terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Não precisa de violência com mulheres de categoria. Mesmo sendo brasileiras.

de Miguel Angel


Depois de dias de saques e degolas, fuzilamentos e violações, a fazenda de D. Eduardo Antunes teve o azar de cruzar o caminho do coronel paraguaio Barrios, um dos condutores da bem sucedida incursão em território brasileiro. Avistando a sede da fazenda, o coronel ordenou a tropa avançar pela propriedade, cercar todo gado à vista e invadir a casa sede. Sem nenhum oponente de monta, a missão foi concluída em poucas horas; o mandante estrangeiro foi chegando à residência, encontrando-a quase coberta pela fumaça dos incêndios nos pastos, estrebarias e manjedouras; a um canto do edifício, alguns prisioneiros, a maioria de pretos idosos, já reunidos em grupo, esperam apreensivos. O coronel deteve seu cavalo à frente da sede a contemplar o sucesso da empreitada. Subitamente, do seu interior, surgiu um homem encanecido, de garrucha e peito aberto se postando na sua frente e, apontando a arma ao comandante, ordenou raivoso:
– Saiam de minhas terras, seus paraguaios de merda!
A coronhada dada por um diligente soldado o lançou por terra aos pés do chefe invasor, junto com a garrucha depressa inutilizada a botadas. A valentia impertinente condenou o velho ao açoite como inicio de exemplo aos candidatos a ousadias e, após ordens gritadas em conciso discurso, ao fuzilamento, junto com todos os outros prisioneiros ali reunidos.
– Senhor coronel! Peço-lhe em nome de Nossa Senhora. – suplicou de braços abertos em rodopio, a mulher branca que surgiu do grupo de prisioneiros, arrastando uma velha senhora tentando detê-la, agarrada à saia; assustado, o cavalo do Coronel recuou com o imprevisto; no bamboleio o paraguaio desequilibrou-se e teve de segurar-se na sela. Súbito, um soldado adiantou-se e agarrou o braço da mulher com a intenção de quebrá-lo, mas o coronel o deteve com um gesto.
– Quem me enfrenta? – perguntou o oficial nervoso, do alto de sua montaria. O soldado, puxando-a pelo cabelo, expôs seu rosto à pergunta.
– Meu nome é Raquel. Sou filha daquele varão que o senhor mandou açoitar e fuzilar.
– Porque merece! Quem vai me impedir?
– Não serei eu, senhor! Mas, Deus! E a justiça dos homens justos e cristãos.
– Onde estão eles? No Mato Grosso? No Brasil? – zombou o oficial e a soldadesca gargalhou ruidosamente.
– Não senhor. Quero crer que na minha frente!
– Silêncio! – ordenou num grito o coronel, um tanto confuso com a ilação.
A soldadesca calou. A mulher mais velha, apavorada, insistia em tirar a outra dali, mas esta, esquivando-se no empurra-empurra, permitiu acidentalmente a idosa ir ao chão.
– Quem é essa velha? – vociferou o paraguaio, incomodado com a interrupção.
– Minha mãe, senhor. – respondeu a mulher, ajudando-a a se erguer. E continuou, valente. – Uma velha cristã que o senhor mandou fuzilar!
O oficial hesitou um segundo.
– Mandei?... Sim!
E concluiu categórico:
– Inimigo se fuzila!
– Esse ancião, estas mulheres e aqueles velhos escravos, são seus inimigos, senhor?
– Todos os brasileiros são!
– O Brasil está repleto deles, senhor. Vai fuzilar todos!
– Como fiz com todos os abusados que apareceram na minha frente!
– Estou na sua frente. Mas poupe minha família.
– Atrevida! – mordeu o oficial desmontando, desembainhou a espada e acercou-se dela. Nas faces incendidas da mulher e no porte, altivez; na mirada, repulsão. Nesse instante, uma jovem dona surgiu do interior da casa e, atabalhoadamente, juntou-se à outra.
