domingo, 18 de abril de 2010

BALADA PARA OS MURÍDEOS

Por Ed Santos



Eles eram como unha e carne. Não se desgrudavam um do outro. Tudo o que iam fazer, faziam sempre juntos. O lugar em que habitavam não era dos piores, mas mesmo assim aprenderam a pisar, em curtos passos, nos locais que lhes ofereciam menores riscos. Eles sempre viveram ali, mas tinham, vez por outra, que buscar outros caminhos.     Era impossível, por questões de logística, viverem apenas do que tiravam dali. Então iam buscar subsistências em outros terrenos.
Aí veio a gravidez, e com isso o casal começou a repensar a vida. Os objetivos já não eram mais os mesmos, e a necessidade de mudarem-se pra outro local, tornou-se fato, porém pareciam super preparados para a nova etapa. Engraçado é que nunca sequer, pensaram em procriar – deve ser coisa de instinto -, e sem obstáculo algum, foram tocando, e aguardavam a surpresa e novidade.
Providenciaram um cantinho muito generoso para o visitante. Um belo dia, eis que a cria chega, e mais uma vez movido pelo instinto, o pai resolve sair para buscar alimento. Deu-se então o primeiro dilema: aquele rato nunca havia saído sozinho de casa. O mundo fora daquele porão úmido e escuro seria fatalmente agressivo para ele. Teve medo.
Mas com a felicidade lhe estampando a cara bigoduda, e incentivado pela companheira, que acabara de parir, botou as patas pra fora da toca, antes de dar o passo fundamental de sua aventura solitária. Ao olhar pra trás, notou que o bebê procurava o peito da mãe fervorosamente, então lembrou-se que como os humanos, era mamífero. Não sabia se estava feliz porque o pequeno roedor estava se alimentando, ou por não ter tido a necessidade de sair dali sem companhia.
Quando já estava na hora de recolher-se, pôs-se a pensar em como seria os próximos dias daquela família, que habitava aquele lugar inóspito e que teve sua rotina alterada por um novo e miúdo hóspede.
No frio cortante que fazia naquela noite, ele não teve dúvida e foi sem medo, então, em busca de agasalho para o inverno. Mesmo sabendo que desse mundo nada levaria, nem sua casa, nem seu alimento, nem sua família, ficou triste. Coitado é o filho do rato, que nasce pelado.

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