terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sem quê nem para quê


de Miguel Angel

Mais pra rechochuda, como os seios, e o traseiro arrebitado, sempre atraíram a preferência dos homens que ela conhecia. Sabia e gostava disso. Descobrira ainda adolescente essa atração e aprendeu a gostar de fazer o que todos eles desejavam fazer com ela. Um homem mais velho, vizinho no mesmo prédio de apartamentos onde crescera, lhe ensinara a arte, assim a ele se referia, do sexo e o quanto este podia ser alegre.
Nas horas extras, ensinou-lhe também a querer fazer, como uma profissão exercida com talento voluntarioso. E o campo inicial de treino e experiência foi no mesmo edifício.
Voando em línguas viperinas e ciumentas, chegou até os ouvidos de seu pai o que ela aprontava com os moços do prédio. E os não tão moços. Igual àquele, cuja esposa era também dona de uma das tais línguas. Motivo de sua expulsão do convívio com o pai, que, de tão severo e viúvo, preferiu lhe pagar o aluguel num outro lugar, a ter de aturar a vergonha de ter filha assim. Assim? E ecoou pelas escadas: Desavergonhada!
Mas esses eram ecos respingando em águas passadas, coisas da juventude. Agora não, com o tempo e a vida, aprendeu a evitar possíveis dissabores, como esposas e doenças venéreas. E depois de um aborto, aprendeu e jurou não deixar isso se repetir. Por isso, aos trinta anos, quando operou dos ovários, não foi por tumor e sim por sossego. Aborrecimentos, os quais podiam ser poupados sem aviltar nem a si nem a ninguém, era um de seus lemas. O prazer, sua bandeira. Inclusive na mesa, culpada pelos quilos a mais que às vezes alargavam sua cintura. Nada que dieta de alguns dias não conseguisse fazer voltar ao peso da semana anterior.
Recebera religiosa e mensalmente dinheiro do pai, até este falecer. Ao imóvel herdado, nem quis rever, contratou imobiliária para tomarem conta de seu aluguel. Preferia assim, um pagava o outro, e este, metade em espaço e custos, lhe fornecia dinheiro suficiente. Porque ela não era de gastar com frivolidades. Só quando as contas ficavam apertadas demais, pedia ajuda a alguns amigos, homens. Que amiga não tinha nenhuma. Mas quando o fazia era por necessidade urgente, coisa rara. Devolvia em espécie. Mas no seu estilo, e eles assim preferiam, único, pessoal, divertido e discreto. Afinal, a maioria era de homens comprometidos. Coitados.