– Outra louca? Quem é essa? – quis saber o invasor, surpreso.
– Volta pra dentro Beatriz! – ordenou apreensiva a chamada Raquel, forcejando para apartá-la de si.
O militar olhou-a detidamente demonstrando apreço pela bela mocidade que via, e concluiu:
– Sua irmã, parece. – Embainhando a espada, chamou: – Tenente! – O solicitado perfilou-se. – Quero essa mulher hoje na minha barraca. Vou ensinar a estas brasileirinhas atrevidas a comportar-se diante de uma autoridade paraguaia.
– Si, senhor! Qual delas? – confundiu-se o oficial.
– Estúpido! Escolha!
O tenente agarrou a mais jovem com brutalidade, mas o superior conteve-o com um berro:
– Comporte-se, tenente! Cortesia é a mais evidente prova de civilização de um exército. Não quero que andem dizendo que os paraguaios são mal educados. Não precisa de violência com mulheres de categoria. Mesmo sendo brasileiras.
Remontando, ordenou:
– Mande evacuar a tropa desta região, tenente! Vamos embora. – Cravou os olhos em Raquel e emendou: – Por enquanto. – Afrouxou as rédeas e as esporas arranharam o flanco do animal que partiu imediatamente à frente do pelotão em ordem-unida e pelo retrasado tenente que conduzia o cavalo montado pela moça chamada Beatriz.
O pó levantado pela tropa não se assentara e a velha senhora acudia o marido, sangrando de uma ferida na fronte, ainda curvado no chão.
– Velho teimoso! Quase te matam! – queixou-se a esposa.
– Teimosia maluca que quase nos mata a todos! – disse Raquel, olhando o bando de soldados se perder na distância, e ajuntou. – Então, dom Eduardo, achou que essa espingarda velha ia deter o exército paraguaio? – Ajudando a mãe a alçar o homem. – Desta vez, passou. Vamos cuidar das feridas. – Alguns escravos correram amparar os amos. Dando uma olhada em redor, Raquel chamou. – Ezequiel! – Os pretos se entreolharam. – Mais outro preto fugido. – concluiu.
– Meu Deus, Raquel. Que vão fazer com minha filha? – angustiou-se a velha senhora esfregando as mãos no peito formando uma cruz.
– Ninguém mandou aquela tonta dar uma de valente. – zurziu com dureza a irmã da sequestrada.
– Salvou a vida de teu pai! As nossas! – criticou o ferido D. Eduardo, recompondo-se aos poucos. Raquel calou. Fez uma pausa e chamou de novo – Ezequiel! – sem esperar réplica foi entrando na casa, suas ordens retumbaram pelo edifício avarandado. – Limpem tudo! Recolham as galinhas e os bichos que restaram, apaguem o fogo na estrebaria, sepultem os mortos e curem os feridos. – A última ordem gritada ecoou pelas matas: – Encontrem Ezequiel!

Num matagal não muito distante, o grupo formado por alguns negrotes e vários índios ouve o nome retinir na lonjura e param o trote. Exultante, o nomeado esclarece aos companheiros:
– É sinhá Raquel! Conseguiram sobrevivé aos paraguaios! Volto lá! Vosmecês continuem pro arraiá. – O grupo aquiesce e continua a cavalgada. O negro Ezequiel comanda a sua, atrás do chamado.
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Extraído do romance "Sobre Moscas e Aranhas de guerra" de Dalton W. Reis

Um comentário:

Joao Paulo Mesquita Simoes disse...

"Nao precisa de violência nas mulheres (...)"
Infelizmente, é o que mais se vê. E não só nas mulheres. Crianças, idosos e como retratas aqui, de raças diferentes.
Mais uma vez um texto ímpar, relatando muitas realidades de antigamente e que hoje, infelizmente, em pleno século XXI, ainda acontecem por esse Mundo!

Abraços!

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