quinta-feira, 5 de maio de 2011

Vultos da História e da Cultura



João Paulo Mesquita Simões


Trindade Coelho é natural de Mogadouro, concelho localizado no Nordeste, nas famosas
terras Mirandesas encaixadas entre o vale do Douro e a bacia do Sabor. Uma «vilinha
transmontana de origem árabe, a quase 1000 metros de altitude», segundo a descrição do
próprio. O modelado do relevo, a natureza dos solos e as características climatéricas emprestam à paisagem uma paleta de cores diversificada e mutante. São as estações que marcam os ritmos e os trabalhos rurais: por ali cultiva-se o olival, a vinha, o trigo e algum centeio; as hortas bordejam as linhas de água serpenteantes; nas terras altas do sul, os castanhais ondulam ao sabor dos ventos atlânticos; e as vacas, as cabras e as ovelhas
também fazem parte da paisagem e brindam generosamente quem os trata com a carne, o leite e a lã.
Foi neste cenário bucólico que Trindade Coelho abriu os olhos pela primeira vez, a 18 de Junho de 1861, e aí passou a sua infância. E jamais o renegará. Pelo contrário, essa recordação, cinzelada na sua personalidade sensível, marcará a sua vida e a sua obra, onde se destaca como mestre do conto rústico português.
Concluída a sua escolaridade básica em Mogadouro, Trindade Coelho vai, em 1873, para o Porto, onde prossegue os estudos no Colégio São Carlos. Recorda-os como «seis anos miseráveis, de uma obediência estúpida e passiva, sempre a toque de sineta», que só a boa camaradagem tornou suportáveis. Foi nesta cidade, quando ainda muito jovem, que se estreou nas lides jornalísticas com o artigo «Cepticismo», publicado num jornal local, com a assinatura «José Coelho». E ali redigiu também os seus primeiros contos: O Enjeitado (que só sairia a lume em 2001, pela mão de José Viale Moutinho) e Uma Trovoada. A avaliar pelos títulos, moíam-no também as saudades, sentimento a que o próprio autor confere poderes inspiradores: “Mas então o que são os meus contos?! Não sei. Talvez saudades; e tenho a certeza de que se vivesse na minha terra (…) não os teria feito…” Certo é que a febre da escrita cresce na mesma medida que os quilómetros que o afastam de Mogadouro. Em 1880, já na Universidade de Coimbra, onde cursou Direito, colaborou em vários jornais como, o Progressista (1882), Coimbra em fralda (1883), o Imparcial de Coimbra (1884), onde assinava com o pseudónimo “Belisário”; e fundou, outros como, A Porta Férrea (1881), que se tornou muito popular entre a academia, e a revista Panorama Contemporâneo (1883). Simultaneamente, escrevia crónicas para vários jornais de província, como Beira e Douro (Lamego, 1882), O Andaluz (Porto, 1884) e para o Diário Ilustrado, de Lisboa. Tanta actividade, associada, ao que consta, com alguma boémia, acabaria por redundar num “chumbo” logo no primeiro ano. Mas, 1885, conclui o curso, já casado e com um descendente. Dedica-se à advocacia, mas a vida não lhe corre de feição, sobretudo após a morte do pai, seu único amparo.
Ter-lhe-á então valido o auxílio de Camilo Castelo Branco, através do qual conseguiu ingressar na magistratura, como delegado do procurador régio, na comarca do Sabugal. A penúria de recursos acompanhá-lo-á até ao fim dos seus dias, constituindo uma causa provável para as suas crises de esgotamento nervoso, mas cimentando também um forte sentimento de repulsa pelas injustiças e uma atitude altruísta que se reflectirá quer na sua actividade como magistrado, quer no seu labor literário.
