terça-feira, 31 de agosto de 2010

de Miguel Angel
  Arrastada pelo grupo que a capturara, Amanda, condenada às sevícias se renovando em crueldade ao sabor da escolta que a vigia; à alimentação rala que não demove a fome nem supre carências, às noites friorentas, à chuva que encharca os ossos, ao coaraci queimando a pele e o ar que respira, as ameaças de morte com que tentam aterrorizá-la são badaladas de bons augúrios para quem a vida tornou-se pesadelo e a cada noite fantasia nunca mais despertar. E é numa dessas noites de escuridão insondável, que sonha acordar com ruídos surdos provocados por silhuetas sombrias que levam punhal nos dentes e nas mãos, o barulho é das gargantas cortadas da soldadesca que morre dormindo, inermes pelo álcool e o cansaço. Amanda sonha que, com prontidão, é alçada do chão, e inquietas silhuetas de soldados a cercam, a agarram e, puxando-a pelos braços, levam-na consigo; embrenhando-se na noite, é conduzida por trilhas, passa riacho; passa matagal; pula vala; arrastada ao tropeçar e cair; correndo quando quer estacar; e por fim, desperta do sonho que não era e a madrugada inebriante da selva ilumina um bando de mulheres exauridas e maculadas de sangue, dos cabelos aos esfarrapados uniformes que envergam. Apresentam-se como Amazonas Paraguaias, cujo lema e causa é morte aos tiranos; vida longa aos pais, filhos e irmãos; desforra por eles mortos é outra divisa a nortear a bravura e a impiedade nas matanças.
Amparada por elas, Amanda, instada pelos padecimentos e pelo ódio a seus algozes, se somará ao bando e com ele marchará vagando por serras e areais, se alimentará de víveres roubados e de raízes e vermes silvestres; beberá nos córregos; galgará montes; carregará pesadas caixas de projéteis surrupiados dos inimigos e, a cada semana, o batalhão farroupilha irá crescer em número com sobras de famílias paraguaias, que preferem o perigo e o desconsolo das matas, a sujeitar-se aos ultrajes do exército ditador. Porém, o ódio que as municia, engendra desagravo contra os homens de qualquer exército e, predispostas a morrer, o farão matando nas barricadas improvisadas ou assombrando no abismo das noites, compondo sua própria legião, rediviva depois de cada embate. Se aprisionadas, serão queimadas vivas como Joanas santas, pagarão o preço da revolta com mutilações em seus corpos franzinos, e na fileira de fuzilamento, gritarão liberdade e morte aos déspotas de todos os confins.
Na fogueira dessa sua nova aurora, Amanda teve seu nome convertido em "Lluvia".
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Extraído do romance "Sobre Moscas e Aranhas de Guerra" de Dalton W. Reis
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domingo, 29 de agosto de 2010

Por Ed Santos

Eles se conheceram num curso. Passaram a descobrir alguns valores juntos. Ela adorava estar na presença dos amigos. Sempre um pouco mais reservada, o que ajudava a atraí-lo. Mas isso era inocente, era o jeito dela. O outro amigo era sonhador, poeta. Vivia listando trechos de música e divertia os amigos com suas várias palavras. Mas passava o ar de ser meio desligado das coisas. Algumas das atividades do curso sempre faziam juntos. Vez por outra a Giane participava. Num dia saíram os quatro, ficou marcado. Estavam na biblioteca municipal e ao saírem pra lanchar, ouviram uma música que a Giane imediatamente disse adorar. Passou.

Depois de um tempo, foram juntos em uma entidade externa conhecer as instalações de uma mineradora. A paisagem era linda e num momento estavam só os dois amigos por ali. O resto da sala havia ido ver um outro local. Ficaram contemplando a paisagem e de repente começou a chover no caminho até o abrigo. Se abraçaram e subiram a trilha cantarolando (essa cena marcou). Foi ai que aconteceu. Ele então percebeu que havia algo ali. Havia algo maior que a amizade. Ela o beijou e não trocaram nenhuma palavra após. Continuaram andando e encontraram a Giane. Uma música começou a tocar e nos primeiros acordes ele vira e diz:

- Essa você adora né Giane? A música nem começou direito e você já sabe qual é!

Ele realmente havia acertado. A Giane começou a chorar.

- Choro porque sei que vocês estão apaixonados.

- O que você está falando?

- Vi vocês se beijando. Vi a reação dos dois. Nenhuma palavra. Olha, sei que é difícil pra entender mas eu sinto um amor muito grande por vocês dois.

- Como assim?

- Não sei. Só sei que sinto. Amo você com todas as forças que tenho, e amo você também Edite, na mesma proporção.

- Que? – perguntou Edite confusa.

- É isso mesmo! Sinto que estou numa enorme confusão sentimental aqui comigo. Sinto meu peito acelerar toda vez que vejo cada um de vocês. Nossas vidas tiveram esse encontro mágico e não sei mais pensar em outra coisa durante o dia todo a não ser vir pro colégio pra encontrar com vocês.

- Giane, olha aqui. Primeiro, você não viu nada. Não aconteceu nada que você possa ter visto. Segundo, a gente é amigo, só amigo, e você está com essa conversa fiada aí de amor! Ora, faz favor!

- Sei que você não entende Edite, mas é o que eu sinto. Toda noite quando deito em minha cama é em você que penso, e depois, me lembro de você Chico. Fico numa confusão danada aqui dentro e isso estava me matando. Precisava contar pra vocês. Ainda mais agora que vi vocês dois se beijando. Ai como queria estar no lugar de um de vocês.

- O Giane, pode para com essa palhaçada aí. Não tem esse papo de beijo. Você ta vendo coisa.

E com o semblante de quem estava se convencendo da situação, Edite diz:

- Sabe Giane. Eu estava quase ficando meio doida com essa história ai. Mas ouvindo você falar e deixando de lado meu egoísmo, vi que você tem até um pouco de razão.

- O que que é isso Edite? – diz Chico, meio assustado.

- É isso mesmo Chico. A gente sempre foi muito amigo desde que nos conhecemos. A gente sempre tá junto e é natural que isso aconteça, ainda mais na nossa idade, nessa fase de descoberta. Eu mesma confesso que já pensei em algo assim. Me diz aí Chico, se você nunca pensou eu ficar com as duas ao mesmo tempo?

- Você bebeu?

- A Chico para de coisa, assume logo, vai!

- Nada a ver Edite! Imagina, eu ficar pensando nessas coisas!

- Giane amiga, homem é assim ta vendo? Não conseguem assumir suas emoções.

- Não é isso! Na verdade até já pensei em ficar com as duas, mas uma de cada vez.

