terça-feira, 16 de março de 2010

Erric bere legue, ycheac bere aztura

de Miguel Angel

Atrás respeitar luto, abreviado pela impaciência, a baronesa fez gosto por retomar reuniões sociais, entremeando carteados entre amigos e familiares, com bailes do Cassino Fluminense, passeios expedicionários, piqueniques domingueiros e diversas outras festividades. A mudança na condição social em função da viuvez conferiu-lhe novos direitos e privilégios, entrementes, restaram considerações aos códigos do decoro público; como a viajada senhora entendia que a ética estava inserida no brocardo basco: Erric bere legue, ycheac bere aztura*. (*Cada terra sua lei, cada casa seu costume,) Claudia de Souto Correia fez questão da ligação íntima com Garcia permanecer incógnita daquele aglomerado ciumento com iguarias institucionais e estimativas quantitativas, que podiam interferir em seus interesses. Convenientemente, ela achava mais divertido assim. E somente amigos pretendiam aparentar ser a todos.

Debruçado no trabalho, Garcia parecia imperturbável – se percebia, julgou irrelevante no começo –, a viúva lhe metamorfosear a aparência, outrora desleixada e motivo de chacota, pese sua vistosa compleição, de alguns janotas habitués de conferências. Numa semana, bigode raspado e suíças curtas num moderno corte de cabelo sugerindo novo penteado apartado ao centro; na outra, a arte de modistas francesas confeccionaram, com fazenda importada da Inglaterra, roupas com cortes da moda francesa, e até bengala com castão de marfim lhe conferiam a elegância que nunca supôs ter, nem Nhá Marchais, que muito se divertia no papel de artífice; finalmente, e não menos expressivo, com intensiva obra e graça, domesticou o tosco cientista e amante elétrico, com lições de etiqueta comportamental; de modo a assumir os tiques de seu novo grupo social, ensinou-lhe a modular as palavras, a postura do corpo e cujo resultado só recalcitrantes notariam defeito. Obediente, em função de sua utilidade operacional, Garcia consentia a dedicação da viúva; contudo, a natural vaidade, incorporada ao pacote que acompanha os homens desde priscas eras, parecia lhe estimular a prazerosa desforra do estúrdio pato que fora, ao pavão de crista e plumagem colorida que virara.(...)

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Fragmento do romance "Sobre Moscas e Aranhas de Guerra"

2 comentários:

Mariza disse...

OI, MIguel.
Como sempre, atraente narrativa, segurando-nos os olhos e a imaginação.
Beijinhos.
A Condessa Descalça

bernadete disse...

Muito interessante a abordagem que permite uma mordaz análise psicológica: as mulheres sempre vaidosas,fúteis, presas ao exterior e a detalhes supérfluos e os homens, sempre fingindo serem diferentes mas NO FUNDO, NO FUNDO iguais a aquelas, adorando as modificações "impostas" pelas mesmas e incorporando-as à personalidade, com um misto de "Não ligo pra isso mas ela gosta..."
Sutil e SOBERBO!!!
Com as beijocas de sempre.

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