quinta-feira, 28 de julho de 2011

Teclas, o Filatelista

João Paulo Mesquita Simões


Naquela manhã de Sábado, o Teclas e os seus pais, saíram de casa na zona da Mealhada até à Figueira da Foz onde moravam os avós do Teclas.
De cabelo espetado e louro, óculos redondos naquele semblante esguio, o Teclas, no seu corpo magro, vestia uma T-shirt preta com uma caveira na frente, umas calças de ganga coçadas e rasgadas e umas sapatilhas Adidas.
Munido do seu telemóvel, amigo inseparável e do seu Mp4, assim que entrou no carro, ligou o aparelho ao rádio, fazendo ecoar o batuque no seu interior.
- É fixe esta música, não é? – perguntou o Teclas aos pais.
- Zeca! Desliga isso! É insuportável! – exclamou o pai.
O Teclas, resignado, lá desligou o seu Mp4 do rádio do carro e enfiou os fones nos ouvidos e fez a viagem dentro do seu pequeno mundo.
Chegados à Figueira, aproveitaram o bom tempo para irem até à praia. O Teclas estava desejoso de ir para os avós, pois queria que o avô lhe ensinasse tudo sobre os selos.
Ao serão, e já depois de estarem bem instalados na casa dos avós, o Teclas contou ao avô o que se tinha passado naquela semana e a sua curiosidade pela Filatelia.
- Bem, Zeca. Se queres de facto saber como nasceu a Filatelia no Mundo, tens muito que ouvir! – disse o avô.
- “Tá-se” bem! Podes começar. Não me importo de apanhar seca.
- Mas que linguagem Zeca! – retorquiu o avô. – Bem vou então contar-te como tudo começou. A sua descoberta deve-se ao inglês Rowland Hill, que foi o grande reformador postal.
Conta-se que este homem se encontrava de passagem numa pousada escocesa quando o carteiro entrou e entregou uma carta à estalajadeira que disse que não podia ficar com ela por custar dois xelins, ser pobre e não poder pagar. Então, Hill pagou aquela quantia.
A mulher agradeceu-lhe, mas disse que tinha gasto escusadamente aquele dinheiro, pois era da família que vivia longe e cada um escrevia uma linha. Como ela sabia quantos eram naquela família e lhes conhecia a letra, sabia que estavam todos bem.
Hill pensou no caso e propôs uma taxa fixa e que os expeditores enviassem as suas cartas em pequenos sacos que, com um bocadinho de cola a toda a volta, depois de humedecida se aplicava. Mas esta ideia não foi aceite porque o público achou aquilo ridículo e os sacos tiveram de ser todos queimados. As pessoas só deram valor à etiqueta que acompanhava o saco porque lhe via comodidade.
Para ver o seu plano concretizado, Hill abriu um concurso entre artistas e homens da ciência, tendo aparecido 2600 planos e 1000 desenhos. Como não ficou satisfeito com os estudos apresentados, esboçou ele mesmo um projecto com o perfil da Rainha Vitória tendo no topo a palavra Postage e em baixo a inscrição da taxa. Confiou a sua execução a um gravador que copiou o perfil da monarca e cunhou de uma medalha já feita em sua honra.
Assim e por ser negro, chamou-se Penny-black e custava um dinheiro.
Estava apresentado o primeiro selo do Mundo que circulou a partir de 1 de Maio de 1840. Estava também lançado o que viria a ser o mais potente sinal posto na mão de alguém.
O sucesso foi enorme em Inglaterra e outros países lhe seguiram o exemplo. As máquinas não davam vazão perante tanta procura.
Presentemente calcula-se que em todo o Mundo circulem 50 biliões de selos. De entre eles, uns quatrocentos milhões não chegam aos serviços indo directamente para os álbuns dos coleccionadores.
- Que história bué da fixe! Então e como surgiram os selos portugueses?
- Os nossos selos surgiram uns anos mais tarde em 1852 e promulgados pela rainha D. Maria II. Mas só em Julho do ano seguinte saíu uma emissão de selos de D. Maria II idêntica à que tinha saído em Inglaterra – o mesmo perfil inspirado na rainha Vitória. O desenho foi confiado a um artista, Francisco Freire, que segue as directrizes combinadas e depois enviado para a gravação. Depois de feita e aprovada a gravura, é fabricada multiplicando assim as chapas da gravura em folhas de cinquenta ou cem unidades cada uma, sendo depois entregues à Casa da Moeda. O selo de D. Maria II não tem qualquer taxa, pois poderia circular em cartas de qualquer valor. Foi feita uma matriz muito maior do que o seu tamanho normal para ser retocada minuciosamente até ficar pronta. Exactamente como o Penny-Black.
- Amanhã conto-te mais sobre a Filatelia. Agora vou fazer companhia aos teus pais e à tua avó, que daqui a pouco são horas de deitar.


Fragmento do livro juvenil "Teclas o Filatelista" de João Paulo Mesquita Simões

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