domingo, 28 de fevereiro de 2010

Fase 3

Por Ed Santos




Enquanto a massa polar derrete e o sol esquenta cada vez mais nos trópicos, ele simplesmente sua as mãos de tanto movimentar manches e apertar botões coloridos.
Quando a criação lhe informou que ele seria alguém não relutou, mas desconfiado, desceu a escadaria da realidade e foi-se para o que sempre quis fazer. A maior ânsia era controlar a vida alheia, e nas madrugadas frias, após despejar-se sobre a manta fedorenta e lilás, tentava dormir por duas horas, mesmo sabendo que não conseguiria.
Então levantava, saía e andarilhava até voltar suado e com  preguiça. Vez por outra trazia nas mãos um livro. Lia-o, devorava-o e devolvia-o, para depois amanhã trazer outro. E assim ia.
De noite, a mesma coisa. Tentava transferir para o virtual a sua vontade frenética e seu desejo verde de ser alguém. Mas como? No ócio? Ia percorrendo o trajeto, sem  ao menos saber onde iria chegar ao certo. Cada fase escondia uma surpresa. Cada moeda dourada que conseguia colher era motivo de euforia e brilho, muito brilho. As etapas iam ficando cada vez mais turvas e difíceis. No início, tudo era belo. Os arbustos pela trilha escondiam flores com fragrâncias docemente delicadas. Os animais todos receptivos e mansos. O céu azul com um brilhante e amarelo sol aceso. No meio do percurso, via que as coisas começaram a mudar. Tinha que se defender dos animais que cada vez mais demonstravam-se ferozes, e as árvores tornaram-se plantas perigosas e ameaçadoras. Nem o céu manteve sua coloração original e de azul celeste, passou a cinza-avioletado. Trevas?
Na continuidade, em  cada passo, agora dado em maior intervalo de tempo, ficava registrado uma trajetória cautelosa. Desde aquele tempo em que sujava a manta, seu desejo era simplesmente chegar. E o céu cinza-avioletado ajudou a desvendar que nunca será necessário buscar nada. As moedas douradas vão aparecendo por aí. Cabe apenas dar uns pulos, levantar as mãos e alcançá-las. Os poderes adquiridos e a experiência acumulada em cada etapa ajudam a perceber melhor cada passo dado e aumenta a defesa.
Em algum momento alguém  lhe disse que cabe a cada um buscar o seu pote de ouro. Mas não há potes para todos. No jogo da vida, ele pode aparecer do nada, mas também pode simplesmente ficar lá quieto no seu canto e passar despercebido. Ele simplesmente ignora a segunda opção e continua a caminhar. Farta-se de moedas douradas, e a cada pulo, ganha uma vida. 

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