Ananita era assim, uma mulher quase ingênua, quase devassa, quase libertina, costumada em sexo e descomplicada.
Não tinha preferências muito exigentes a respeito da maneira de fazer sexo, da aparência ou idade da pessoa.
A excitavam também as situações divertidamente eróticas, às vezes mais compensadoras que a penetração propriamente dita. Como excitar homens dentro de ônibus apinhados, roçando o traseiro nas suas virilhas até sentir a ereção que devia provocar-lhes o gozo. Ela sorria discretamente. Libertina.
Ou excitar os coitados dos garotos da vizinhança com a exibição de seus seios ao léu na sacada do apartamento; lunetas brilhavam ao sol e à lua quando nua se pavoneava por ela.
Ou fazer sexo oral nos locais mais curiosos ou perigosos de serem surpreendidos, a ela e ao dono do que tinha na boca:
na sala de um cinema;
na casinhola do vigia de prédio ou casa em construção;
atrás do balcão do zelador;
no descanso de escadas entre andares;
debaixo da mesa de um bar;
no ambulatório de fábrica;
na sala de consultório de médico;
no banco traseiro de táxis ou dianteiro, no motorista do próprio.
Ela era muito popular nos pontos de táxis na periferia de sua casa. Muitos deles, quando a vêem passar, fazem questão de oferecer-lhe carona.
Estes, da mesma forma que os outros profissionais, cada um na sua área, nada lhe cobravam pelo serviço prestado.
Os técnicos chamados para consertar os mais diversos problemas da casa, a esses, ela seduziu quase todos.
O que arrumara o equipamento de vídeo, nada cobrou por isso: contentou-se com assistir um filme pornô bem junto dela;
o homem que deixou em estado de novo o aparelho de som: um tango sensual bem apertado com ela nua, e não se fala mais nisso;
nem aquele que, após consertar o chuveiro, testou seu bom funcionamento tomando banho juntos.
Enfim, todos consideram o sistema de pagamento muito satisfatório. Na sua maioria, telefonam de vez em quando para saber se está precisando de algum serviço novo. E ela diz que sim, mesmo sem precisar, só para se divertir e alegrar o outro. A maioria homens infelizes de tão casados. Coitado
, ela pensa, e responde, sim, pode vir.
Ananita era assim, uma mulher quase pura, quase devassa, quase libertina, costumada em sexo, descomplicada e popular. E puta, mas sem-vergonha.
Mas...
Essa solidariedade entre ela e as pessoas, iria mudar. Sem quê nem para quê, num abrir de pernas e fechar de olhos, um fim de semana inteiro passado com aquele homem sem nome, não fora o bastante.
Tão feliz e encantada se sentira ao seu lado, que nem percebeu o perigo, quando a segunda feira lhe fez sentir um vazio nunca antes experimentado. Foi um dia que não existiu.
Na terça, quando foi atrás dele procurá-lo, mesmo sendo a primeira vez a fazer isso, não se deu conta da gravidade da alteração que estava ocorrendo. Ao não encontrá-lo onde o conhecera, o aborrecimento foi tanto, que bem poderia ter sido um alerta, mas ela dispensou o indício naquele mesmo dia, com uma risadinha e um "pode vir", a um técnico tão solícito, como tesudo.
A quarta-feira não existiu.
A quinta-feira começou a doer logo de manhã:
O sol irritava: fechou as cortinas.
O rádio e suas músicas pareciam chiados: desligou.
O café: frio; o leite: fervido; o pão: amanhecido; a margarina: sem gosto.
Todos: no lixo.
Almoço: arroz, feijão, salada e milanesa, ao lixo.
Sobremesa: garrafa de vodka.
Ceia: o nunca experimentado tédio, por que impensado. (não se dava conta Ananita, que era medo dela sair de casa e aquele homem não a encontrar se aparecesse. Ou então a encontrasse, sim, mas transando com alguém. Por isso e pela primeira vez, amigos e técnicos empedernidos ouvem como resposta: "hoje não vai dar".
Começara, pela primeira vez, a esperar um homem. Especifico.)
Graças à ansiedade de Ananita, a sexta feira deu um pulo e caiu atropelante no sábado de manhã. Daí, à sua ordem, o sol desapareceu do firmamento em minutos. E a noite se acendeu com a varinha mágica em forma de campainha, tocando uma nova musica: em allegro vivace e cantabile
. Seria ele atrás da porta, sabia. O corpo, coberto com seu vestido mais querido e debochado, o anunciava com a respiração anelante; o tremor nos joelhos; as mãos úmidas; a língua umedecendo os lábios pintados; os olhos sem conseguirem se fixar em nenhum objeto em particular. Não era o bastante? Sem dúvida, deslizou até a porta, nem olhou pelo seu visor, apenas a abriu.
O homem sem nome estava lá. Com sorriso e garrafa em uma mão, na outra, uma flor vermelha.
Ananita no esplendor da alegria, pegou a garrafa, cheirou a flor e beijou o sorriso.
Noite de sábado, o carnaval de volúpia, em todas suas formas, lavou os tédios e as aflições. E engravidou Ananita de alegria nova. E diferente, por que nunca experimentada igual.
Domingo em allegro molto vivace, maestoso
, segundo dia de seu carnaval.
Segunda-feira, a alegria foi abortada no momento de aperceber-se sozinha na cama ao acordar. Doeu. Depois, atarantada com a ausência, dormiu a ressaca até terça-feira.
Sem terça-feira.
Na quarta-feira, medo. Agora nem mais atendia as chamadas: para quê? amigos e técnicos empedernidos continuariam a ouvir: "hoje não vai dar".
Quinta-feira de manhã: medo, solidão e promessa.
Quinta-feira de noite: medo, solidão, promessa e lágrimas.
O medo: a dependência sempre evitada, por que nunca sabida.
A soledade do apartamento: seu corpo e sua mente sentem faltar pedaços.
A promessa: acabar com a dependência.
As lágrimas: por medo de não querer evitar esse sentimento, mesmo que doa, agridoce.
A pergunta faz chiado de pneumonia no seu peito: Aquilo seria amor, paixão?
Ananita percebe estar só, pela primeira vez.
Quem vai lhe devolver o perdido?
Os coitados dos técnicos?
Os coitados dos motoristas de táxi?
Ou os coitados dos moleques da vizinhança?
"Coitada é Ananita", pensa ela. "Ai...", suspira.
Sexta-feira nunca existiu.
O sábado e o sol entram pela janela; igual a um flash barulhento, o sol acorda Ananita, e o sábado inunda tudo de expectativa. Dia do recreio tenso.
Ananita ouve música sem ligar o rádio, come, bebe, canta, dá uns passos de dança, mas sempre junto com sua nova companheira: a expectativa.
A tarde vai caindo e Ananita deitada na cama, está cansada de receio. E sua nova companheira, alimentada pela sua ânsia, fica mais forte a cada minuto. E, barulhenta, se mete em toda parte, lhe serve bebida, lhe indica o quê vestir; atrevida lhe mostra a imagem no espelho e ri de seu corpo, debocha das banhas, dos seios caídos. Chata, jura: ele não virá, por que ela está feia. Por que é uma puta sem-vergonha que não merece.
Já é noite. Impertinente, sua amiga desconfiada vai se tornando agressiva, enquanto lhe serve constantemente de mais bebida. E lhe canta a media voz:
Quem esse homem?
Onde, com quem ele vive, de quê?
Que tem que ninguém tem?
É lábia? É pau? É língua?