- Bom eu até acredito, e peço pra gente tentar fazer um acordo.

- Acordo, que acordo? – perguntou Chico.

- Olha Edite, eu prometo que se vocês quiserem eu não conto esse meu sentimento pra ninguém. Também não fala nada que vi vocês dois se beijando.

- Não é nada disso Giane. O que eu quero dizer é: por que a gente não tenta viver essa situação? Por que que a gente não namora os três? Já pensou Chico você com duas namoradas?

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quinta-feira, 26 de agosto de 2010


João Paulo Mesquita Simões


História do teatro
O Teatro até à Idade Média



O teatro é uma das mais antigas expressões artísticas do Homem, que sempre lhe dedicou espaços arquitectónicos notáveis, principalmente na Época Clássica e, depois, no Renascimento, até aos nossos dias. Pode ter nascido já no III milénio a. C., no Antigo Egipto, com as celebrações em torno dos momentos marcantes da figura do faraó, principalmente naquilo que o divinizava ou fazia dele senhor das suas terras e súbditos. Esta sacralidade vigorará na Antiguidade Clássica, quando se representavam as façanhas dos deuses, como Dioniso, ou tragédias e episódios da criação do Homem e do mundo. Recorde-se que o termo teatro para os Gregos, como para os Romanos, designava o espaço cénico e o espaço da assistência, o conjunto arquitectónico onde se desenrolariam géneros como o drama ou tragédia, a comédia, os enredos, etc.
A tragédia foi o género que mais cedo ganhou notoriedade, porque era considerado também o único representável, como renovação do indivíduo através da morte ou do sofrimento. Os maiores autores de tragédias foram os atenieneses do século V a. C. Ésquilo, Sófocles e Eurípides. Fatalista, heróico, musical também, convidativo à meditação e à filosofia, para Ésquilo era o coro o principal elemento cénico na obra teatral. Sófocles surgiu já como um tragediógrafo mais próximo do ideal do cidadão, conciliando poesia, política, ideais de cidadania e espírito atlético, numa versão mais humanizada da tragédia. Ambos os autores se mantiveram sempre dentro do cânone da tragédia, o que já não fez Eurípides, mais revolucionário e vanguardista, pois pretendia, por exemplo, desagrilhoar o indivíduo da religião e das instituições. Veio depois a comédia, com Aristófanes, por exemplo, mas como instrumento de sátira e crítica do mundo, de idealismo político e vivencial. Depois do século IV, surgiria a "nova comédia", com Filémon e Menandro, mais trivial e divertida, como fariam os Romanos com o grande Plauto, um criador de géneros cómicos, mas sempre crítico e reflexivo.
Na Índia, onde o teatro engloba também a dança, a expressão corporal e o canto, a representação servia principalmente para relatar epopeias e histórias das origens, num esplendor de expressões e sentimentos. A canção e a dança eram também importantes no teatro da China antiga. O argumento tinha pouca importância, valendo mais as cenas em si, com o seu movimento. No Japão, é de realçar o teatro de marionetas, frequente a partir do século XVIII.
No Ocidente, entretanto, com a queda do Império Romano, também o teatro desapareceu até perto do ano mil, altura em que surgiram os jograis itinerantes com as suas canções e enredos cómicos e satíricos. Mas o teatro religioso foi aquele que mais marcou a Idade Média, tendo tido a sua origem nos dramas litúrgicos em Latim, que eram talvez representados nas escolas catedralícias ou monásticas por mestres e estudantes. Os clérigos, nas grandes festas religiosas, representavam estes dramas nos santuários, o que é assinalado desde o século XI na Alemanha, França e Inglaterra. O século XI trará as línguas vulgares e o profano ao teatro medieval, nos adros das igrejas com actores laicos a representar. Estamos no tempo dos mistérios (temas do Antigo ou Novo Testamentos), dos milagres (das vidas de santos), dos autos, das moralidades (os temas mais recorrentes eram a morte, o desejo e a fé), dramas onde muitas vezes surgiram temas escatológicos e milenaristas (por exemplo, o Jogo do Anticristo, da Baviera do século XI, ou Esposo, drama francês do século XII). Recordem-se nomes como os do francês do século XV, Arnoul Gréban (o seu Mistério da Paixão demorava quatro dias a representar e tinha mais 35 000 versos!), ou de Duzentos, o também francês Rutebeuf, com o seu Milagre de Teófilo. A Idade Média também tinha "teatro" cómico, com as farsas. Em Portugal, surgiu, em finais do século XV e meados da centúria seguinte, o teatro de Gil Vicente, de gosto medieval mas, de certa forma, de temática profana já renascentista.

O Teatro do Renascimento às Luzes


O Renascimento, de facto, foi a idade de ouro do teatro europeu. Apesar das limitações ao profano que o Concílio de Trento logo em 1548 tentou impor, o teatro perdeu a sua quase exclusiva componente sacra da Idade Média. Assumiu-se cada vez mais como "teatro popular", mas já mais "profissionalizado", com a comédia separada da tragédia e com os autores a ganharem importância e independência criativa. O carácter sacro não se perdeu, porém, principalmente em Espanha (com os seus autos sacramentales). A comédia ganhou novo alento na Itália, graças à influência do folclore, assistindo-se ao apogeu da commedia dell´arte, com a Pulcinella ou o Pantalone, que influenciaria imenso vários autores, como, por exemplo, Molière. O teatro "nacional" desenvolveu-se, principalmente em Inglaterra e Espanha, evocando as memórias antigas e os feitos e grandezas do passado, misturando o mundo da cavalaria com os clássicos redescobertos. Isso mesmo pode ver-se em Shakespeare, um autor do seu tempo e dos tempos antigos, com o seu Falstaff, por exemplo.
Os adros das igrejas eram entretanto substituídos por novos "palcos", mais profanos, mais concorridos e com públicos mais diversificados: da estalagem às praças, das feiras aos salões reais. Aparecem as companhias, os géneros, os guarda-roupas e cenários, e até lucro com os bilhetes das peças, por via de investimentos importantes, mecenato ou actores particulares (reis, famílias...). Os grandes autores deste teatro renascentista foram, para além de Shakespeare, Lope de Vega e Marlowe, Beaumont, Fletcher ou Ben Jonson, entre outros.
O teatro não mais deixou de ganhar em fulgor e redescoberta, apurando-se géneros como a comédia, principalmente, graças a autores como Marivaux e Beaumarchais, em França, ou Goldoni, em Itália. A ópera, uma das grandes paixões do século XVIII, conferiu ainda mais força ao teatro. A tragédia, que evoluiu mais para o drama e para o melodrama, declinou nos séculos XVII e XVIII, pois mantinha ainda um profundo sentimento social e religioso. A tragédia heróica, de Corneille ou Racine, será uma excepção a esse declínio.
Na segunda metade do século XVIII, com Voltaire, o teatro adapta-se à sua época, simplificando-se cenicamente, em relação à ópera, principalmente. Se o repertório é ainda o do século XVII, de Racine, Shakespeare, Molière, dos espanhóis, os espaços são já diferentes, mais apropriados e dignificados cenicamente, tanto em teatros como em palácios ou abadias imperiais (como Einsiedeln, dos Esterházy). Entretanto, o século XVIII verá nascer dois novos géneros, a comédia sentimental, com o irlandês Steele, e a tragédia doméstica, com o inglês Lillo.

