sábado, 7 de agosto de 2010

PREGUIÇOSOS

Conto de Gustavo do Carmo
Foto: Portal www.ionline.pt

Conheceram-se no Instituto do Sono. Ele para investigar a causa do seu sono excessivo. Ela para buscar uma causa para a sua insônia. Ele se chamava Pacífico. Ela, Sônia. Pacífico era taxado de preguiçoso pela família. Sônia também. A moça não tinha sono. Só não gostava de fazer as tarefas. Se necessárias, deixava sempre para a última hora.

Sônia usava cabelos curtos. Tinha preguiça de passar horas penteando. Cortá-los no salão era mais fácil. Pacífico era careca. Para ele, a calvície foi uma benção. Só tinha o trabalho de aparar os poucos cabelos que tinha.

Na clínica onde se encontraram, Pacífico e Sônia conversaram muito antes da consulta. Uma conversa preguiçosa, aliás. O papo durou muito tempo, mas as palavras trocadas foram curtas. Apenas breves frases. Driblaram um pouco a preguiça e trocaram e-mails.

As conversas preguiçosas por e-mail evoluíram para os papos pelo telefone. Estes evoluíram para os encontros pessoais. Pacífico e Sônia iam ao cinema, ao teatro e restaurantes. A amizade se transformou em romance. O primeiro beijo foi dado na praça do bairro, depois que ambos venceram juntos a preguiça para se encontrarem um com o outro.

Além da preguiça, Pacífico e Sônia tinham outra coisa em comum: os dois eram funcionários públicos. Trabalhavam durante meio expediente. Ele, de manhã, no Banco do Brasil. Ela, à tarde, como arquivista de um posto de saúde. Ao final do trabalho, Pacífico chegava em casa e ia dormir. Só acordava na hora da novela das oito, à qual assistia da sua própria cama. Sônia chegava em casa à noite, sentava-se no sofá e ficava o resto da noite no ócio. Como passaram nos concursos? Na sorte.

Depois que se conheceram no Instituto do Sono, Pacífico e Sônia foram curados dos seus problemas. Ele passou a dormir menos. Ela deixou de ter insônia. Os dois só não deixaram de ter preguiça.

Quando a mãe idosa de Pacífico não podia cozinhar e a empregada de Sônia faltava, eles se alimentavam de comidas de delivery. Aliás, ela morava sozinha. E ele com os pais.

O casal só driblava a preguiça para se encontrar. Decidiram juntar as suas preguiças e morar juntos. O casamento veio bem depois. Quando os dois enfrentaram a preguiça para ir ao cartório dar entrada na certidão. Casaram-se no civil porque tinham preguiça de preparar a cerimônia e a festa.

Pacífico e Sônia tiveram dois filhos: Serena e Morpheo. Ela adorava amamentá-las, pois podia ficar sentada e relaxada. Quem fazia as papinhas, esquentava o leite, trocava as fraldas e tomava conta dos meninos quando os pais estavam no trabalho era a empregada do casal, que aliás, trabalhava para Sônia desde quando ela era adolescente. Pacífico e Sônia só brincavam e lambiam as crias. A babá eletrônica, também, era bem eficiente. As crianças cresceram sadias e preguiçosas.

Um dia, o apartamento onde a família Pedreira (sobrenome de Pacífico) se incendiou. O curto começou na tomada do carregador da babá eletrônica que, mesmo com o caçula Morpheo tendo crescido até os oito anos, ainda era usada e ficava no quarto das crianças. Pacífico, Sônia, Serena e Morpheo, reunidos na sala, sentiram algum cheiro queimado, mas ficaram com preguiça de ver o que era. O fogo se alastrou por todo o apartamento.

Nenhum comentário:

Arquivo do blog