as aulas acabassem para ir para lá.

Contudo, continuava a pesquisar na Internet sítios sobre filatelia onde pudesse adquirir mais conhecimentos além daqueles que o Avô lhe tinha dado.

Passava horas a olhar para o monitor do computador. Lia textos, via imagens, ao mesmo tempo falava com os amigos no MSN sem nunca revelar o que investigava na internet e sempre com o seu gato no colo.

As aulas terminaram. O Teclas passou de ano com boas notas e, num Sábado, lá foi com o Pai a Coimbra comprar os selos que tanto queria.

Escolheu colecções completas novas de automóveis e gatos, tal como o Avô lhe tinha mencionado. Eram emissões de Angola, Moçambique e Burundi. Selos lindos, com motivos maravilhosos destas temáticas, como estes países sabem fazer.

Ainda pediu ao Pai umas folhas próprias para colocar os selos e umas tiras Havid. Tudo material que pesquisou na internet.

- Ó Zeca! Andas bem informado! Foi o teu Avô que te deu estes conselhos? – Perguntou o Pai.

- Não. Foi na Net.

- Muito bem! Mas isto não é barato. – Disse o Pai já cá fora – Vê lá se levas isto a sério, porque coleccionar selos é um hobbie que se torna caro.

- “Tá” descansado. Ainda vais ouvir falar do teu filho. – Disse o Teclas com um ar muito sério.

O Pai sorriu para si pelo modo como o filho lhe respondia.

Chegados a casa, o Teclas mostrou à Mãe todo o material filatélico que o Pai lhe tinha comprado. Depois foi para o seu quarto, fechou a porta, instalou-se na sua secretária e ligou o computador.

Não foi para a internet como era de esperar. Abriu um documento do Office e fez uma folha para o tema dos Automóveis.

Em cima, com uma letra engraçada e apelativa, escreveu o ano e o tema daquela emissão. Depois, ligou então a internet para procurar imagens de acordo com o tema. Lá viu uma que lhe agradou e guardou no computador. Trabalhou a imagem que depois copiou e colou na folha onde estava a trabalhar. Estruturou toda a folha de forma a haver harmonia.

Para se certificar do que tinha feito, imprimiu numa folha normal o seu trabalho.

- Perfeito! – Sorriu o Teclas – “Tá” bué fixe, meu! És um crânio!

Fez o mesmo para a outra temática, imprimiu numa folha normal e analisou o seu trabalho.

- Zéquinha! Realmente és mesmo bom nestas cenas! – Disse para si próprio.

Seguidamente, pegou no envelope das folhas filatélicas, retirou duas, colocou na impressora e deu ordem de impressão.

O efeito foi outro com a cercadura à volta a envolver o trabalho do Teclas.

- Eh pá! Ficou melhor do que eu imaginava. Agora vou cortar e colar as tiras.

Com um xis ato e um esquadro cortou o mais direito que pode as tiras. Colocou os selos, lambeu o dedo mindinho e passou pela goma da tira.

Harmoniosamente, foi criando a sua primeira folha da temática de gatos.

Fez o mesmo para a temática dos automóveis e no final, ficou a olhar para o seu trabalho.

- Eia! Isto “tá” giro! Brutal, meu! Ó PAIIIIII? CHEGA AQUI SE FAZES FAVOR!!!!!!!!!!! – Berrou o Teclas.

- O que é Zeca? - Perguntou o Pai.

- Chega aqui ao meu quarto num instante.

O Pai lá foi ter com o filho.

- Que me dizes agora? – Perguntou o Teclas

- Foste tu que fizeste isto?

- Claro!

- Ó Zeca, isto está fantástico! Muito interessante! Mas quem te deu estas ideias?

- Ninguém! Aliás, algumas tirei do Avô e o resto saquei da Net e compus as folhas!

- Sim senhor! Está muito interessante! Podes continuar. Mostra à tua Mãe.

- Ó MÃEEEEEEEEE? CHEGA CÁ A CIMA SE FAZES FAVOR!

- Zeca! Não berres! Vais lá abaixo e levas as folhas para a tua Mãe ver, não achas?

Mas a Mãe já vinha a meio das escadas.

- Mas que berreiro é esse? – Perguntou a Mãe.

- É o teu filho que é maluco! – Exclamou o Pai.

- Sou maluco mas fiz aqui umas coisas bué giras! Ora vê.

A Mãe ficou espantada a olhar para as folhas filatélicas do Teclas e teve a mesma reacção do marido.

- Foste tu que fizeste isto?

- Claro! Mas vocês acham que eu sou o quê?

- Nada! Estou admirada. Não te conhecia estas qualidades além dos telemóveis, dos MSN e Facebook.

É para que vejas que o teu filho também tem outros dotes artísticos! – Exclamou o Teclas.

Realmente, para um jovem de 14 anos, aquele trabalho estava de facto excelente. O Teclas estava determinado a mostrar aos colegas o que valia e também à sua família.

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