O Teatro do Romantismo à actualidade

O Romantismo irá, no entanto, pôr de lado os cânones barrocos e rococós, conformistas e desadaptados aos novos tempos. O teatro romântico ganhou notoriedade com figuras como Victor Hugo (Hernâni), Zorrilla (D. Juan) ou Rostand (Cyrano), para além dos alemães Goethe e Schiller. Se os primeiros revisitam valores antigos, figuras alegóricas e folclóricas, sob uma nova roupagem nacionalista ou exemplaridade, os segundos partem para a procura do Homem em se conhecer a si próprio. O teatro romântico chegou também à Rússia, com Pushkin e o seu Boris Godunov. Em Portugal, destaca-se o mais notável exemplo de teatro romântico: Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett (1843).
Surgirão, depois, o Realismo e o Naturalismo, em finais do século XIX, com Ibsen, Tchekov ou Strindberg, Galsworthy e O´Casey. O indivíduo libertava-se de amarras morais e éticas desadequadas aos novos tempos e à condição humana, rompendo com determinismos estáticos e inertes, valorizando-se como ser social. O Expressionismo, de certo modo anti-realista em termos de teatro, surge no primeiro quartel do século XX, baseado na valorização cénica como modo de reprodução de ideias, na mecanização da sociedade e no repensar da importância do subconsciente e da interioridade psíquica do indivíduo. A Alemanha foi o país onde o Expressionismo teve maior força, com autores como Werfel, Kaiser ou Toller.
No Teatro Contemporâneo, cujo início pode coincidir com a Primeira Guerra Mundial, há que recordar a comédia social, criticamente mordaz mas divertida, como se vê em Somerset Maugham, Molnar e o magistral Bernard Shaw, com as suas figuras-tipo em confronto com as velhas e deturpadas ideias românticas da sociedade. Depois virá Elliot, com valores renovados como o heroísmo, a confiança e até a religião, ou até Miller e Tennessee Williams, nos EUA, e Garcia Lorca, em Espanha, que valorizavam a realidade social e histórica nas suas obras. Em França, surgirão Anouilh, Camus e Sartre, depois do "teatro psicológico e experimental" de Jean Cocteau ou Mauriac. Os primeiros, autores existencialistas, privilegiavam a procura da personagem como sujeito de decisões morais. Pirandello, em Itália, era uma referência nesta altura, como os existencialistas Favri e Buzzati. Todavia, a maior figura do teatro do século XX foi o alemão Brecht, que procurava a "desintoxicação do Homem". Em Portugal, destaquemos, depois da Segunda Guerra Mundial, Alves Redol, Jorge de Sena ou Bernardo Santareno, entre tantos outros autores da questão social do Existencialismo. Entretanto, surgiu a Vanguarda, nos anos 50, com os ingleses Pinter, Osborne e Behan, com o seu teatro do realismo social, que teve nos franceses Beckett (irlandês, mas escrevendo em francês), Adamov e principalmente Ionesco (com o seu "teatro do absurdo") os seus maiores expoentes, que valorizaram a situação em detrimento do carácter. Tardieu, Genet e Arrabal manterão vivo este teatro de Vanguarda em finais do século XX.
Entretanto, há que referir o teatro infantil, que desde sempre existiu, da China Antiga à Inglaterra de finais do século XVI, mas que ganhará relevo com a importância que a criança adquiriu no século XIX, principalmente nos regimes comunistas, como sucedeu na ex-URSS com o célebre Teatro Infantil de Moscovo, dirigido por Natalie Satz na primeira metade do século XX. Muitas outras companhias surgiram nesse século em todo o mundo, recriando velhos clássicos como Peter Pan, Alice no País das Maravilhas e Branca de Neve, como não deixou de suceder em Portugal, onde, como no resto do mundo, surgiram autores especializados em teatro infantil.



Gil Vicente

Nascimento: c. de 1465, Guimarães (?)
Morte: 1536 (?)