Do Sabugal passa a Portalegre, onde esteve quatro anos, tempo que a população local faz questão de integrar nas memórias do concelho. Também aqui, a par da sua actividade como magistrado, continua a dedicar-se intensamente ao jornalismo. São deste tempo as suas «Cartas Alentejanas», publicadas no Diário Ilustrado (1887-1889), que oferecem uma excelente sinopse das matérias que estimulam a veia criativa de Trindade Coelho: reflexões de natureza etnográfica, pedagógica, política ou jurídica, umas vezes mais incisivas, outras vezes temperadas de ironia, dão corpo às crónicas que então redige – um dos domínios onde se revelam os seus melhores dotes.
Colabora também com a Folha d’ Elvas (1888), a Aurora do Minho (Braga, 1888), o Novidades (Lisboa, 1888), a Revista Ilustrada, o Comércio de Portalegre (1889), além de fundar a Gazeta de Portalegre (1890).
Em 1891, depois de passar pela comarca de Ovar, é colocado em Lisboa, onde o aguarda uma tarefa “antipática”, como o próprio a classifica: a de fiscalizar a imprensa da capital que, na sequência do Ultimato Inglês, dá voz a uma forte contestação ao governo.
O desconforto com as exigências do cargo e com as críticas que lhe são endereçadas, não o demovem de escrever. Além de dar continuidade às colaborações que já tinha com periódicos da capital e não só, estreia-se na Ilustração (1891), n’ A Madrugada (Lisboa, 1892), funda a Revista Nova (1893) e, com o juiz Francisco Maria da Veiga, a Revista de Direito e Jurisprudência.
Por estes tempos conturbados, merece também destaque a defesa que assegurou, em África, de diversos concidadãos, presos e deportados, acusados de crime político: para todos conseguiu a absolvição, e para os falsos acusadores a prisão, como castigo, com prisão. Entre os muitos trabalhos de carácter jurídico que publicou, salientam-se os Recursos Finais em Processo Criminal (1897), com várias edições; Os Incidentes em Processo Civil (1903), Anotações ao Código e à legislação penal em vigor (1903) e o Roteiro dos Processo Especiais (1907). Fez também, em colaboração com o juiz Francisco Maria da Veiga, o projecto do Código do Processo Penal, e, a pedido do ministro, um extenso Regulamento do Ministério Público, que se manteve em vigor por muitos anos.
Regressado a Lisboa, a sua vida profissional conhece alguma instabilidade. Primeiro é colocado num tribunal fiscal; algum tempo depois, é transferido para Sintra e, finalmente, em Novembro de 1895, é colocado como delegado do procurador régio da 3ª Vara do 2º Distrito de Lisboa. Em 1907, durante a ditadura de João Franco ─ e, segundo alguns investigadores, na sequência da publicação de legislação que impõe aos procuradores a tarefa de fiscalizar a imprensa ─ pedirá a demissão do cargo, situação que o colocou em grandes dificuldades económicas e que, quiçá, motivou o seu acto desesperado: suicidouse, na sua casa, na Rua Larga de São Roque (actual rua da Misericórdia).
Além de toda a produção literária que disseminou pela imprensa periódica, Trindade Coelho publicou, entre outros: Os Meus Amores, o seu livro mais conhecido e também o mais conseguido (1891); Terra Mater, que saiu na colecção de brindes do Diário de Notícias (1896); In Illo Tempore (1902), narrativas da vida coimbrã (1902); Pão Nosso ou Leituras Elementares e Enciclopédicas para uso do Povo (1904); Manual Político do Cidadão Português (1906); Primeiras Noções de Educação Cívica (1906), Dezoito Anos em África (1898), vários Folhetos para o Povo e vários Livros de Leitura, para o 1.º 2.º e 3.º anos do ensino básico.

Rita Correia
(22/05/2008)

Bibliografia
COELHO, Trindade - Os meus amores: contos e baladas. Porto: Porto Editora, 1988.
In: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/EFEMERIDES/TrindadeC/Biografia.pdf
Nos 150 anos do seu nascimento, os CTT emitiram este selo, incluido na emissão "Vultos da História e da Cultura" em 14 de Março de 2011.

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