Coragem para lhe pedir para não mais ir embora?
Ficar com ela para sempre, aqui, nesta putaria mixuruca?

Entende metade das poucas palavras que ele diz?
Jurou alguma vez amor, paixão ou coisada assim? Ele prometeu algo?
Responde, gorda ridícula!
Como resposta, Ananita jogou-lhe a garrafa vazia de vodka na boca escancarada e quebrou o espelho, depois desmaiou sobre os cacos.
Silêncio em adágio.

Domingo, Ananita jogada no chão sobre os pedaços do espelho, tão imóvel, parece morta.

E tem sangue no rosto.
Domingo não vale.

Segunda-feira, ela está um caco, maior àquele incrustado no seu rosto que ela arrancou aos poucos. Mas deixou sua marca encima do lábio, aí, perto do narizinho. Apesar de seu esforço e vontade, fragmentos de sua agora inimiga expectativa se arrastam pelos cantos. Ela tenta ignorá-los.
Cuida da cicatriz no seu rosto com curativo. É melhor e coisa feia ficou...
Coitada, Ananita
suspira ela. "Ai, ai...", geme duas vezes.
Em poucos minutos já é noitinha e ela sai para a rua.
No ponto de táxi na periferia de sua casa, os motoristas de plantão a vêem passar, alguns lhe perguntam: "Essa ferida na cara"; "Esse sumiço todo"; "Quem fez isso"; "Quem é o cara"; "Vai pro ambulatório"; "Sobe, te levo"; "Se pego o nojento que fez isso"; "Cês viram? Coitada, minha... nossa querida Ananita".
Quase madrugada ela volta do pronto socorro.
Dói a ferida debaixo dos curativos. Dói o corpo. Os olhos. O peito.
Dói até abrir a porta e dói também entrar.

Deitada na cama, pergunta a media voz: Aquilo é amor, paixão?
Ai..
, suspira ela. Como dói..., geme três vezes antes de dormir sem sonhos.

Um comentário:

Joao Paulo Mesquita Simoes disse...

Pois é uma bela história da mais velha profissão do mundo, que nos mostra que envelhecemos rápido sem dar conta...

Abraços!

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