Não há dados exactos quanto à data e local do nascimento de Gil Vicente. Contudo, e de acordo com Jacinto Prado Coelho, in Dicionário de Literatura, parece ter nascido em Guimarães por volta de 1465. Por outro lado, também não há dados absolutos que possam confirmar a teoria de alguns estudiosos que defendem que este Gil Vicente, "poeta dramático", seja o ourives da rainha D. Leonor, autor da célebre e riquíssima custódia de Belém. A coincidência do nome e a contemporaneidade de ambos apontam, todavia, para esta possibilidade.
Embora desde sempre tenham existido tentativas no sentido de atribuir a este autor uma grande cultura, não está comprovado que este tenha frequentado a universidade e aprendido o latim do Renascimento. Porém, pode afirmar-se que era detentor de um espírito conhecedor, dominando bem, enquanto católico e músico, a poesia litúrgica latina. Também o conhecimento do castelhano lhe franqueou as portas da cultura religiosa e profana.
A transmissão da sua obra confrontou-se com dificuldades várias. Inicialmente, os seus autos eram divulgados à medida que iam sendo escritos, em folhas soltas. Na verdade, Gil Vicente iniciou o trabalho de compilação das suas obras completas, mas, antes de morrer, apenas foi capaz de reunir algumas das folhas e manuscritos e de redigir a dedicatória ao rei D. João III. Assim, esta compilação só foi concluída e impressa, em 1561-1562, pelo seu filho Luís Vicente, já não conseguindo escapar à "mão inquisitorial" estabelecida em Portugal em 1536, ano provável da morte do autor. Na verdade, o Index de 1551 refere já sete autos vicentinos que ou foram totalmente censurados ou autorizados depois de expurgados. Em 1561-1562, quando Luís Vicente edita as obras completas de seu pai, a censura do Tribunal do Santo Ofício parece ter sido um pouco mais branda e o Index de 1564 não refere nenhuma obra vicentina. Segundo Jacinto Prado Coelho, in obra citada, "é difícil não reconhecer a influência da Rainha D. Catarina, de quem Paula Vicente, filha do poeta, era 'moça de câmara'", considerando assim que aquela terá influenciado a alteração de critérios de censura subjacente à elaboração do Index de 1564.
Apesar da alegada influência real, esta compilação de 1561-1562 parece, contudo, dever muito à autenticidade, conforme podemos concluir pela comparação feita com a única folha volante do tempo de Gil Vicente, hoje conservada. Este estudo comparativo, infelizmente, permite aferir a mutilação da obra vicentina, pois o próprio filho do poeta parece ter confessado que se lhe arrogou a missão de "purar" os textos que recolhera, fazendo cedências imperdoáveis à censura. Aliás, esta benevolência inquisitorial foi "sol de pouca dura", como provam os graves atentados feitos à obra, no Index de 1581.
Considerado o "pai" do teatro português, Gil Vicente já tivera contacto, em Portugal, com representações litúrgicas, por altura do Natal e da Páscoa, e com algum repertório cómico de "feição improvisada e não literária", como os momos aristocráticos e cortesãos, considerados como as primeiras manifestações teatrais em Portugal.
Autor de uma obra variada, que ele próprio divide em comédias, farsas e moralidades, Gil Vicente não teve apenas preocupações de realização literária. De facto, e de acordo com J. P. Coelho, in História de Literatura, na sua obra "palpita de modo espantosamente vivo a sociedade portuguesa do primeiro terço do século XVI, com as suas classes, os seus vícios, os seus impulsos intelectuais e religiosos", a qual critica através da sátira, partindo da máxima latina ridendo castigat mores.
A sua crítica é profundamente mordaz, apresentando clérigos sem vocação, escudeiros parasitas e ociosos, fidalgos corruptos e vaidosos, profissões liberais que assentam na exploração das camadas populares, alcoviteiras que actuam sem escrúpulos para defenderem os seus interesses, e até o povo humilde que, passivamente, se deixa explorar pelos cobradores e frades. Não criando personagens que correspondam a indivíduos específicos, o teatro vicentino cria antes personagens que caracteriza como tipos sociais e "que funcionam apenas como símbolo de uma classe ou de um grupo social ou profissional". Na verdade, o que mais lhe interessa são os casos sociais que melhor lhe permitem fazer a sátira de costumes.

In: http://www.infopedia.pt/que_newsletter.jsp?id=5
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terça-feira, 24 de agosto de 2010


de Miguel Angel

Mais pra rechochuda, como os seios, e o traseiro arrebitado, sempre atraíram a preferência dos homens que ela conhecia. Sabia e gostava disso. Descobrira ainda adolescente essa atração e aprendeu a gostar de fazer o que todos eles desejavam fazer com ela. Um homem mais velho, vizinho no mesmo prédio de apartamentos onde crescera, lhe ensinara a arte, assim a ele se referia, do sexo e o quanto este podia ser alegre.
Nas horas extras, ensinou-lhe também a querer fazer, como uma profissão exercida com talento voluntarioso. E o campo inicial de treino e experiência foi no mesmo edifício.
Voando em línguas viperinas e ciumentas, chegou até os ouvidos de seu pai o que ela aprontava com os moços do prédio. E os não tão moços. Igual àquele, cuja esposa era também dona de uma das tais línguas. Motivo de sua expulsão do convívio com o pai, que, de tão severo e viúvo, preferiu lhe pagar o aluguel num outro lugar, a ter de aturar a vergonha de ter filha assim. Assim? E ecoou pelas escadas: Desavergonhada!
Mas esses eram ecos respingando em águas passadas, coisas da juventude. Agora não, com o tempo e a vida, aprendeu a evitar possíveis dissabores, como esposas e doenças venéreas. E depois de um aborto, aprendeu e jurou não deixar isso se repetir. Por isso, aos trinta anos, quando operou dos ovários, não foi por tumor e sim por sossego. Aborrecimentos, os quais podiam ser poupados sem aviltar nem a si nem a ninguém, era um de seus lemas. O prazer, sua bandeira. Inclusive na mesa, culpada pelos quilos a mais que às vezes alargavam sua cintura. Nada que dieta de alguns dias não conseguisse fazer voltar ao peso da semana anterior.
Recebera religiosa e mensalmente dinheiro do pai, até este falecer. Ao imóvel herdado, nem quis rever, contratou imobiliária para tomarem conta de seu aluguel. Preferia assim, um pagava o outro, e este, metade em espaço e custos, lhe fornecia dinheiro suficiente. Porque ela não era de gastar com frivolidades. Só quando as contas ficavam apertadas demais, pedia ajuda a alguns amigos, homens. Que amiga não tinha nenhuma. Mas quando o fazia era por necessidade urgente, coisa rara. Devolvia em espécie. Mas no seu estilo, e eles assim preferiam, único, pessoal, divertido e discreto. Afinal, a maioria era de homens comprometidos. Coitados.

