terça-feira, 11 de maio de 2010

"Lamentamos comunicar-lhe que seu livro..."

Miguel Angel


Umberto Eco se pergunta: Que teria acontecido com os grandes clássicos se tivessem se submetido à máquina editorial moderna?
(Para uso exclusivo das editoras e seus funcionários assessores;o)

Homero
A ODISSÉIA

Pessoalmente, gosto do livro. A historia é bela, apaixonante, cheia de aventuras. Tem a dose certa de amor, de fidelidade e de escapadas adulterinas (muito boa a figura de Calipso, uma verdadeira devoradora de homens); tem, inclusive, um momento "à la Lolita", com uma garotinha chamada Nausicaa: ao longo do episódio, o autor se permite mais de uma ousadia, mas em nenhum momento incorre em excessos.
O todo resulta excitante. Há bons efeitos, gigantes de um só olho, canibais e até um pouco de droga (o suficiente para não transgredir os limites fixados pela lei). As cenas finais se inscrevem na melhor tradição western: as lutas são brutais; a cena do arco se mantém na corda bamba do suspense de forma magistral.
Quê dizer?: lê-se de uma arrancada só, melhor que o primeiro livro do mesmo autor, que era estático demais com sua insistência de unidade de lugar, chato pela superabundância de acontecimentos (na terceira batalha e ao décimo duelo, o leitor já compreendeu o mecanismo). Ademais, a historia de Aquiles e Patroclo, com seu fio de homossexualidade apenas latente, nos colocou em situações difíceis.
Em cambio, neste segundo livro todo anda que é uma maravilha; até o tom é mais sereno: pensado, sem ser reflexivo. E, ademais, a montagem, o jogo de flash-backs, as histórias intercaladas!... Em suma: alta escola. Realmente, este Homero tem talento.
Demasiado talento, diria eu... Me pergunto si será tudo farinha de sua colheita. Entretanto, o que me faz duvidar (e, nesse caso opinar negativamente) é a confusão que pode se armar no tocante a direitos. Falei do assunto com Eric Linder e creio que não sairíamos muito bem dessa parada.
Antes de qualquer coisa, é impossível localizar o autor. Os que o conheceram dizem que, de qualquer maneira, resultaria tedioso discutir com ele as pequenas modificações a introduzir no texto, pois é cego como uma toupeira, não segue o manuscrito e em mais de uma ocasião deu a impressão de não conhecê-lo bem. Dizem, também, que citava de memória, e que não estava seguro do que tinha escrito e alegava que o copista havia introduzido interpolações. Será que ele mesmo escreveu ou é tão somente um testa-de-ferro?

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A BÍBLIA
"Devo dizer que ao começar a ler o manuscrito, e durante as primeiras cem páginas, fiquei entusiasmado. É pura ação e tem todo o que o leitor de hoje exige de um livro de evasão: sexo (muitíssimo), com adultérios, sodomia, homicídios, incestos, guerras, desastres etcétera. O episódio de Sodoma e Gomorra, com travestis que pretendem estuprar os dois anjos, é rabelaisiano (i.é: Libertino, devasso, licencioso); as histórias de Noé são o mais puro Salgari; a fuga ao Egito é uma historia que cedo ou tarde será levada ao cinema. Em suma, o verdadeiro romance-rio, bem construído que não poupa efeitos, cheio de imaginação, com essa dose de messianismo que agrada, sem atingir o trágico.
Depois, mais adiante, percebi que se trata, na verdade, de uma antologia de diversos autores, com muitos, demais, fragmentos de poesia, alguns francamente lamentáveis e aborrecidos, verdadeiras jeremiadas (i.é: Lamúria ou queixa importuna e vã) sem pé nem cabeça. E o resultado disso é um engendro monstruoso que corre o risco de não agradar a ninguém porque tem de todo. Além disso, será um aborrecimento estabelecer os direitos dos diferentes autores, a menos que o representante de todos eles se encarregue disso. Mas o nome de tal representante não consta nem sequer no índice, como se houvesse certa reserva em nomeá-lo. Seria mais seguro tentar a possibilidade de publicar separadamente os cinco primeiros livros. E com um outro título, tipo 'Os desesperados do mar vermelho'"

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Kafka, Franz
O PROCESSO

Não está mal o livrinho; é policial, com momentos ao estilo de Hitchcock: por exemplo, o homicídio final, que terá seu público.
Sem embargo, pareceria que o autor o escreveu sob censura. Quê significam essas alusões imprecisas, essa falta de nomes de pessoas e de lugares? E por quê o protagonista está sob processo? Esclarecendo mais tais pontos, ambientando de forma mais concreta, dando fatos, fatos, fatos, a ação resultaria mais límpida e mais seguro o suspense.
Esses escritores jovens acreditam fazer "poesia" porque dizem "um homem" em vez de dizer "o senhor Tal a tal hora em tal lugar". Em síntese: se der para meter a mão, bem; do contrário, devolver.
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Proust, Marcel
EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

É, sem mais nem menos, uma obra comprometida, quiçá longa demais: mas pode vender-se fazendo uma serie de pocket.
Assim como está não funciona. Está faltando um vigoroso trabalho de editing. Por exemplo, há que revisar toda a pontuação. Os períodos são muito cansativos, alguns ocupam toda uma página. Com um bom trabalho de redação que os reduza a duas ou três linhas cada um, com uma mais freqüente utilização do ponto e vírgula, o trabalho seguramente melhoraria.
Se o autor não concordar, melhor será não editá-lo. Assim como está, o livro resulta... como direi?: bastante asmático.
(Tradução e postagem: Miguel Angel)

Um comentário:

Joao Paulo Mesquita Simoes disse...

Miguel,

Quase todos os autores que aqui referiste e suas obras, fez-me lembrar a minha aula de Leituras na Faculdade.
Dei Homero, Bíblia, Kafka, Sófocles e outros.
Confesso que antigamente não gostava de ler estes autores. Aprendi a gostar. Sobretudo da Antígona de Sofocles. Achei a obra soberba!
Tenho em curso um trabalho sobre a Obra, apra apresentarno final do ano lectivo. Todo aquele enredo apaixonante que o professor, apesar da sua voz monocórdica, nos ensinou a gostar, faz da obra um best-seller que aconselho a ler. Não só pela tragédia em si, mas também pela história da História da Grécia Clássica e o podermos fazer uma comparação com as emocracias do século XXI.
Parabéns pela postagem. Adorei!

Abraços deste lado do Atlântico,

João Paulo

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