domingo, 13 de junho de 2010

AZARYA

Por Ed Santos



Varias coisas acontecendo ao mesmo tempo. As crianças brincam com um boneco feito com uma blusa enrolada. Pelo falar baixinho e as flores de plástico ornamentadas sobre um travesseiro deve se tratar de um funeral. As irmãs beatas discutem sobre religião. Um afirma que o dizimo e desviado e pergunta por que o pastor nao anda de fusquinha ao invés de ficar desfilando de carro importado. Usar ouro e vaidade? E o rei, me disseram que e muito rico. Afinal e o filho do dono.
Na escola as crianças se preparam para aprender e os 17000 mil soldados curdos protegem as fronteiras. Incrível como aqueles filhos de executados em guerras conseguem sobreviver comprando naquelas feirinhas de barracas imundas, com produtos imundos.
Mas o outro que teve sua casa tomada por que deixou de pagar os impostos ficou feliz porque os vizinhos também tiveram os imóveis desapropriados por uma empresa incorporadora de prédios comercias. O proprietário inadimplente teve que penhorar o vaso de barro que o pai arqueólogo havia encontrado em terras curdas e que teve que esconder do governo para nao ser preso.
O pastor unge um fiel com azeite colhido da regiao de onde ainda ha vida e dele sorvem a informacao de que o suor e a febre deram-se porque uma aranha que deveria ter se alimentado dos insetos que repousam no plafon da lâmpada da varanda onde as beatas conversam deixara na epiderme alheia o veneno que agora acomete sua corrente sanguínea.
Enquanto isso, o filho bêbado de uma das beatas acorda. Mãos trêmulas, boca seca, pulso acelerado. São seis e meia da tarde. Ele levanta, coca o olho sujo e quieto olha pra televisão. Os dedos amarelados pela nicotina apóiam a parede para que se levante. Vai ao banheiro descalço, e depois limpa os ombros apos ter escovado o cabelo. Os olhos vermelhos e a pele descamando entregam a quem quiser ver, sejam incorporadores imobiliários, sejam soldados curdos. Aquela guerra ele teria que vencer. Sua mãe estava ali, que nem lhe olhava direito pra nao morrer de desgosto. ''pelo menos nao ficou em casa, senão uma hora dessas tava no boteco''. Continua o papo.
Enquanto os insetos insistem em se aproximar do paflon, ele, o bêbado sai de casa em busca de paz. Nao da pra ficar ali vendo aquela cena absurda de suas tias conversando. Prefere se embrenhar bairro a dentro em busca do seu eu num balcão qualquer, e alem do mais estava decidido, nao desistiria desse encontro por mais que lhe fosse o mais penoso dos desafios, nem que tivesse que buscá-lo no fundo do poço, digo, do copo.

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