Ananita era assim, uma mulher quase ingênua, quase devassa, quase libertina, costumada em sexo e descomplicada.
Não tinha preferências muito exigentes a respeito da maneira de fazer sexo, da aparência ou idade da pessoa.
A excitavam também as situações divertidamente eróticas, às vezes mais compensadoras que a penetração propriamente dita. Como excitar homens dentro de ônibus apinhados, roçando o traseiro nas suas virilhas até sentir a ereção que devia provocar-lhes o gozo. Ela sorria discretamente. Libertina.
Ou excitar os coitados dos garotos da vizinhança com a exibição de seus seios ao léu na sacada do apartamento; lunetas brilhavam ao sol e à lua quando nua se pavoneava por ela.
Ou fazer sexo oral nos locais mais curiosos ou perigosos de serem surpreendidos, a ela e ao dono do que tinha na boca:
na sala de um cinema;
na casinhola do vigia de prédio ou casa em construção;
atrás do balcão do zelador;
no descanso de escadas entre andares;
debaixo da mesa de um bar;
no ambulatório de fábrica;
na sala de consultório de médico;
no banco traseiro de táxis ou dianteiro, no motorista do próprio.
Ela era muito popular nos pontos de táxis na periferia de sua casa. Muitos deles, quando a vêem passar, fazem questão de oferecer-lhe carona.
Estes, da mesma forma que os outros profissionais, cada um na sua área, nada lhe cobravam pelo serviço prestado.
Os técnicos chamados para consertar os mais diversos problemas da casa, a esses, ela seduziu quase todos.
O que arrumara o equipamento de vídeo, nada cobrou por isso: contentou-se com assistir um filme pornô bem junto dela;
o homem que deixou em estado de novo o aparelho de som: um tango sensual bem apertado com ela nua, e não se fala mais nisso;
nem aquele que, após consertar o chuveiro, testou seu bom funcionamento tomando banho juntos.
Enfim, todos consideram o sistema de pagamento muito satisfatório. Na sua maioria, telefonam de vez em quando para saber se está precisando de algum serviço novo. E ela diz que sim, mesmo sem precisar, só para se divertir e alegrar o outro. A maioria homens infelizes de tão casados. Coitado
, ela pensa, e responde, sim, pode vir.
Ananita era assim, uma mulher quase pura, quase devassa, quase libertina, costumada em sexo, descomplicada e popular. E puta, mas sem-vergonha.
Mas...
Essa solidariedade entre ela e as pessoas, iria mudar. Sem quê nem para quê, num abrir de pernas e fechar de olhos, um fim de semana inteiro passado com aquele homem sem nome, não fora o bastante.
Tão feliz e encantada se sentira ao seu lado, que nem percebeu o perigo, quando a segunda feira lhe fez sentir um vazio nunca antes experimentado. Foi um dia que não existiu.
Na terça, quando foi atrás dele procurá-lo, mesmo sendo a primeira vez a fazer isso, não se deu conta da gravidade da alteração que estava ocorrendo. Ao não encontrá-lo onde o conhecera, o aborrecimento foi tanto, que bem poderia ter sido um alerta, mas ela dispensou o indício naquele mesmo dia, com uma risadinha e um "pode vir", a um técnico tão solícito, como tesudo.
A quarta-feira não existiu.
A quinta-feira começou a doer logo de manhã:
O sol irritava: fechou as cortinas.
O rádio e suas músicas pareciam chiados: desligou.
O café: frio; o leite: fervido; o pão: amanhecido; a margarina: sem gosto.
Todos: no lixo.
Almoço: arroz, feijão, salada e milanesa, ao lixo.
Sobremesa: garrafa de vodka.
Ceia: o nunca experimentado tédio, por que impensado. (não se dava conta Ananita, que era medo dela sair de casa e aquele homem não a encontrar se aparecesse. Ou então a encontrasse, sim, mas transando com alguém. Por isso e pela primeira vez, amigos e técnicos empedernidos ouvem como resposta: "hoje não vai dar".
Começara, pela primeira vez, a esperar um homem. Especifico.)
Graças à ansiedade de Ananita, a sexta feira deu um pulo e caiu atropelante no sábado de manhã. Daí, à sua ordem, o sol desapareceu do firmamento em minutos. E a noite se acendeu com a varinha mágica em forma de campainha, tocando uma nova musica: em allegro vivace e cantabile
. Seria ele atrás da porta, sabia. O corpo, coberto com seu vestido mais querido e debochado, o anunciava com a respiração anelante; o tremor nos joelhos; as mãos úmidas; a língua umedecendo os lábios pintados; os olhos sem conseguirem se fixar em nenhum objeto em particular. Não era o bastante? Sem dúvida, deslizou até a porta, nem olhou pelo seu visor, apenas a abriu.
O homem sem nome estava lá. Com sorriso e garrafa em uma mão, na outra, uma flor vermelha.
Ananita no esplendor da alegria, pegou a garrafa, cheirou a flor e beijou o sorriso.
Noite de sábado, o carnaval de volúpia, em todas suas formas, lavou os tédios e as aflições. E engravidou Ananita de alegria nova. E diferente, por que nunca experimentada igual.
Domingo em allegro molto vivace, maestoso
, segundo dia de seu carnaval.
Segunda-feira, a alegria foi abortada no momento de aperceber-se sozinha na cama ao acordar. Doeu. Depois, atarantada com a ausência, dormiu a ressaca até terça-feira.
Sem terça-feira.
Na quarta-feira, medo. Agora nem mais atendia as chamadas: para quê? amigos e técnicos empedernidos continuariam a ouvir: "hoje não vai dar".
Quinta-feira de manhã: medo, solidão e promessa.
Quinta-feira de noite: medo, solidão, promessa e lágrimas.
O medo: a dependência sempre evitada, por que nunca sabida.
A soledade do apartamento: seu corpo e sua mente sentem faltar pedaços.
A promessa: acabar com a dependência.
As lágrimas: por medo de não querer evitar esse sentimento, mesmo que doa, agridoce.
A pergunta faz chiado de pneumonia no seu peito: Aquilo seria amor, paixão?
Ananita percebe estar só, pela primeira vez.
Quem vai lhe devolver o perdido?
Os coitados dos técnicos?
Os coitados dos motoristas de táxi?
Ou os coitados dos moleques da vizinhança?
"Coitada é Ananita", pensa ela. "Ai...", suspira.
Sexta-feira nunca existiu.
O sábado e o sol entram pela janela; igual a um flash barulhento, o sol acorda Ananita, e o sábado inunda tudo de expectativa. Dia do recreio tenso.
Ananita ouve música sem ligar o rádio, come, bebe, canta, dá uns passos de dança, mas sempre junto com sua nova companheira: a expectativa.
A tarde vai caindo e Ananita deitada na cama, está cansada de receio. E sua nova companheira, alimentada pela sua ânsia, fica mais forte a cada minuto. E, barulhenta, se mete em toda parte, lhe serve bebida, lhe indica o quê vestir; atrevida lhe mostra a imagem no espelho e ri de seu corpo, debocha das banhas, dos seios caídos. Chata, jura: ele não virá, por que ela está feia. Por que é uma puta sem-vergonha que não merece.
Já é noite. Impertinente, sua amiga desconfiada vai se tornando agressiva, enquanto lhe serve constantemente de mais bebida. E lhe canta a media voz:
Quem esse homem?
Onde, com quem ele vive, de quê?
Que tem que ninguém tem?
É lábia? É pau? É língua?

Coragem para lhe pedir para não mais ir embora?
Ficar com ela para sempre, aqui, nesta putaria mixuruca?

Entende metade das poucas palavras que ele diz?
Jurou alguma vez amor, paixão ou coisada assim? Ele prometeu algo?
Responde, gorda ridícula!
Como resposta, Ananita jogou-lhe a garrafa vazia de vodka na boca escancarada e quebrou o espelho, depois desmaiou sobre os cacos.
Silêncio em adágio.

Domingo, Ananita jogada no chão sobre os pedaços do espelho, tão imóvel, parece morta.

E tem sangue no rosto.
Domingo não vale.

Segunda-feira, ela está um caco, maior àquele incrustado no seu rosto que ela arrancou aos poucos. Mas deixou sua marca encima do lábio, aí, perto do narizinho. Apesar de seu esforço e vontade, fragmentos de sua agora inimiga expectativa se arrastam pelos cantos. Ela tenta ignorá-los.
Cuida da cicatriz no seu rosto com curativo. É melhor e coisa feia ficou...
Coitada, Ananita
suspira ela. "Ai, ai...", geme duas vezes.
Em poucos minutos já é noitinha e ela sai para a rua.
No ponto de táxi na periferia de sua casa, os motoristas de plantão a vêem passar, alguns lhe perguntam: "Essa ferida na cara"; "Esse sumiço todo"; "Quem fez isso"; "Quem é o cara"; "Vai pro ambulatório"; "Sobe, te levo"; "Se pego o nojento que fez isso"; "Cês viram? Coitada, minha... nossa querida Ananita".
Quase madrugada ela volta do pronto socorro.
Dói a ferida debaixo dos curativos. Dói o corpo. Os olhos. O peito.
Dói até abrir a porta e dói também entrar.

Deitada na cama, pergunta a media voz: Aquilo é amor, paixão?
Ai..
, suspira ela. Como dói..., geme três vezes antes de dormir sem sonhos.
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domingo, 22 de agosto de 2010

Por Ed Santos


- Japonês, que cê acha da gente ir lá na Augusta dar um role?

- Vâmo! Quem?

- Eu, você o Celso e o Claudinei. O Sandrinho parece que quer ir também?

- Putz, cinco?

- Então, o Claudinei falou que vai ver se pega o carro do pai dele, daí a gente vai em dois.

- Então tá certo, porque cinco no fusca eu não levo não.

- É eu sei, mas ele falou que vai.

- Então tá.



Naquele dia o Claudinei nem apareceu na aula. Sem querer esperar, o Japonês sugeriu:

- Então, o cara nem apareceu. E se a gente fosse no boliche e depois pra Augusta?

- Mas e a aula, a gente num vai assistir?

- Não, vâmo direto.

- Beleza. Vou chamar o Sandrinho e o Celso.

- Nem deixa eles entrarem!

- Eles já tão na sala de aula.

- Então vê se não fica lá também!

- Pode deixar, eu volto.





- O Japa, CE sabe sair daqui?

- Claro, eu já vim aqui várias vezes.

- Nossa, eu nem sei onde eu to?

- Calma Fábio! Daqui a pouco a gente chega lá na Augusta.

- É A gente ta descendo a Consolação.

- Meu a gente tomou muita cerveja no boliche. Tô com a maior vontade de mijar! A gente vai ter que parar em algum lugar.

- E você acha que a gente veio aqui na Augusta pra que? Pra ficar dando rolezinho de carro e mexendo com a mulherada?

- E não é?

- Fábio, você me trinca de vergonha!

- É lógico que a gente vai no puteiro né!

- Mas eu nunca fui num lugar desses!

- Num acredito!

- Sério Japa, nunca fui.

- Então hoje vai ser a primeira vez!

- É, hoje você vai ver descabelar o palhaço!

- Pelo menos mijar você vai né?

- É, você vai ficar com o pau na mão de qualquer jeito.





- Olha ali! Pára, pára! Encosta!

- Peraí!

- E ai filha, Beleza?

- Desculpa , mas eu não ando de fusca.

- Ah, sua vadia! Tá esnobando é?

- O que eu ganho por noite dá pra comprar dois desses meu filho!

- Sua vaca!

- Vaza que tá vindo um cara ali!

- Tchau cadela!

- Some daqui seu bostinha, senão eu te corto todo!

- Vâmo embora Japa, Vâmo embora! Tô me mijando, caralho!

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sábado, 21 de agosto de 2010

Por Gustavo do Carmo

Origem

Depois de ouvir seus coleguinhas dizendo que nasceram do amor entre os seus pais o menino chegou em casa e, para checar a informação, perguntou à mãe: _ Mãe, eu nasci do amor do papai com você? Carinhosa a moça disse: _ Não, meu filho! A mamãe foi estuprada. Mas eu te amo!



Cão

A professora incentivou a leitura de um livro por seus alunos a um cachorro, pois eles não riem dos erros. O menino não tinha e lhe emprestaram o cão da dona do colégio. Foi o primeiro a dar um uivo.



Tarado
Chegou em casa aos prantos. O pai lhe perguntou: _O que foi, meu filho? _ Pai, os meninos lá na escola disseram que você é um tarado. _ Ah, meu filho. Mas eu sou mesmo. Estuprei 15 mulheres, inclusive a sua mãe.



Anti-concepcional
O menino perguntou para a mãe: _ Como foi que eu nasci? _ Tomei um anticoncepcional de farinha, transei com o seu pai e você nasceu, meu filho. Mas a mamãe te ama. Foi graças a você que ganhamos uma indenização milionária do laboratório e posso te dar tudo o que quiser.



Enteado
Queria muito ter um filho. Contentou-se em dar o seu amor paterno para o enteado, mesmo odiando crianças dos outros.

Caridade
Recusou-se a distribuir mantimentos para crianças pobres porque viu que elas já estavam de barriga cheia.

Circo
— Eu vejo gente que se entorta. Disse o menino na platéia do circo durante o número do contorcionista.

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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Além dos contos serem envolventes, um dos pontos que achei mais interessante foi a amostra do contexto histórico que as narrativas fizeram da primeira metade do século XX da História dos E.U.A.

Os contos são ambientados na década de XX: O conto que é o título do livro (1922), Bernice corta o cabelo (1922) e O palácio de gelo (1920). As histórias além de mostrar questões da juventude rica americana (os protagonistas dos contos são jovens), a pujança da economia americana pós-primeira guerra e pé-depressão 29 e as diferenças culturais de um país continental como os Estados Unidos; principalmente do Norte e do Sul que tem uma rivalidade depois da Guerra da Secessão.

O escritor descreve muito bem este ambiente devido à sua vivência. Francis Scott Key Fitzgerald nasceu em Saint Paul, Minnesota, nos Estados Unidos, em 24 de setembro de 1896. É de família católica irlandesa, ingressou na Universidade de Princeton, porém não se formou. Durante a primeira guerra mundial, alistou-se como voluntário. Além disso, escreveu o romance de muito sucesso O Grande Gatsby e o qual teve uma versão de sucesso no cinema roteirizada por Francis Ford Coppola. ( Não vi e nem assisti o livro...).

Os contos possuem uma agilidade e se tem a sensação de ver um filme. As cenas são descritas primorosamente, mas há um enxugamento do texto, característico do texto moderno do século XX. A leitura é muito agradável.
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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

João Paulo Mesquita Simões


O Teclas é um adolescente de 14 anos, bastante inteligente e distraído.
Só vivia para uma coisa – A Internet! Era tão absorto pela net, que passava o dia a navegar por todos os sites de música, MSN para conversar com os amigos. Contudo, era um bom estudante, com muito boas notas.
Chamavam-lhe Teclas por passar tanto tempo agarrado ao computador. O seu verdadeiro nome era José Pedro, mas a família e amigos tratavam-no por Zeca.
Mas vamos continuar a chamar-lhe Teclas.
Um dia, o Teclas andava muito bem a navegar no seu computador a fazer uma pesquisa na Internet. Era para um trabalho para a escola.
A dada altura da sua pesquisa, apareceu-lhe um sítio com imagens de selos. O Teclas sabia o que eram selos, pois lá em casa de vez em quando, lá se recebia uma carta selada, mas nunca se tinha debruçado sobre aquele tema.
Percorreu o sítio, e foi fazedo as suas descobertas. Viu que muitas pessoas colecionavam selos, e que a esse hobbie se chamava Filatelia. Ficou intrigado com a descoberta, mas continuou a sua pesquisa para o trabalho da escola.
Nesse dia à noite, depois do jantar, o Teclas fechou-se no seu quarto, como era hábito nos adolescentes da sua idade. Pegou no telemóvel e, como tinha SMS’s grátis tal como os seus amigos, começou a enviar mensagens ao seu grupo de amigos.
- Zeca! Vem ajudar a levantar a mesa e depois vai estudar! – disse-lhe a mãe.
Não se obteve resposta.
- Zeca! Vem ajudar a levantar a mesa e depois vai estudar! – repetiu a mãe.
O Teclas continuava sem responder.
A mãe dirigiu-se ao quarto dele, abriu a porta, e lá estava o nosso Teclas de fones nos ouvidos a ouvir música e a enviar SMS’s!
- Zeca! Não me ouviste chamar?
- Hã?!
- Ó Zeca! Vai levantar a mesa e depois vai estudar! – pediu a mãe.
Contrariado, o Teclas, lá desligou a música, e de telemóvel na mão e lá veio fazer o que a mãe lhe tinha mandado.
No dia seguinte lá na escola onde andava, o Teclas contou aos seus amigos a descoberta que tinha feito no dia anterior, enquanto andava a pesquisar para o seu trabalho.
Os amigos e colegas riram a bom rir!
- Ó Teclas! Voltaste à pré-história? – perguntou o Cebola.
Chamavam-lhe o Cebola, porque a sua cabeça parecia de facto uma cebola. E como estes miúdos não deixam escapar nada, o Miguel ficou alcunhado de Cebola.
Todos riam do pobre Teclas. Envergonhado, afastou-se e ficou sossegado num canto do recreio sózinho.
- Ainda te mudamos a alcunha. Em vez de Teclas, passamos a chamar-te Pré-Histórico! – disse a Andreia.
Risada geral.
Mas como o Teclas não era rapaz de ficar amuado, pois tinha uma personalidade forte, deixou-os falar e, sózinho no seu canto, disse para si:
“Ainda vou saber o que é a Filatelia e fazer ver a esta gente que são uns incultos.”
Assim penssou, assim o fez!
Quando as aulas acabaram, correu para casa. Despachou-se a fazer os trabalhos de casa, lanchou e foi consultar a Enciclopédia lá de casa.
A mãe, quando o viu de livro na mão sentado no sofá, espantou-se.
- Zeca, meu filho? Estás doente? A consultares um volume da enciclopédia, em vez de procurares na Internet?
- Mãe – disse o Teclas – Isto é um caso de vida ou de morte!


Fragmento do livro juvenil "Teclas, o Filatelista" de João Paulo Mesquita Simões
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terça-feira, 17 de agosto de 2010

de Miguel Angel



A garoa intermitente enlameou todos os caminhos por onde Ezequiel conduz o bando de índios e negros, cobertos de noite: "bom pro caçador, ruim pra caça" pensa ele, porque sabe.
A escassos passos da dupla de sentinelas que encontram nas imediações do acampamento paraguaio, Ezequiel, no momento preciso, faz um gesto e um dos índios, já de prontidão, tesa o arco e, sibilando, a flecha atravessa o espaço acertando mira escolhida: a garganta de um dos soldados que tomba com o impacto e a surpresa; seu companheiro observa aparvalhado custando entender, o que lhe é fatal: um segundo índio está correndo em sua direção e, na mão erguida, um machado em riste desce sobre sua cabeça, abrindo-a até os ombros; o soldado despenca ao lado do moribundo camarada ainda tentando arrancar a flecha que lhe atravessa o pescoço; a mesma machadinha vai em sua ajuda, decepando-o com dois golpes; o sangue jorra espesso misturando-se à água do chuvisco que tudo encharcara; a turma de Ezequiel retoma a marcha; correm na escuridão pelos caminhos conhecidos dos indígenas; preferem driblar outras sentinelas; o alvoroço e as luzes dos lampiões indicam estarem bem perto do arraial dos inimigos; cautela e sigilo nos passos que o mato molhado amortece; avançam na calada dirigindo-se à barraca que Ezequiel julga alvo certo: os aposentos do tal Coronel Barrios. A garoa engrossa e vira aguaceiro, as gotas sobre o mato provocam o barulho protetor necessário para chegarem ainda mais perto; as risadas e as cantorias indicam que a tropa sente-se segura debaixo dos toldos, excitando a audácia do pequeno grupo. Ezequiel se adianta, a luz do lampião projeta na lona as sombras das pessoas no interior da barraca-alvo; uma das figuras o escravo reconhece: é o perfil de sinhá Beatriz. (Conhece-a desde adolescente, quando ela se divertia com os negrotes da senzala, brincando de fugir pelos esconsos da floresta e, quando alcançada, jogar-se ao chão para eles deitarem sobre seu corpo e fazer o que a ela parecia mais lhe agradar: ceder aos desejos que provocava nos molecotes.)
Lembra as palavras ditas em jura de resgatar sinhá e devolvê-la à família que espera na Casa Grande. E sabe da expectativa dos companheiros atrás dele, aguardando inquietos uma ordem sua. Ezequiel pouco ouve do palavrório no interior da barraca; o baque da chuvarada no toldo, se antes protegia, agora atrapalha; quase encostando a cara na lona, vai tratando de decifrar o que mal ouve. E antes de compreender, a figura projetada do coronel ergue-se, se desloca e apaga-se, para aparecer em corpo saindo do interior; oscilando, vestindo só um calção, abre um guarda chuva e aproxima-se de Ezequiel, preto como as trevas da noite alta que o encobrem: "bom pro caçador, ruim pra caça"; o punhal vibra na mão do alforriado, pronto para uso; o sujeito se detém perto dele, abre a braguilha e um jorro se confunde com a lama circundante; Ezequiel está a pouca distância do inimigo e seus músculos retesam aprontando o pulo; mas a voz do oficial o empaca: "Amanhã voltamos pra Corumbá e depois te levo pra Assunção, branquinha! - e rindo a boca despregada, tossindo arrotos, acrescentou: - Quem não vai gostar muito vai ser minha mulher se ela descobrir!" Em seguida, fechou a braguilha, o guarda chuva e voltou à tenda, cambaleante, dizendo: "Vamos abrir outra garrafa, minha prenda!" O trovão e a chuvada súbita embaralharam estouro de rolha com risada.
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Fragmento do romance em fase de acabamento: Sobre Moscas e Aranhas de Guerra
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domingo, 15 de agosto de 2010

Por Ed Santos

Tinge-se de marrom o céu,

As luzes apenas revelam os ratos e a cavalgada da mulher.

Seca-me os pensamentos aquele olho verde agora castanho

A composição parte e os ratos continuam sua ronda.
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sábado, 14 de agosto de 2010

Por Gustavo do Carmo


— Filho, você não vai se inscrever no concurso para o Tribunal de Contas?

— Pra quê, se eu já publiquei vinte livros, dos quais quinze ficaram na lista dos mais vendidos durante cinco anos, ganhei diversos prêmios literários, entre eles um Pulitzer, um Booker Prize e o Nobel de Literatura, sendo o primeiro brasileiro a obter tais nomeações? Além de tudo isso, os meus direitos autorais já me renderam cinco milhões de dólares.

— Acontece que depois de tudo isso o senhor não escreveu mais, seus livros já foram esquecidos pelo mercado, ninguém se lembra mais de você e ainda gastou os seus cinco milhões em excentricidades. Já faz trinta anos que perdeu tudo o que arrecadou e voltou a viver às custas da nossa aposentadoria. Eu e sua mãe já passamos dos cem anos e não temos mais como te sustentar. O senhor faça o favor de estudar para um concurso público ou arrumar um emprego qualquer porque eu não vou mais sustentar vagabundo!

E aos setenta e cinco anos, o ex-escritor Paladino Gonçalves se inscreveu no concurso público para auxiliar administrativo do Tribunal de Contas. Ficou em quadragésimo lugar. Quase foi chamado. Perdeu a vaga, no critério de desempate, para um candidato cinco meses mais velho.

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domingo, 8 de agosto de 2010

Por Ed Santos

Na época em que parou de trabalhar, o Amadeu não ligava muito pra isso de tecnologia. Male-male usava o controle-remoto do videocassete – sensação da época. A Flavinha sua filha, era a responsável por ler, entender e repassar aos pais, todas as informações dos manuais, além de por as coisas pra funcionar. Mas depois que foi embora morar com o namorado, deixou pai e mãe órfãos nessa questão. A última coisa que fez foi ensinar o pai a usar o telefone celular. Usar não, ensinou ele a fazer e atender as ligações. Pra por no vibracall era o fim do mundo.

Freqüentemente, durante as partidas de dominó, o Amadeu conversava com os amigos sobre vários assuntos e a discussão sobre a dificuldade com os eletrônicos sempre vinha à tona.

- Vocês viram o celular novo que eu ganhei de aniversário de casamento? Tem até MP3.

- Que coisa é essa Carlos? MP3? – pergunta o Amadeu curioso.

- É um sistema pra tocar músicas. Você grava no computador as músicas que você quer ouvir, e depois transfere pro celular. Pra ouvir é só por esses fonezinhos aqui ó.

- Ah, lembrei! A Flavinha já tinha me mostrado um radinho que ela tem com esse tal MP3. Mas assim no celular eu nunca tinha visto não.

- É coisa de tecnologia né Amadeu! Você nunca ouviu falar? Computador você conhece, né?

- Claro que sim né Carlos! Mas o que tinha lá em casa a Flavinha levou embora quando foi morar com aquele mané. E eu nunca mexi. Nem sei como funciona! Mas vem cá, e esse telefone aí? Faz ligação também ou só toca música?

- Se por crédito faz normal, mas ainda não carreguei não.
 
Amadeu ficou encantado com a novidade. Um celular que toca música no fonezinho, quem diria. Ele achou o máximo! “Mas e se tocar o telefone, como vou saber? E pra atender? Tem que desligar a música?” Melhor deixar pra lá. Outra hora ele pergunta pro Carlos , aliás, não tinha nem computador em casa. E outra, também não podia ficar mostrando pros amigos em plena mesa de dominó, que não sabe o que é MP3. Basta os “micos” que a Marilda fazia ele pagar.

No outro dia, na caminhada, eis que o Carlos aparece com o tal celular e seus fonezinhos.

- E aí Carlos, vai caminhar assim com esse troço ai pendurado?

- Claro! Enquanto caminho, ouço um Paulinho da Viola de primeira! Nem vou lembrar das safenas que carrego aqui no peito.

O Amadeu então resolve que daquele dia em diante ia se inteirar completamente sobre essas coisas modernas. Não podia, mesmo com essa idade, deixar de saber delas. Ainda mais depois daquela manhã em que não conseguiu conversar com o com o amigo enquanto caminhava, sentiu-se muito só, ao contrário do amigo que tinha arranjado um novo companheiro – o tal celular com MP3.

A primeira providencia que tomou após o banho, foi ligar - do celular - pra Flavinha.

- Oi filha, tudo bem?

- Diga pai. Que surpresa é essa? Aconteceu alguma coisa?

- Não. É que resolvi comprar um computador e queria uma opinião sua.

- Mas pai, o senhor não sabe ligar nem a TV direito! O que te deu?

- Ah, Flávia, não dá pra ficar desatualizado né? E outra, cansei de ficar jogando dominó o dia inteiro.

- Olha só o pai! É assim que se fala!

- Você me ajuda então filha?

- Pode deixar. Semana que vem vou arrumar um tempinho pra ir aí, e conversamos tá?

- Tá bom filha.

- Tchau, beijo. Dá um beijo na mãe.

- Dou sim. Tchau!

E desligou o celular. Ficou olhando pro aparelho assim com jeito de quem queria desmontá-lo pra saber o que tinha lá dentro. Queria desvendar os segredos da tecnologia. Bendito MP3!

Pronto. O primeiro passo tava dado. Agora vinha a parte mais difícil: convencer a Marilda de incluir mais uma despesa nas contas do mês. O computador tinha que ser financiado né? Afinal, benefício de aposentado é aquela coisa!

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